Beyond Eyes | Crítica

Beyond Eyes sofre a injusta tarefa de ser julgado como um jogo de videogame, quando na verdade ele está mais para ser uma experiência emocional e social, infelizmente nós somos um site sobre cultura pop e podemos julgá-lo principalmente como o primeiro e é aí onde a injustiça paira, porque artisticamente as pessoas ainda não dão valor para os games como eles merecem, coisa que eu mencionei nesse post AQUI onde um dos temas também é o jogo em questão.


A ideia do game do Team 17 é louvável e é apresentada de forma extremamente criativa, ver o mundo “através dos olhos” de uma garota cega, ou melhor, não bem através dos olhos, mas do tato, do olfato e da audição e da imaginação que torna toda uma mistura de sentidos em algo visualmente lírico e bonito.


Nossa missão, assim como em muitos bons games, é extremamente simples, achar Nani, nosso gatinho que sumiu durante o inverno e para isso nós temos que nos aventurar para mais longe de casa do que jamais fomos sem qualquer supervisão, tentando encontrar o bichano, temos que guiar Rae, nossa protagonista, por um caminho histericamente branco que só se preenche de cor quando o tato, olfato e audição da personagem entram em ação com o ambiente, e uma das coisas mais legais disso é que todos os sentidos da menina podem se enganar e nos demonstrar visualmente uma coisa, que na verdade é outra.


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O jogo é bem curto, talvez dure no máximo três horas e essa é uma das suas vantagens, pois caso o contrário correria o risco dele ser absolutamente insuportável, porque por melhor intencionada que seja sua ideia e por mais bonito que seja o seu visual, o gameplay é constantemente frustrante.


Explorar o cenário por explorar não é tão divertido na prática como deveria ser no papel e nem estou falando sobre a frustração de andar metros por um caminho só para descobrir que ele é um caminho fechado e então ter que voltar o caminho inteiro com uma personagem que caminha lentamente, já que por razões óbvias ela não pode correr. O frustração é porque é basicamente só isso que tem que ser feito durante as três horas, simplesmente andar, o que é um desperdício porque haveria uma grande possibilidade de puzzles a serem criados utilizando-se da limitação da personagem, como usar o olfato para descobrir uma melhor forma de passar por tal caminho, a audição para “enxergar” algo para usar em outro lugar e por aí vai, mas não há puzzles ou qualquer interação mais complexa, há apenas andar e andar e a única dificuldade que você tem é encontrar o caminho certo, mas o jogo é bem “nos trilhos”, você não tem várias formas de fazer algo, você não tem vários caminhos diferentes a seguir, você só tem um trilho a seguir e o conflito do jogo é que você não enxerga o trilho.


Em um momento especifico, Rae enfrenta uma tempestade e isso afeta fortemente seus sentidos de maneira ruim, o som da chuva diferente do que Ben Affleck nos ensinou, não parece ajudar os sentidos de um cego, já que a tempestade pela qual Rae passa a deixa completamente desnorteada e afeta a forma como nós vemos o cenário. Essa é uma variação muito bem vinda para o gameplay, mas que acontece só uma vez e muito brevemente.


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A propósito, há também alguns problemas técnicos na exploração, especialmente no visual dos objetos e na programação deles, por exemplo, Rae, não pode passar entre duas árvores que estejam uma do lado da outra, por mais que ela caiba na passagem, porque parece que os objetos ocupam mais espaço do que visualmente parecem ocupar, não foram poucas vezes que a tarefa de contornar um arbusto se tornou excruciante graças a parecer haver um cubo invisível em volta do arbusto claramente redondo que tentamos atravessar, e esse problema parece se dar com todos os objetos do cenário.


Mas apesar de frustrante na parte do gameplay, o jogo tem diversas pérolas, tanto no visual, quando na ideia geral que eu já elogiei e preciso repetir, que é linda, a personagem, a trilha sonora e a história também não ficam para trás, essa última apesar de leve e simples, conseguiu mexer com força comigo, pois é um belo conto de como lidar com perdas, seja a da visão, a do seu gato e melhor amigo, além de como lidar com as ilusões dos nossos sentidos e de como podemos ser facilmente enganados por eles, algumas vezes de forma cruel.


Infelizmente essa soma de coisas brilhantes e de alguns pontos medíocres fazem de Beyond Eyes uma experiência interessante e bonita, mas também faz dele um jogo bem chato, que só se salva como game por ser muito curto.

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