O insano culto a Hello Games e ao universo inexplorado de No Man’s Sky


Imagine o seguinte, imagine um jogo com uma promessa quase impossível de se cumprir, a promessa de criar algo antes nunca visto, algo nunca feito, algo que nunca foi sequer tentado, algo extraordinário sobre o qual todos estarão falando completamente admirados pelos próximos anos. É algo a se esperar ansiosamente, com certeza.

Porém... tudo o que vimos desse jogo são diversos vídeos mostrando coisas muito semelhantes, interessantes e que nos dá apenas uma breve ideia do que está além dos vídeos, mas até onde sabemos... não sabemos nada, ao menos nada além das propagandas mostrando as mesmas atividades repetidamente e das esmolas de informação que a imprensa recebe sobre o que está além desses vídeos.

Sim, estou falando de No Man’s Sky e não se engane, eu estou no hype como todos, eu particularmente sou apaixonado pela exploração espacial e um jogo que permite que você explore um universo inteiro em tamanho real é algo a se esperar. No momento Elite: Dangerous é o jogo com mais horas rodadas no meu Xbox One e No Man’s Sky promete ser agora, tudo o que Elite: Dangerous promete ser dentro de vários anos com as suas múltiplas expansões e atualizações.

Quando as mais recentes más notícias sobre No Man’s Sky atingiram a mídia (o jogo foi adiado, leia mais AQUI), em primeira mão pelo site Kotaku, a reação do público que aguarda o jogo foi problemática e inesperada, exceto se você acha comum e esperado ameaças de morte ao jornalista que deu a notícia!!!

Veja a mensagem que Jason Schreier recebeu:
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“Seu artigo sobre No Man's Sky ter sido adiado me fez te odiar profundamente. Essa é a única coisa pela qual eu vivo e você vai lá e escreve essa merda sobre adiamento. Em vez de visitar Londres esse mês como eu planejava, eu acho que vou passar por aí e dizer oi e %$#@ você. Você acha que pode se livrar disso assim tão fácil?”

Matar o mensageiro por uma má notícia é algo medieval e uma ameaça dessas é completamente incompreensível nos dias de hoje, mas ela fica ainda mais patética quando nós estamos falando do adiamento de um jogo de vídeo game. E sim, eu sou um grande advogado de que games são arte, alias, eu acho que isso é um fato que nem precisa ser defendido, mas isso não muda o fato de que é uma obra de terceiros que você vai pagar para consumir para seu prazer, entretenimento ou por necessidades intelectuais... não é como se fosse alguém dizendo que a cura do câncer foi adiada para alguém que sofre de câncer.

As outras reações da comunidade de No Man’s Sky foram completamente esquisitas. Muita gente tentou desbancar o Kotaku afirmando que a notícia era falsa, que era um “ato de sabotagem” embora eu não tenha entendido como isso sabotaria um jogo, mas no geral, a comunidade do game tentou dissolver qualquer chance do Kotaku estar certo sobre o atraso, numa patética negação em massa, mas eles estavam certos. A Sony confirmou poucos dias depois que o game tinha sido adiado em pouco mais de um mês.

As coisas se acalmaram então, certo? Não era um “ato de sabotagem”, não era um site tentando ganhar cliques com notícias falsas sem se importar com os fãs que estranhamente têm No Man’s Sky como “a única coisa pela qual vivem”. Errado! Agora os funcionários e criadores da Hello Games, estúdio que está desenvolvendo o tão aguardado novo universo, foram os alvos de ameaças de morte.

Sim, algo no estilo "morte aos falsos profetas que prometeram criar um universo até tal dia e vão atrasar um mês e poucos dias a sua promessa." Eu imagino que a história do cristianismo e do islã fossem bem diferentes hoje se os primeiros seguidores fossem gamers.



Que alguns nerds em geral podem ser babacas nesse nível nós já sabemos, temos muitos casos por aí de campanhas de ódio contra tudo vindos de nerds preconceituosos e alguns gamers levam a sensação de posse de certas coisas bem a sério, algumas vezes essas campanhas em massa de revolta sobre algo no mundo dos games se dá de forma divertida, como aquele caso em que enviaram centenas de cupcakes coloridos para o escritório da Bioware graças ao final de Mass Effect 3,  outras vezes parece apenas boba e inútil como o caso recente da campanha de dislike do trailer do promissor novo Call of Duty e inúmeros casos assim, na verdade, tantos que eu me perderia falando sobre eles aqui.

Entretanto, em todos os casos nós temos uma constante, a obra que gera esse tipo de reação é uma obra conhecida, parte de uma franquia, ou algo que no geral gera uma sensação afetiva nas pessoas, seja por nostalgia ou por qualquer sentimento prévio... no caso de No Man’s Sky não. É difícil descrever e até entender esse tipo de fascinação extrema por No Man’s Sky de outra forma que se não através de um paralelo com certos cultos, ou uma mini religião, onde profetas (desenvolvedores da Hello Games) prometeram que se faria um novo universo, cheio de novas vidas e espécimes, um novo lugar para você redescobrir de novo e de novo a cada dia, um novo lugar cheio de felicidade, diversão, ação e tudo o que eles lhe ofereceram para comprovar essas promessas foram... anúncios no Youtube. Seria o Youtube os novos livros sagrados?

Sério... você não jogou No Man’s Sky ainda, o cara que só vive por No Man's Sky e adota a política de assassinar portadores de más notícias não jogou No Man's Sky ainda. Nem a imprensa que trabalha com isso teve a chance de jogar o jogo para valer e a essa altura com QUALQUER OUTRO JOGO a imprensa já teria jogado. Não ouve beta fechado, não houveram códigos de download prévios para a imprensa, houveram única e exclusivamente eventos nos quais a imprensa pode jogar o jogo de forma extremamente controlada. Mesmo o IGN americano que conseguiu uma mega cobertura exclusiva de No Man’s Sky lançando um novo vídeo e uma nova informação do jogo por dia durante um mês inteiro, teve a liberdade de jogá-lo para valer, sempre que um vídeo do jogo sendo jogado “ao vivo” aparecia, quem segurava o controle era Sean Murray, o CEO, líder e profeta da Hello Games. Esse mesmo profeta que foi espalhar a palavra no programa do genial Stephen Colbert e tudo o que ele fez lá parecia muito legal, mas rodando dentro de um script feito exclusivamente para aparecer no programa do Colbert.


Vamos cogitar, por um segundo apenas que No Man’s Sky seja uma falsa promessa, que o jogo não seja tudo o que ele prometeu ser, que ele não seja NADA do que ele prometeu ser, pois a esse ponto, tudo o que sabemos sobre o jogo é que ele pode ser igualmente revolucionário ou uma péssima tentativa, pois em anúncios e em eventos controlados o pior dos games pode parecer interessante, afinal, você lembra de Watch Dogs? Talvez ele seja mesmo tudo o que prometeu, mas quando você o jogar você pode perceber que ele é um jogo completamente de nicho, como o próprio Elite: Dangerous que eu mencionei agora pouco, que é um game que eu amo, mas meus amigos e diversas pessoas que tentaram acharam apenas ok, porque simplesmente não é um jogo para elas.

Talvez No Man’s Sky seja incrível, talvez seja péssimo, talvez mude tudo, talvez seja apenas um jogo, talvez seja um bom jogo, mas que simplesmente não é o jogo para você e sim, eu sei que hype são divertidos e saudáveis e meio que movimenta a indústria, mas hype é uma coisa, cultos são outras.

Nesse momento o melhor que podemos fazer é esperar até o seu lançamento, de preferência sem ameaçar ninguém de morte enquanto isso, e torcer para que esse novo universo seja tão divertido quanto a expectativa que temos unicamente em nossas mentes diz que ele será, mas só saberemos no dia 9 de agosto, quando a Hello Games disser “que se faça a luz”...
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