Crítica | True Detective 2x07 - Black Maps and Hotel Rooms

Vivemos uma época em que o Brasil está abalado pelo esquema de corrupção investigado na Operação Lava-Jato. A cada semana, há mais de um ano, surgem sempre notícias fresquinhas a respeito da investigação. Cada vez mais as coisas ficam emboladas, confusas. Cada dia, descobre-se o envolvimento de mais gente. A segunda temporada de True Detective, trata de um caso de amplitude menor, obviamente, mas que não deixa ter base num grande esquema criminoso, e que assim como no Brasil atual, na Itália mafiosa e pré-Berlusconi dos anos 90, ou em qualquer outro lugar, tira ou arruina, indiretamente, a vida de muitos inocentes.


Admiro Nic Pizzolatto por ter criado um caso tão complexo assim. Não o admiro por não ter dado o trato adequado no desenvolvimento da série, o que foi decepcionante, visto o trato primoroso dado a toda primeira temporada. Por mais realista que seja a história, também não é justificativa para acabar com o objetivo primordial dela: entreter o telespectador. Esta temporada de True Detective não conseguiu fazer isto tão bem, e não, nem toda história realista é chata - The Wire está aí para provar isto.


Bom, deixando as críticas sobre o passado desta temporada de lado, foco total no presente. "Black Maps and Hotel Rooms" foi um Excelente episódio, com "E" maiúsculo mesmo. Dirigido pelo sempre ótimo Dan Attias (você provavelmente nunca ouviu falar dele, mas com certeza conhece seu trabalho. Ele dirigiu episódios, de no mínimo uma série que você já viu, tenha consciência disso). Uma hora de pura tensão, que assim como o episódio antecessor, fez presença na medida certa. Os nossos quatro heróis, ou anti-heróis, ou supostos anti-heróis, deixaram de ser caçadores, para virarem caça.


 


Velcoro e Bezzerides, agora procurados pelos seus próprios colegas de trabalho, pouco fizeram no episódio, a não ser se relacionarem sexualmente (não tenho opinião formada sobre o casal, acredito que isso não deva receber taaaanta atenção agora). Já Woodrugh e Semyon, partiram para o contra-ataque.


Frank, aliás, deixou claro neste episódio que é um torcedor do Botafogo. O confronto dele contra Blake Churchman, sobre a traição deste, acredito eu que tenha sido o melhor momento do personagem de Vince Vaughn. O Frank destemido, com sangue nos olhos, fez uma participação ainda mais intensa neste episódio. O mafioso arrancou a verdade do traidor torturando-o, bem no estilo tão empregado por Vic Mackey de The Shield. Todas as novas informações o levaram a Osip. Foi um pouco estranho até como este caiu fácil na conversa do Frank, depois. Para um criminoso russo impiedoso, ele liberou o rival com muita facilidade, e isso custou caro para ele, até porque, quem aqui gostaria de morrer queimado?


A morte da Davis, que coordenava essa investigação de bastidores, foi o twist mais cru deste episódio, talvez até de toda a temporada. Quando Velcoro via nela a esperança para sair desta situação delicada, ele a encontra assassinada, aparentemente a sangue frio, dentro do próprio carro, num dos momentos mais impactantes para a história.



Paul Woodrugh, após receber ameças do vazamento de suas fotos com o amante (tiradas pelo personagem do W. Earl Brown, no segundo episódio se não me engano), esconde seus familiares, e decide ir atrás da pessoa que possui as fotos, mesmo tendo noção de que poderia ser uma armação. Como veterano de guerra, sua astúcia é justificável. Lá, ele encontra o chefe de polícia Holloway, e descobre que o mesmo é um dos maestros de todo o esquema de corrupção, além de ter conexão direta com o assassinato de Casper e a armação que foi a chacina do episódio quatro. Assim como o Osip, me incomoda como o Holloway caiu fácil na conversa do Paul. De qualquer forma, no momento mais tenso de toda a temporada, Paul consegue escapar de Holloway, seu amante, e os outros três capangas, matando todos eles (menos Holloway). Eis que o episódio termina com sua chocante e inesperada morte. Ele nadou, nadou, e morreu na praia, e consequentemente, junto com ele, foram-se as informações que ele conseguiu, além de é claro, deixar seu filho sem pai. Este personagem, de longe o mais danificado dos quatro centrais, morre de forma trágica.


Pela grande expectativa que os eventos deste episódio geraram para o episódio final desta temporada, parece que Nic Pizzolatto, por mais que tenha demorado, fez esta temporada engrenar. Está tão bom agora, quando o caso complexo da temporada começa a fazer sentido, que as peças começam a se encaixar. Fico imaginando se os investigadores da Lava-Jato sentem ou não esta mesma sensação quando tudo começa a fazer sentido. A atitude do showrunner, ao matar um de seus quatro protagonistas, não soa a mim nem um pouco forçado, como alguns tem argumentado nos fóruns pela internet. Numa trama embolada, com tantas figuras envolvidas, é bem possível sim que alguém perca sua vida. A morte de Paul foi sim chocante, e talvez tenha sido saudável para a série a série também. Ele também morreu de forma cruel, o que faz jus à visão do autor da série e à proposta da mesma.


Enfim, que venha o último episódio! Que encerre bem esta polêmica temporada.

Patreon de O Vértice