Crítica | Narcos 1x07 - You Will Cry Tears of Blood


“The thing about war is... it’s just bad for business.”



A nossa jornada por Narcos alcançou o sétimo dos dez episódios da primeira temporada. Depois de uma das cenas que mais revoltou os espectadores – a morte de Jaime – nos deparamos com as consequências desta (e de todas as outras) situação em “You Will Cry Tears of Blood”.


Na verdade, “repercussões” e “consequências” são as melhores definições para o episódio. O episódio continua diretamente aquilo deixado pelo cliffhanger do episódio anterior, trazendo os resultados da explosão do avião. E como se o acontecimento em si não tivesse sido devastador o suficiente, ainda temos que ir ao encontro da esposa de Jaime, que obviamente está arrasada com o desaparecimento/morte do marido, e mal sabe o acaba por acontecer com ela neste episódio.


Trazer um olhar das mulheres na vida de Escobar foi interessante. Obviamente, é difícil acreditar que as pessoas ligadas a nós possam cometer atrocidades, mas mesmo assim, mostrar uma cena tão mais reflexiva, principalmente agora, que todos os outros núcleos vão em direção a confrontos mais intensos (fadados a terminar tão terrivelmente como o do episódio anterior). Mas, pelo menos serve para continuar a dualidade que já virou marca registrada da série. A crença de Tata em seu marido se iguala àquela que vimos em Connie demonstrou no “There Will Be a Future”.


A minha teoria desse ser um episódio de repercussões é comprovada pela maneira com que a eleição de Gaviria – que vence as eleições e se torna presidente cerca de seis meses depois da explosão do avião – nos é apresentada. O novo presidente assume uma cadeira que sofreu muito no combate contra Escobar, e infelizmente, se encontra numa posição em que é forçado a fazer muitas escolhas, algumas delas não tão felicitas assim. Afinal, embora ele não esteja inteiramente errado em querer usar seus próprios recursos (diminuindo a influência estrangeira no seu governo), principalmente para não ser visto como um mero fantoche americano pelo seu próprio povo. Mas talvez – especialmente porque ele acaba tendo que recorrer a eles novamente ainda neste episódio – ele devesse ter pensado um pouco mais antes de desdenhar dos americanos. Não acho que cuspir no prato que ele comeu – já que, bem ou mal, foram os americanos que conseguiram liquidar os Gacha – seja a melhor escolha, principalmente considerando o montante a disposição de Escobar para subornar tantos quanto possível ou necessário.


Mas as ameaças e desdéns em momentos errados não se resumiram ao novo Presidente. Pablo também acabou por cometer esse erro. Afinal, por mais que seja difícil admitir, naquele momento, a estabilidade silenciosa e burocrática do Cartel de Cali dava a eles uma vantagem – e nela, talvez certa superioridade – que ele não tinha.


Outra sacada legal do episódio é o tom de justiça poética criado quando, atados pela burocracia, a CIA, o DEA e os Militares são forçados a trabalhar juntos, na tentativa de fazerem, mesmo que da maneira mais difícil, aquilo que eles estão impedidos de fazer pelos meios habituais.


Os lugares em que Padilha decide inserir os alívios cômicos mais doentios possíveis continuam a me chocar. Poison e La Quica já tinham tido esse espaço na contagem de mortes no “The Men of Always”, e agora, além da cena em que Poison prova que não existe honra entre ladrões, eles dividiram outro diálogo que vale mencionar:




“ – Mirame a Pablo convertido en santo.


  – Pues claro. Así los manda derechito pro cielo, hombre.”



Confesso que, com tantos elementos já presentes, não esperava que Padilha fosse resgatar Valeria só para criar esse tom de inimizade entre ela e Diana Turbay. Não me entendam mal! Ninguém aprecia mais um duelo desse tipo, mas não acho que seja aquilo que nós realmente queremos ver neste ponto, mais ainda por ser uma cena que antecede por um momento em que é difícil segurar o “p#t@ que pariu!” (quando Poison entra na vibe “apocalipse zumbi” e explode a cabeça de uma das reféns).


O espírito de repercussões se propaga até o fim do episódio, quando Gaviria acaba por ter que ceder e negociar com Escobar, quando se torna impossível para ele, como a narração nos lembra, lidar com a pressão interna, que é algo que pode desestabilizar um governo – e, como consequência, um país – de maneira muito mais rápida e eficiente do que qualquer outro problema.


A cena da perseguição foi simplesmente espetacular. O jogo de planos, as transições frenéticas, a dualidade de conduzir a perseguição em duas frontes (bem procedural), a desaceleração brusca do tempo da cena quando Peña se vê confrontando o máximo do inesperado (o menino com a arma) na forma mais clara e cruel da corrupção social causada pelo Cartel... a cena em si – mesmo sendo outra repetição de mais uma das receitas “Clássico Padilha” (o que não é um defeito, mas também não é de todo uma qualidade) – é uma verdadeira obra de arte.


Mas, resultados a parte (e para terminar o texto), acredito que o final do episódio tenha sido o menos chocante/revoltante da temporada até aqui. Vemos Pablo planejar uma construção, que eu acredito ser de La Catedral, prisão construída seguindo as especificações do próprio Escobar, onde ele foi mantido depois de se entregar ao governo, exigindo – e sendo atendido – apenas a não extradição. E é claro, vemos a família Murphy cuidar da filha de Jaime, que viu os dois pais se tornarem “dano colateral” dos planos de Escobar.


Por hora, é tudo o que tenho para dizer. Nos vemos no próximo episódio, intitulado “La Gran Mentira”. Hasta la vista, baby!

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