Watch Dogs 2 | Crítica


O primeiro Watch Dogs que a Ubisoft lançou foi um enorme sucesso de venda, mas a crítica no geral pegou um pouco no pé de alguns problemas graves que o jogo apresentava e que foi moderadamente corrigido nas DLCs subsequentes do jogo. Agora, a ideia parece que foi refazer tudo que estava errado no jogo anterior e melhorar o que já era bom e o tiro foi certeiro em diversas áreas, mas não em todas.

A cidade de Chicago do último jogo parecia viva e acertava em diversas questões que uma cidade simulada precisava acertar, não era nada tão perfeito como Los Santos em GTA V, mas ainda assim era uma simulaão cheia de sacadas interessantes em especial no que se tratava dos NPCs, o sistema de termos uma minibiografia sobre cada NPC na cidade era fundamental para o clima do jogo, embora na época fosse só uma questão de imersão, o segundo jogo usa isso com muito mais sagacidade. A São Francisco do jogo está inundada com NPCs hilários e muito do humor que o jogo parece ter abraçado dessa vez, vem através disso e das interações com esses personagens não jogáveis. 

Se eu tenho uma reclamação sobre a franquia GTA é o fato dela gerar uma simulação brilhante da sua ideia parodiada do que é o mundo, mas a única forma de você interagir com esse mundo é através da violência. Watch Dogs 2 conserta isso em partes. Sendo um jogo de ação você primariamente vai interagir com armas, explosões, pancadaria e coisas desse tipo, mas há pequenos toques quase irrelevantes para gameplay, mas que fazem de Watch Dogs 2 um modelo a se seguir nesse tipo de jogos, nesse caso a “roda de gestos e interações” que o jogo tem além da habitual e esperada “roda de armas e habilidades”, faz uma diferença enorme para que você sinta que o mundo é de fato interativo e não apenas um enorme e bonito espaço para mortes e explosões.


Obviamente que a ação do jogo também é muito bem pensada e importantíssima para o gameplay, hackear a cidade é muito mais divertido que no jogo anterior graças as opções serem mais amplas, ainda que algumas das opções básicas sejam as mesmas e que elas acabem se tornando repetitivas após um certo período. Ainda assim a flexibilidade de como completar as missões que o jogo lhe permite faz com que você não precise repetir a mesma tática de sempre, ainda que algumas vezes seja tentador fazer tudo do jeito mais fácil e não do jeito mais divertido.

As missões do jogo são bem variadas também, desde missões stealths onde você pode decidir se você se infiltra nos lugares necessários em pessoa ou usa um de seus drones, ou missões de perseguições até missões em que você precisa usar de fato armamento pesado em assaltos frontais contra diversos tipos de inimigos. O modo multiplayer, entretanto, é bem menos divertido e variado do que as missões single-player, os modos parecem bem mais experimentais embora sejam quase idênticos ao de Watch Dogs 1 e dificilmente vai ser o seu foco quando comprar o jogo, provavelmente é mais um presentinho da Ubisoft para fazer com que o jogo seja um pouco mais duradouro do que algo realmente pensado para complementar a experiência.

Se Watch Dogs 2 tem um defeito, porém, ele está nos seus personagens e em sua trama como um todo. Se todos desgostaram do genérico Aiden Pearce como protagonista do primeiro game, eu não vejo como Marcus Holloway seja uma evolução dele. Marcus tem muito mais personalidade que Aiden e se leva muito menos a sério e isso são qualidades do personagem, mas o seu tom hipster adolescente colorido florescente é tão irritante quanto forçado e pior de tudo, Marcus ainda é dissonante do gameplay do jogo. O garoto gente boa e apaixonado por uma causa nobre num momento está discursando sobre liberdade, em outro está de cueca bêbado no meio da cidade, em outro momento está fazendo pegadinhas para a versão do jogo do Youtube e em outro momento está chacinando policiais e roubando civis.


Mas se Marcus é só um tantinho irritante, é porque ele parece sempre em boa luz no contraste do fato de que ele está acompanhado de alguns dos piores personagens já escritos pela Ubisoft, pois toda a Deadsec, o grupinho hacker do protagonista, é de fazer qualquer jogador revirar os olhos a cada frase calculadamente hipster, teen e contracultura que eles proferem que parece terem sido pensadas para impressionar crianças rebeldes de 8 a 12 anos, mas apesar todos do grupo irritarem bastante em algum momento, ninguém irrita tanto quanto o personagem Wrench, aquele que usa uma máscara estúpida, fala coisas desconexas e aparentemente foi manufaturado para ser o queridinho do jogo. Bem, se essa foi a intenção do estúdio esse foi um epic-fail, pois particularmente se eu tivesse que fazer uma lista com os piores personagens dos games de 2016, Wrench estaria em primeiro lugar com facilidade.

Por sorte o jogo foca muito mais no seu gameplay que é muito divertido do que na sua trama e personagens e por sorte esse gameplay é bem longo, pois além das ótimas missões principais do grupo de panacas forçados da Deadsec, nós ainda temos ótimas missões secundárias e atividades que vão desde ser motorista de Uber até achar pacotes de dinheiro escondidos na cidade e guardados por homens armados e que rendem desafios de dificuldade variada.

Watch Dogs 2, assim como o primeiro jogo, não é perfeito. Ele melhora muito tudo que era bom e piora bastante algumas das coisas que eram ruins, como trama e personagens, mas toda a mecânica de hackear, os puzzles, a flexibilidade de como você pode completar as missões e até a variedade que o multiplayer te permite, se você estiver no clima de experimentá-lo, fazem dele um grande jogo e que começou a dar uma cara e personalidade própria para franquia e essa parece ser uma franquia que vai valer a pena acompanhar. 

Patreon de O Vértice