Crítica | Narcos 1x08 - La Gran Mentira


“Pues las mentiras son necesarias cuando la verdad es muy difícil de creer.”



O potencial de Narcos para surpreender nunca acaba, e como episódio, “La Gran Mentira” é o melhor exemplo disso. A série já brincou com ritmos, planos, dualidades de enredo e uma pá de outros recursos fantásticos. E, neste episódio, a série vai a um nível muito mais conceitual para nos apresentar outra excelente hora de TV. O conceito de todo o episódio está no seu título, já que, enquanto a narrativa transcorre num passo mais calmo, todas as tramas do episódio circulam entre as mentiras, retomando a ideia do Realismo Mágico e fazendo com que seja difícil decidir qual delas é “La Gran” mentira.


O começo do episódio já nos lembra que estamos nos aproximando do fim da temporada, ao vermos – embora essa situação vá mudar no decorrer dos acordos – que a agressividade da caçada conduzida por um Carrillo cada vez mais obstinado (e seu Search Bloc) começa a gerar – finalmente – inconvenientes para Escobar. Não satisfeito com isso, Padilha também usa esse momento para inserir um alívio cômico da melhor qualidade.


A apresentação de certas reflexões também é algo que pode ser ligado diretamente à proximidade do fim da temporada. Quando Diana joga a verdade na cara de Escobar, essa ato de dizer dela vai além do ódio ou da razão e assume um papel de consciência moral, feita especificamente para contrastar com o ego que Escobar expressa. Ele realmente já tinha respeito e, mesmo sendo quem ele é (e apesar da origem do dinheiro), ele realmente poderia ter feito mais, e ter mantido o respeito que ele tanto preza caso não tivesse decidido reagir à rejeição dos “homens de sempre” de maneira tão brutal, talvez, só talvez, as coisas pudessem ter sido diferentes.


Divagações a parte, trazer um retrado da pressão interna – e de como ela afeta ambos os lados – foi outro mérito do episódio. “causa e efeito” são inerentes a situação em que Escobar e Gaviria durante a assim chamada “negociação”. Cada um pressiona a jogada do outro, reagindo ao que o outro fez antes, tudo isso num ciclo que poderia ter durado mais se a morte de Diana Turbay – falo mais sobre isso já já – não tivesse acontecido. E é no meio dessa pressão que o ex-presidente Turbay aparece com uma das melhores definições da situação de Gavíria e da negociação:




“Usted es presidente de uno país que hace rato se convirtió en el Inferno. ¿Con quién más pensó que tenía que hacer un trato?”



O uso do peso da morte de Diana como uma justificativa para a concessão das exigências de Escobar foi outra jogada excelente. A morte dela foi... diferente. Não há definição melhor. Afinal, a abordagem da personagem foi diferente, o tempo “extra” que tivemos para nos habituar a ela e até mesmo a morte muito mais fatalista (e bem menos traumática/dramática) do que a de outros personagens (óbvio que estou falando de Jaime).


Ver Pablo colocar Valéria no lugar dela foi simplesmente excelente, embora eu não esperasse vê-la reconhecer o papel que ela ocupa e defendê-lo com tanto orgulho, mesmo quando Pacho ofereceu uma oportunidade que poderia te sido útil para ela.


E já que as surpresas de Valeria são o assunto, confesso que ainda não sei se – considerando o quão “b*tch” ela é – mencionar o nome do hotel em que família de Pablo estava para Pacho foi proposital ou não. De qualquer forma, o atentado contra Pablo é um exemplo do quanto Gustavo estava certo. Na hora em que ele demonstrou fraqueza, todos decidiram fazer seu avanço.


A traição circulou pelo episódio como um todo, e Pablo a sentiu em várias frontes. O atentado e a perda de Gustavo cobraram um preço alto do líder do Cartel de Medellín, embora o que realmente se destaque neste segmento seja a maneira que a cena de Pablo com a mãe se torna muito mais “profunda” do que o resto.


Para não terminar sem ter falado sobre ele, Carrillo também teve seus momentos não-cômicos no episódio. Ele pode até não ter tido tanta ação no seu tempo de cena (como no episódio anterior), mas a “galeria de vítimas” que ele apresentou a Gustavo foi interessante, mais ainda por retomar os métodos alternativos usados por ele para tentar obter informações. Nesta parte, ainda vale destacar que a risada à la Coringa de Gustavo, além de macabra, serviu como um lembrete de que Padilha sabe brincar sim com outras referências.


A narração termina o episódio abandonando o tom de filler que havia adquirido e agora retoma o tom mais tendencioso-reflexivo apresentado no piloto. Essa mudança é uma analogia direta da mudança que esse momento representou para o próprio Murphy. Somos levados de volta à realidade – e a cena – que nos foi apresentada no fim do piloto para entender o que (e como) tudo aconteceu, mostrando como o Murphy cheio de ideais que nos foi apresentado noutras partes da temporada finalmente chega a essa sua “versão” capaz de fazer tratos com os “diabos” sem medir as consequências.


Como um todo, foi um episódio excelente, especialmente por usar uma gama maior de recursos narrativos, deixando de lado algumas das receitas “Padilha” por uma vibe mais House of Cards (o que é um selo garantido de qualidade).


Por hora, é tudo o que tenho para dizer. Nos vemos no próximo episódio, intitulado La Catedral. Hasta la vista, baby!

Patreon de O Vértice