Virginia | Crítica


Já faz um tempo que temos jogos completamente focados em narrativa e que tentam a partir de pouco contar uma história que envolva o jogador utilizando do cenário e trilha sonora para contar o que aconteceu naquele local. Virginia é um jogo que tenta fazer do mesmo mas utilizando apenas de cenas, edição e trilha sonora para te contar uma ótima história.

Deve ser dito pelo menos que a maior inspiração para a criação de Virginia foi Thirty Flights of Loving, mais um dos jogos de Brendom Chung que se abstém de uma narrativa convencional para lhe contar algo em menos de meia hora. 

Tanto o game designer e escritor Jonathan Burroughs e o animador Terry Kenny jogaram Thirty Flights of Loving, e de tão maravilhados com o jogo desistiram de seus empregos e fundaram a Variable State, na qual dessa empreitada um tanto quanto ambiciosa surgiu Virginia.


Na trama você protagoniza a recém promovida agente do FBI Anne Tarver e sua parceira já experiente Maria Halperin. No seu primeiro caso juntos vocês tem que resolver o desaparecimento de um morador da cidade de Kingdom, Virgínia, Lucas Fairfax. Em meio a confusão da investigação, Anne também terá de lidar com seus próprios problemas dentre eles a busca por sua real identidade.

Virginia facilmente conseguiria ser transformado em algum conteúdo literário ou cinematográfico já que mecanicamente falando ele não tem nada muito espalhafatoso, o máximo que você faz durante o jogo é andar e clicar algumas vezes em poucos objetos. Mas a forma como ele é tratado e bem polido torna ele único.

Metaforicamente falando, a maior mecânica in-game é a própria observação e interpretação do jogador quanto aos eventos durante a semana na qual o jogo é dividido. Saber quando você está na realidade, ou apenas num sonho de Anne é essencial para a história, além de mostrar o quão ela está envolvida na situação e o que isso representa para ela como uma pessoa.

Em muitos momentos o jogo corta secamente para um salto temporal (tanto para o passado, como para o futuro) ou para segundos mais a frente do seu momento atual. Isso se não trabalhado direito conseguiria arruinar completamente a trama, mas a edição é feita de uma forma tão impecável que isso se torna um complemento único para o entendimento da situação e do quão macabra pode ser as consequências dela.


Já que o jogo não conta com sequer uma fala durante todo o seu percurso, a melhor forma de expressar o sentimento que a cena tenta gerar é através da trilha sonora e a mesma é impecável nesse quesito. Tal foi tocada e gravada ao vivo pela Orquestra Filarmônica de Praga, a mesma usada em filmes de David Lynch como Estrada Perdida. 

A principal amostra da importância da trilha durante o gameplay é em momentos como por exemplo o de quando você está na cafeteria e a protagonista num rápido momento tem alguma grande ideia, mas ela está sentada e pensando, como o jogo poderia representar isso? - Através de uma música de fundo que incita ao jogador perceber que algo está se desmembrando na cena. Isso se repete várias vezes e com maestria a todo momento.

Vale salientar é claro que Virginia conta com lindos cenários, mesmo sendo criados a partir de polígonos simples e modelagem low poly. A escolha de tonalidades aplicada ao jogo em cada momento e cenário em especifico faz com que a arte seja destacada de forma linda e simples, já que não contamos com um milhão de informações na tela, apenas um marcador e seu simples e belo cenário.


Se de fato há um grande desafio em Virginia, o mesmo é basicamente fazer o jogador prestar atenção a cada detalhe do que está acontecendo tanto a sua volta quanto em sua frente, contando detalhadamente uma história a partir de simples técnicas de áudio visual. Vale lembrar que tal qual outras obras, Virginia não pode ter ser compreendido em sua plenitude numa única tentativa, sendo necessário uma segunda jogada.








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