Horizon Zero Dawn | Crítica


Convidado

Para os fãs de Game of Thrones, uma mulher ruiva de arco e flecha só poderia ser Ygritte. Agora, depois de Horizon Zero Dawn, há uma nova ruiva nessa categoria: Aloy. Desenvolvido pela Guerrilla Games, a mesma responsável por Killzone, Horizon Zero Dawn coloca o jogador dentro de um universo que ao mesmo tempo é futurista e tribal. Nesse conflito de mundos, temos uma narrativa muito bem construída aliada a um gameplay fluido e instintivo. Sem mais delongas, vamos à crítica a esse sucesso de mercado, que já vendeu mais de dois milhões e meio de cópias.

Antes de mergulhar nos aspectos mecânicos do jogo, vale a pena falar um pouco sobre o universo. Horizon Zero Dawn te dá controle sobre Aloy, uma menina tratada como pária de sua tribo e criada por um homem também execrado pelos seus iguais, Rost. Desde o primeiro momento, você entende que a não-aceitação de Aloy pelos Nora (a tribo em questão) desperta a curiosidade da protagonista: por que me tratam dessa forma? O que me fez ser isto? Esses questionamentos primários sob o prisma da identidade são a força motriz das ações de Aloy; e o disparador das tramas subsequentes.



Por se tratar de uma propriedade intelectual completamente nova, há uma preocupação gigantesca dos designers em mergulhar o jogador naquele universo. Todas as side quests tem grande ênfase narrativa, despertando o interesse e preenchendo as lacunas que explicam o estágio de vida daquele mundo. Aos poucos você entende, por meio de cada interação, o que eram os prédios em ruínas, como as tribos se dividiram da forma que se dividiram e quais são as orientações políticas e religiosas de cada uma delas. Se tivéssemos que traçar um comparativo no aspecto narrativo, poderíamos dizer que a Guerrilla Games bebeu da fonte de The Witcher 3.

Mais do que isso, a linha narrativa principal - que, para não darmos spoilers, é aquela que aos poucos dão conta dos questionamentos de Aloy - vai explicando a cada missão de forma dosada e num ritmo que deixa o jogador querendo dar o passo adicional para compreender aquele universo. Horizon Zero Dawn tem arquivos de áudio e texto espalhados pelo mundo, dando cores ao mundo antes do evento que colocou a humanidade novamente em tempos primitivos.

Para completar os comentários narrativos, o jogo oferece colecionáveis: “ancient vessels”, que nada mais são do que canecas; "banuk figures”; "vantage points”, lugares que permitem o jogador vislumbrar as construções no passado; e "metal flowers”. Todas elas (necessárias para quem deseja conquistar o troféu de Platina) trazem mais informações para o mundo e as cercanias de Aloy.

Há uma crítica bem leve aos costumes sociais mantidos apenas por serem costumes e isso permeia a narrativa de maneira bastante elegante. Apesar de a narrativa ser cinematográfica no limite que um jogo permite, você não sente o peso dessas escolhas, muito pelo contrário: você fica imerso como se vendo um ótimo filme.



E por falar em filme, a beleza gráfica é estonteante. Da mesma forma que Shadow of the Colossus deixou jogadores fascinados nos anos do PlayStation 2, Horizon Zero Dawn seria seu equivalente em estupefar no PlayStation 4. Não à toa, o jogo traz o Photo Mode, onde os jogadores podem pausar a experiência para tirar fotos belíssimas desse rico e detalhado ambiente. Vamos, finalmente, às mecânicas.

A interação do jogador com o mundo, através da protagonista Aloy é por meio de ações em tempo real. Você precisa executar os movimentos com um bom timing para não ser esmagado por uma máquina gigante. Posto isso, a dinâmica de construção do mundo permite que você não entre enlouquecidamente no combate: há, antes da ação em si, tempo para pensar, entender o ambiente e planejar.

Se você tem um ponto fraco por jogos que exigem um bom conhecimento dos seus próprios recursos e do ambiente - e isso abrange desde o bom e velho xadrez, o poker que você joga com seus amigos que demanda não só conhecê-los, mas também se planejar de acordo, até jogos modernos, como a série Civilization ou o indie Darkest Dungeon, você certamente terá esse aspecto mental atendido.

Antes de disparar uma flecha sequer, o jogador tem a faculdade de colocar armadilhas, desde uma bomba de proximidade até um cabo colocado com o intuito de fazer as bestas-máquinas tropeçarem. Horizon Zero Dawn oferece, além de arcos distintos - cada um com munições particulares e funções diferentes, estilingues para projéteis de alto dano, uma espécie de “lança-cabos” para segurar as bestas maiores em um lugar só, e armas de maior proximidade que derrubam o escudo de inimigos melhor protegidos. Combine essa variedade de armas aos ambientes variados e os comportamentos diferentes de cada uma das máquinas, e você tem um ganho estratégico gigantesco.



Poderia ser apenas, claro, um jogo com várias opções de ação que não se traduzem de forma satisfatória no gameplay. Só que isso não acontece; andar com Aloy e enfrentar diferentes inimigos seria um jogo divertido por si só. Algumas das críticas mais pesadas se deram em relação à interação com o mundo: caixas e vasos não quebram, a física da água é um pouco desleixada e os trajetos de escalada são limitadas. Embora sejam de fato elementos que frustrem os jogadores na interação com o universo, não matam a experiência ou removem o jogador daquele universo o suficiente para prejudicar a imersão.

Ainda dentro da parte de ação, uma das coisas mais divertidas para se fazer são os Hunting Grounds espalhados pelo mundo. São cinco ao total, cada um deles com três desafios. Estes são, basicamente, testes das suas habilidades em ações específicas, seja arrancar componentes de máquinas com flechas ou tentar matar máquinas com habilidades stealth. Se você conseguir alcançar a pontuação máxima em todas elas, pode conquistar as melhores armas do jogo - não que seja de gigante diferença para as que adquire de forma “tradicional”, mas quem tem aquela síndrome de completude não pode deixar passar.

No final das contas, Horizon Zero Dawn atinge com maestria todos os objetivos que se propõe: oferece um mundo aberto rico e preenchido, estruturando a história de Aloy, o que a cerca e plantando sementes para eventuais novas aventuras. O jogo conta com um gameplay viciante, fluido e variado o suficiente para que o jogador se sinta sempre no desenvolvimento de novas estratégias. Sem sombra de dúvidas, se Horizon Zero Dawn não tivesse sido lançado em um primeiro trimestre tão abarrotado de gigantes lançamentos - Mass Effect: Andromeda, Nioh e Nier:Automata, para citar alguns, seria já o franco favorito ao jogo do ano.

Patreon de O Vértice