Penny Dreadful – 2° Temporada | Crítica


Depois de uma ótima, mas imperfeita primeira temporada, Penny Dreadful recomeçou esse ano um pouco decepcionante. Num primeiro momento parecia que John Logan e companhia tinham emburrecido a série para tentar angariar um público maior para ela, ou simplesmente não conseguiu manter o mesmo nível de escrita de antes, o que vem acontecendo com um número cada vez maior de boas séries como Orphan Black e True Detective que hoje são sombras do que foram a primeira temporada.

Mas por sorte Penny Dreadful se mostrou fraca apenas por dois episódios, já que o terceiro episódio desse ano, mostrando mais uma vez que a série transforma seus flashbacks em obras-primas, foi focado em mostrar o "treinamento de bruxa" de Vanessa Ives e uma pequena introdução apropriada das novas (e péssimas) vilãs. O episódio serve quase que como uma história de origem para um super-herói, se Penny Dreadful fosse uma série da Marvel, Eva Green terminaria o episódio com um uniforme de escorpião e com uma cena pós-creditos e por certo ela seria a heroína mais interessante do estúdio. O que se formos parar para pensar, não é tão louco, já que de uma forma ou de outra Penny Dreadful é claramente inspirados nos quadrinhos de A Liga Extraordinária como eu já mencionei na crítica da primeira temporada.



The Nightcomers é um episódio muito significativo porque além de mostrar mais do passado de Vanessa Ives, ele é provavelmente o mais bem produzido de toda a temporada, espelhando a qualidade brilhante do episódio Closer Than Sisters na primeira temporada.


A série começou a evoluir a partir desse terceiro episódio e ainda que as vilãs desse segundo ano não sejam nada engajadoras, alias, a direção de arte da série da Showtime precisa repensar seus vilões, eles não podem ser todos os anos carecas branquelos e cheios de cicatrizes. Madame Kali e Hecate, por mais que sejam bem interpretadas por Helen McCrory e Sarah Greene, são personagens unidimensionais e clichês do gênero que vão contra o restante dos personagens da série que são de arquétipos evadindo seus principais clichês.




Além disso, outro problema do ano passado continuou esse ano, que é o fato de Dorian Gray ainda ser um personagem que está lá na série apenas para que ela fique com o completo clima de A Liga Extraordinária que já possui. Ainda que nos dois últimos episódios a sua trama tenha se unido brevemente a trama de Frankenstein, ela ainda soa um pouco deslocada de tudo o que eles estão fazendo e a forma como a temporada terminou parece deixar ele como o potencial vilão da terceira temporada, o que também não combina muito com a sua relação anterior com Vanessa e Ethan, mas até aí estou apenas especulando, já que Dorian se mostrou imprevisível um pouco antes com Angelique, na primeira e espetacular cena onde vemos o seu Retrato com R maiúsculo. A propósito, se eu critiquei a produção da série pelo visual dos vilões desse ano, preciso retirar a critica e dar um elogio graças ao quão interessante é o tal retrato de Dorian Gray que vinha sendo minuciosamente escondido até agora.

Victor Frankenstein e sua relação com sua nova criação, Lilly, minaram um pouco a força do personagem, que para mim era o melhor da série na primeira temporada, ele perdeu um pouco de espaço e embora ainda tenha participado de alguns momentos memoráveis, como na cena entre ele e suas três criações e mesmo a cena final entre ele, Lilly e Dorian, que foi uma bizarramente linda valsa sangrenta, ele teve pouco a fazer esse ano. Depois de criar a “Noiva de Frankenstein” já no primeiro episódio dessa segunda temporada, ele mais reagiu aos acontecimentos da série do que os influenciou de fato. Apesar disso, seus momentos com Vanessa ainda foram interessantes, os dois são amigos improváveis que tem uma ótima química em tela, ao seu próprio modo obviamente e os dois juntos acabaram sendo um dos poucos alívios cômicos de uma série que presa tanto pelo terror e pela poesia, mas vale destacar de que apesar da série não ter dado tanto o que Frankenstein fazer esse ano, ela não perdeu a mão sobre como escrevê-lo, o momento em que ele fala sobre o uso de drogas, que em sua visão é uma forma apenas de “hackear” o próprio corpo, é um excelente exemplo de mostrar a forma como ele pensa o mundo.



Por outro lado, se a história de Frankenstein foi menos interessante esse ano do que no ano anterior, o seu Monstro, ou doravante chamado de John Clare, teve uma das melhores subtramas do ano, com ele esperando o amor de uma criatura que ele considerava sua igual, sem perceber que na verdade era uma versão muito aprimorada sua, ou achando que poderia ser belo aos olhos de uma cega e que sua alma e poesia seriam o suficiente, para então ser enganado numa cena que é de cortar o coração de qualquer um, ou pelo menos de fazer você proferir alguns palavrões e insultos em direções a ceguinha em questão. A forma como a série encontrou de unir as histórias de John Clare e de Vanessa foi um pouco forçada, porém suas breves reuniões funcionaram muito bem, a valsa de John e Vanessa e mesmo o beijo de despedida entre os dois foi o exemplo de beleza gótica que a série almeja em todas as cenas.

Já que eu estou falando de cada personagem, preciso falar de Ethan antes de passar para a principal da equipe. O tal “Lobisomem americano em Londres” que nos foi revelado no final da temporada anterior e que já tinha sido insinuado antes é visualmente decepcionante, especialmente porque imediatamente comparamos seu visual com o de outras séries com a mesma criatura como Hemlock Grove, que tem um Lobisomem muito mais visual e interessante e com valores de produção bem menores. Dito isso, a brutalidade do poder de Ethan transformado é propositalmente assustadora e muito bem encaixada na série, a última cena em que ele aparece dessa forma mostra ele destruindo o pescoço de certo personagem de forma absurda com apenas um golpe simples. A sua história pessoal esse ano foi bacana, mas não muito mais do que isso, mas ao menos ela levou a um desfecho promissor para o próximo ano.



Agora para falarmos de Vanessa Ives, já que Sembene e Sir Malcolm foram bem secundários esse ano, vale dizer antes de mais nada que o próprio rosto de Eva Green é uma obra prima, apenas respirando essa mulher já é impressionante. Ano passado eu disse em minha crítica que se a atriz continuar na série por mais alguns anos esse será o grande papel de sua carreira e eu mantenho minha opinião, ela teve menos chance de mostrar seu talento de formas absurdas nessa temporada do que na temporada anterior, mas isso não impediu ela de ser simplesmente espetacular a cada cena. O sotaque de Green e a forma como ela parece inflar a boca de ar antes de pronunciar com gosto cada palavra é uma característica marcante da personagem que só é abandonada por ela enquanto ela pronunciava a estranha Verbis Diablo, que é um belo e discreto detalhe de construção de personagem e da habilidade da atriz, como se Vanessa Ives não ficasse confortável pronunciando aquela língua e a fizesse com pressa e desprezo, o que é realmente o que ela faz.

É difícil destacar um momento especifico em que Eva Green tenha brilhado mais esse ano, porque ela brilha em todos os momentos em que aparece e a sua história foi o trilho principal que conduziu a segunda temporada, mas eu diria que o embate dela contra o próprio Lúcifer no último episódio e ela pronunciando “Amado, conheça sua mestre” após derrotar o demônio cujo o avatar estava sendo destruído por escorpiões é de fazer qualquer um engolir seco.



O último episódio dessa segunda temporada foi poderoso não apenas por essa cena dita acima, mas pelo fato dele desconstruir a “Liga Extraordinária” que a primeira temporada construiu. A série termina com a marcante frase “então caminhamos sozinhos” e que mostra todos os membros da “Liga” em sua própria jornada, na maioria dos casos uma jornada de solidão ou de auto-destruição. É um momento forte para a série, mas me faz querer ainda mais ver a Liga unida em algum momento e quando eu digo unida eu quero dizer completa, ter Dorian Gray e não usá-lo em conjunto com outros personagens, assim como acontece com o próprio John Clare parece um belo desperdício de algo que poderia ser épico quando bem feito. Então vamos esperar que algo mude nesse sentido no próximo ano, mas eu não mudaria muito mais coisas além disso, o inicio de Penny Dreadul esse ano me fez achar que a série tinha se enfraquecido, mas o final mostra que ela está provavelmente mais forte do que antes e eu mal posso esperar pelo terceiro ano e que com ele venha mais episódios como “Closer than Sisters” e “The Nightcomers” que são pequenas pérolas da TV moderna.

NOTA 9,4
Patreon de O Vértice