Crítica | True Detective 2x04 - Down Will Come


“Sometimes your worst self, is your best self.”



Policiais, criminosos e civis. Em seu mais recente episódio, “Down Will Come”, True Detective não poupou ninguém (exceto seus protagonistas). Até mesmo o personagem do W. Earl Brown nos deixou, graças a um headshot estilo Counter-Strike. Numa temporada na qual o roteiro enfia goela abaixo nos telespectadores plots policiais com burocracia em doses cavalares, causando uma desagradável confusão, uma sequência de tiroteio vem bem a calhar, trazendo um necessário fator surpresa para uma série com uma dinâmica até então estagnada.


Durante a maior parte do episódio, o roteiro seguiu a mesma linha de raciocínio de seus três episódios antecessores, com três policiais bêbados e de mal com a vida, a continuidade da investigação do assassinato de Casper, Frank tentando recuperar seu império após a fracassada tentativa de legitimá-lo, e claro, a tal burocracia que tanto desacelera as coisas na vida real, influenciando até na fluidez e na dinâmica de um seriado televisivo (para não confundir vocês, já antecipo que isso pouco tem a ver com a narrativa lenta, que muita gente ainda usa como demérito. A minha crítica fica mesmo é com a dinâmica que ainda não fisgou a mim e a muitos).



A cena de Velcoro entregando o distintivo de seu pai ao seu filho, apenas reforça o meu interesse pelo personagem. O Chad, além de não ser seu filho biológico, também é fruto de um estupro. E mesmo assim, para um personagem tão danificado, tão complicado, o rapaz parece ser a única potencial matéria-prima para uma redenção do Detetive.


Já Ani Bezzerides, passou por poucas e boas nesta hora de episódio. Um novo encontro com seu pai maluco (segundo a perspectiva dela), a descoberta de uma pequena conexão dele com Casper e outros associados no passado (até quando para isso leva-la até a figura de Frank Semyon?) e uma queixa de um subordinado por má conduta sexual, que causou sua suspensão. Como se não bastasse isso, a situação da personagem interpretada forma excelente por Rachel McAdams, sofreria mais uma queda, após uma operação liderada por ela ter falhado terrivelmente.


Paul Woodrugh e seu drama que pouco chama atenção se revelam muito menos interessantes, e mais avulsos na história. O veterano de guerra surpreendentemente muda, do nada, ao receber a notícia de que será papai, e decide dar um início a um projeto de família. Um detalhe interessante sobre o personagem do mediano ator Taylor Kitsch, é que na cena do tiroteio, enquanto Velcoro e Bezzerides estavam terrivelmente assustados com a situação, ele não esboçou nenhum medo ou receio durante o combate, até porque, um veterano de guerra com certeza já viveu momentos ainda mais complicados. No mais, ainda é preciso aguardar mais novidades na história do personagem nos próximos episódios.


Frank, personagem de Vince Vaughn, como já de costume, continua tentando recuperar seu império, ao reencontrar e ameaçar seus ex-associados, típica atitude de um clássico mafioso. Ainda com problemas conjugais, o personagem, apesar de não ser um detetive, segue o estilo que Pizzolatto tanto adora, de personagem que está de mal consigo mesmo e com o mundo.



A sequência final do episódio, que nos apresentou uma terrível chacina, estragando a operação do destacamento, além de ter sido bem-feita (dirigida pelo experiente diretor Jeremy Podeswa, que, apesar de possuir um bom repertório de sua carreira, se redime neste episódio de seu fraco trabalho na 5ª temporada de Game of Thrones), quebrou momentaneamente o controverso ritmo lento da série.


Após metade da história já ter se passado, surgem muitas questões envolvendo o futuro da série, afinal, será que por causa desta chacina, a burocracia dos órgãos públicos da série, orbitará com mais intensidade o plot investigativo da série, causando ainda mais confusão?


Para encerrar, é difícil não notar que True Detective continua dividindo opiniões. Apesar de os lados estarem apresentando bons argumentos para sustentar seus respectivos pontos de vista, ainda é impossível escapar de ler algumas groselhas (também vindas de ambos os lados), como no caso de quem, aleatoriamente, afirma que a sequência final foi mal-feita, ou quem ainda usa a velocidade da narrativa para mensurar qualidade.


Observação extra: o personagem hispânico procurado pela polícia, Ledo Amarilla, que era o alvo da polícia na operação que se transformou em carnificina, é interpretado mesmo ator que dava vida a No-Doze, um dos capangas do memorável Tuco de Breaking Bad, e que apareceu novamente em Better Call Saul. Curioso que, de 2008 até 2015, ele não mudou nada, preservando inclusive o seu estranho bigode.

Patreon de O Vértice