Crítica | True Detective 2x02 - Night Finds You

Todo mundo possui bons e maus hábitos. Não existem exceções. Ray Velcoro parece saber bem disso, e foi justamente ele quem conduziu quase toda a história do segundo episódio desta temporada de True Detective, “Night Finds You”. Num episódio menos confuso e com um ritmo mais estável que seu antecessor, as tramas começam a se desenrolar, e já dá para começar a captar a proposta da série neste ano.


Neste capítulo, novamente liderado pela parceria entre Nic Pizzolatto e Justin Lin, fica explícito que, apesar de esta temporada possuir um foco maior no caso policial, o que ainda move a série é o obscuro drama de seus personagens, ao mesmo tempo em que Colin Farrell, Rachel McAdams e seus respectivos personagens, novamente se revelam serem merecedores da maior parte da atenção do público.


Ray Velcoro, o personagem de Farrell, além de ser o grande destaque até aqui, é o elo comum entre todos os protagonistas. Agora que o conhecemos melhor, é possível notar o quanto ele é um cara perturbado. Duas cenas específicas foram as capitais desta percepção. A primeira, num diálogo com sua ex-mulher no estacionamento, na qual ela expõe a decaída do caráter dele ao longo dos anos, tendo como ponto de partida, o abuso sexual que ela mesma sofreu. A segunda, na cena com o melhor texto da temporada até o momento, quando ele conversa com Ani, a personagem de McAdams, dentro do carro dela ao final do dia. Por ora, foi o único acontecimento que lembrou a dinâmica da primeira temporada (olha aí de novo a inevitável comparação...), no qual também ouvimos a frase proferida por Velcoro, que marcou grande presença nas promocionais da temporada: “We get the world we deserve”.



A atuação de Rachel McAdams continua primorosa. Sua personagem Ani, corrigiu uma das poucas falhas que a série possuía: a ausência de uma personagem feminina marcante/forte. Ela é justamente assim, sendo basicamente uma representante “ideal” do feminismo. Isso ficou ainda mais claro com uma de suas frases durante o episódio (“The fundamental difference between the sexes is that one of them can kill the other with their bare hands”.).



As interpretações de Vince Vaugh e Taylor Kitsch, entretanto, continuam sendo o ponto fraco da série. No caso deste primeiro, na verdade, o resultado não está tão ruim, uma vez que se considerarmos o histórico dele, talvez este seja um dos trabalhos mais competente de sua carreira. Seus personagens também chamam menos atenção, em relação a Ray e Ani. Paul, vivido por Kitsch, possui toda a negatividade impregnada em Rust Cohle, só que com exageros, e ainda, com o adicional de ser, simplesmente, um cara sem vontade de viver. Pessoalmente, sou indiferente em relação ao personagem. Não parece que ele realmente mereça a simpatia do público, tampouco que tenha potencial para se tornar um atrativo. Mas pode apenas parecer mesmo, uma vez que Pizzolatto seja mestre em queimada de línguas.



Um ponto agridoce neste episódio, ao meu ver, foi a cena final. Houve um bom cliffhanger, que provavelmente irá segurar a audiência para o próximo episódio, afinal, quem não quer saber se o Ray morreu ou não? Vai que haja uma surpresa. Porém, a direção foi mediana, dentro do famoso “padrão HBO”. A estética imposta por Justin Lin é irregular, tanto que em alguns momentos temos takes muito bonitos (como em todas das cenas envolvendo Frank Semyon no episódio), e em outros momentos, enquadramentos com um visual não-atrativo. Ainda em relação a cena final, a não ser que Pizzolatto queira roubar o trono de George Martin, é muito improvável que ele tenha a ousadia de matar o seu mais importante personagem neste momento. Partindo disso, boa parte da emoção da cena é ilusória, uma vez que é – quase – um fato que Velcoro esteja vivo.


De qualquer forma, “Night Finds You”, no geral, foi melhor do que seu antecessor. Ajudou a consolidar a nova dinâmica desta temporada, e trouxe um adicional: uma história de fato, aquilo que faltou ao episódio introdutório. Particularmente, ainda espero que True Detective continue na crescente, e melhore ao longo dos episódios. Quem sabe até volte a recuperar a admiração de alguns enfurecidos fãs da primeira temporada. A substituição do “dá pro gasto” Justin Lin, pelo dinamarquês Janus Pedersen, um jovem e já premiado diretor de documentários, pode ser o primeiro passo para isso.

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