Homem Formiga | Crítica

A Marvel Studios não erra uma! Ou melhor ela vem pelo menos numa longa sequencia de acertos, já que ela errou feio, com Homem de Ferro 3 e Thor 2. Ela errou quando começou a achar que a trama não importava e poderia ser apenas uma bobagem sem sentido como na sequencia do filme do Deus do Trovão, ou quando achou que apenas a força de um personagem poderia sustentar um filme que se acha mais inteligente do que era, como no terceiro filme protagonizado pelo Tony Stark.


Mas desde Capitão América: Soldado Invernal para cá ela vem acertando tudo, simplesmente porque ela conseguiu desenvolver ainda mais as ideias com que ela já trabalhava bem, humor em doses cavalares, personagens carismáticos e uma história que não necessariamente é inteligente, mas é divertida, explosiva e não é burra, o que já é alguma coisa quando falamos nesse tipo de blockbuster.


Com uma formula tão básica é difícil imaginar que seus filmes não acabem se tornando muito genéricos e pasteurizados, no caso de Os Vingadores: A Era de Ultron talvez tenha ficado levemente semelhante aos outros trabalhos do estúdio o que não quer dizer que ele tenha ficado ruim, mas assim como Guardiões da Galáxia tem uma baita personalidade, Homem Formiga também tem e esbanja uma personalidade própria latente e que por mais que ainda seja um filme de herói, ele tem um subgênero inédito ao estilo e um look and feel único, além de dois grandes personagens, um que na minha opinião foi muito melhorado de sua versão original, Scott Lang, e outro que por mais que não tenha uma sombra da complexidade mostrada nos quadrinhos, ainda tenha ficado bem legal, que é o caso do Hank Pym interpretado por Michael Douglas.


Paul-Rudd-and-Michael-Douglas-with-Ants-Photo-Marvels-Ant-Man


Fato é que Homem Formiga parece muito mais um filme para fãs da Marvel do que um filme para o público em geral, porque diferente de Guardiões da Galáxia, por exemplo, que tinha um cenário de ficção científica, personagens bizarros e chamativos (Uma Árvore e um Guaxinim que falam), um forte foco no tema nostálgico que pega algumas pessoas, além de outras coisas, Homem Formiga é só um filme de origem de super-herói e de um super-herói que não é tão famoso para o grande público quanto deveria, não é atoa que a bilheteria do filme apesar de não ter sido péssima, foi abaixo do esperado pela Marvel e a pior bilheteria do estúdio desde a estreia de Hulk.


De qualquer forma, dito isso, Homem Formiga é o melhor filme de origem que a Marvel fez desde o primeiro Homem de Ferro e o estúdio está tão bom nisso, que não só apresentou um Homem Formiga no filme e sim dois, entrando em algo clássico dos quadrinhos que é ter mais de um personagem que se identificam como o mesmo herói.


ant-man_trailer_screengrab_2_h_2015


O roteiro do filme claramente tem reminiscência do que foi escrito por Edgar Wright ele está até nos créditos, e muita coisa que acontece lá você imediatamente acha a cara de algo que aconteceria em Scott Pilgrim ou qualquer outro filme do diretor, mas Peyton Reed fez um trabalho muito competente e que claramente tem coisas que só podem ser definidas como “coisas de diretor” em determinados momentos, uma piada recorrente do filme em especial, com um personagem narrando uma história contada a ele através de vários outros personagens acaba funcionando muito bem em tela, graças à maneira que Reed decidiu mostrá-la.


Tirarem Edgar Wright, se o que Reed declarou corresponder com a verdade, parece ter sido uma decisão acertada, por mais que eu goste do diretor, afinal ao que tudo indica o roteiro de Wright “era uma piada do início ao fim, enquanto o filme tem mais drama e ação”. Por mais que nós saibamos no fundo mais chato e sóbrio de nossa mente nerd que toda a trama dos filmes da Marvel sejam apenas uma desculpa para fazer um espetáculo visual para vender ingressos, nós precisamos delas, algumas podem ser estúpidas e ruins como a de Thor 2 e Homem de Ferro 3, outras podem ser estúpidas e ótimas como a de Guardiões da Galáxia e Vingadores 2, algumas podem ser inteligentes e sensacionais como a de Capitão América 2, mas não ter todo esse drama corriqueiro, um toque de emoção e bastante ação sinceramente não encaixa em nada com o que o estúdio está fazendo e não é que era arriscado, seria um fracasso, ou não necessariamente um fracasso, mas certamente não seria o que o estúdio ou os fãs do estúdio querem, embora talvez agradasse muito aos fãs de Edgar Wright e de todos os seus filmes, onde eu me incluo... mas quando eu paro para pensar, eu sou muito mais fã do que a Marvel Studios faz do que o que Edgar Wright faz, então pra mim a decisão foi sim muito acertada.


Ant-Man-Trailer-1-Photo-Scott-Langs-Daughter


Homem Formiga de certa forma pode se resumir a isso, boas decisões, boas decisões quanto ao roteiro, boas decisões sobre como amarrar o filme a um universo maior, repare que o longa tem tudo para amarrar não só os outros filmes do estúdio a ele, quanto amarrar Agent Carter e Agents of S.H.I.E.L.D. também, boa decisão de como usar Hank Pym e principalmente boa decisão de como usar os poderes dos personagens, que podem parecer e são meio ridículos, mas de uma forma que ainda pareçam bem legais no fim das contas.


Não que o filme seja perfeito, as primeiras meia hora de longa são paradas e monótonas, elas servem para introduzir tanto Scott quanto Hank e as suas personalidades, mas elas carecem de conflito no que sobram de piadas e isso acaba matando boa parte do ritmo do filme, que só engata pra valer mesmo no terceiro ato, já que Homem Formiga é simplesmente o filme com menos ação da Marvel até agora, se excluirmos a luta do Homem Formiga na base dos Novos Vingadores, já que ela é mais uma piada do que uma luta, e a clássica “montagem de treinamento” que é repetida em todos os filmes onde um personagem precisa treinar, a única cena de ação é a cena de ação no final do filme, onde o Homem Formiga enfrenta o Jaqueta Amarela. Alias, parte da culpa para o filme ser monótono fica por conta da edição, que em alguns momentos brilha, mas em outros é péssima.


Screen-Shot-2015-04-13-at-9.13.08-AM


Outro problema do filme, talvez o maior problema dele, é o fato de o Jaqueta Amarela ser um péssimo vilão, tão ruim quanto muitos outros vilões do estúdio. Se a Marvel se focasse menos em matar seus próprios vilões e em construir melhor suas personalidades, até os seus piores filmes seriam de alguma forma mais interessantes, até porque a Warner / DC está aí fazendo Esquadrão Suicida que está vindo com um belo hype, não seria nada mal o estúdio entrar na onda e fazer um filme dos Thunderboltz, onde o Darren Cross do Peter Russo Corey Stoll se encaixaria perfeitamente... não por sua personalidade ou carisma, porque o personagem não tem nenhum dos dois, e sim pelo seu visual e seus poderes bacanas, mas para levarmos o vilão a sério ele teria que ser não só MELHOR desenvolvido, ele teria que ser desenvolvido e ponto, todo a atitude meio psicopata e descontrolada de Darren não é ameaçadora, ela é estranha no pior sentido da palavra, quase patética quando essa claramente não era a intenção do filme, isso acaba sendo uma falha grave, afinal, como levar a sério a única parte de um filme que deveríamos levar a sério, seu conflito, quando quem gera o conflito é mais patético do que o humor quase pastelão do longa?


De qualquer forma, em termos de roteiro, direção, atuação, humor, personagens e até em menor grau na história em si, Homem Formiga tem muito mais acerto do que erros e isso só me anima ainda mais para a Fase 3 da Marvel, que começa oficialmente agora que a Fase 2 terminou, não de forma grandiosa e épica, mas de forma diminuta e muito engraçada.

Patreon de O Vértice