Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada é Impossível | Crítica

Futuros distópicos como os vistos em Blade Runner, Mad Max e The Walking Dead, por exemplo, têm como tempero o tom pessimista de fim dos tempos que aguarda a humanidade. Há muito tempo Hollywood encontrou a fórmula certa para chocar e alardear a população quanto a este tema. Hoje, brincar com a idealização do futuro é fruto do que é vivenciado atualmente; um presente conturbado com guerras, fome, crises políticas e destruição gradativa do meio ambiente -- o que, na verdade, são elementos de épocas passadas também -- dita as nuances do amanhã.

Nos anos sessenta, entretanto, fantasiar sobre o futuro deveria ser sinônimo de prosperidade. Afinal, as Guerras acabaram e a reconstrução do mundo ocidental era vista com muito otimismo. E era exatamente assim que Walt Disney vislumbrava o futuro. E não foi à toa que, sob o pensamento ''o amanhã pode ser uma era maravilhosa'', ele criou parques com atrações futuristas utópicas, mostrando à América e ao mundo como o mesmo estava seguindo em direção ao futuro. O futuro de sua imaginação.

Baseando-se nesse modelo sessentista, Brad Bird (Missão Impossível: Protocolo Fantasma) e Damon Lindelof (Prometheus) estabelecem o tom de Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada é Impossível. A premissa do filme é bem simples: Casey Newton (Britt Robertson) é uma jovem inteligente e curiosa que (não tão) misteriosamente encontra um broche entre seus pertences. Ao tocá-lo, é imediatamente projetada em Tomorrowland, um local completamente futurista e livre dos infortúnios do mundo real. Para chegar lá, ela precisa da ajuda de um frustrado cientista, Frank Walker (George Clooney). Casey, na verdade, é a incorporação sutil do otimismo de Walt Disney em relação à vida, ao futuro.

Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada é Impossível A trama do filme é apressada e transmite uma sensação de bagunça. E isto se reflete no pouco tempo passado em Tomorrowland, uma vez que o filme preocupa-se em mostrar mais sobre a viagem do que propriamente o destino utópico. Isso pode frustrar uma parte do público. Porém, mais incômodo do que o desfoco na terra do amanhã, é a inconsistência do roteiro. O arco narrativo principal, chegar a Tomorrowland e salvar o mundo, é mais uma vítima da afobação do roteirista Lindelof; e as subtramas que poderiam ter sido melhor desenvolvidas -- a relação entre Walker e Athena, por exemplo -- são deixadas de lado. As sequências de ação e aventura são muito bem conduzidas por Bird, que consegue converter o pessimismo da distopia apocalíptica em uma abordagem otimista e inédita.

É importante destacar dois pontos positivos do filme: o conceito visual de Tomorrowland e as atuações de Raffey Cassidy e Britt Robertson. A ambientação do futuro utópico é muito bonita e bem feita, o que gerou ótimas sequências com jet packs, trens e naves futuristas, e robôs. O elenco está bem encaixado, com destaque para as protagonistas femininas, mas George Clooney parece estar um pouco desconfortável, talvez por conta do defasado material que lhe é dado para trabalhar. Britt Robertson conduz muito bem o traço argumentador e otimista de sua personagem. Já a atriz mirim Raffey Cassidy apresenta uma das melhores atuações infantis dos últimos tempos -- uma concordância unânime entre as pessoas que assistiram ao filme.

Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada e Impossível

Hugh Laurie é o responsável por escancarar a mensagem que o filme transmitiu ao longo de seu decorrer. O eterno House (foi inevitável ouvir este nome durante a sessão), porém, segurou o pepino que destoou o tom do filme. Em uma única cena ele colocou para fora, por pelo menos dois minutos, uma enxurrada de frases clichês sobre moralismo e as consequências de nossas ações para com o planeta. Em um primeiro momento, ou seja, durante as pitadas que o filme dá, isto funciona muito bem, afinal, é sempre bom ser estapeado com as desgraças as quais acometemos a Terra. O problema é que a direção determina um didatismo de revirar os olhos nesta sequência.

Tomorrowland - Um Lugar Onde Nada é Impossível é um filme divertido de se assistir, com um equilíbrio entre sua comicidade e aventuras, e com boas atuações. Ele consegue carregar sua curiosidade até certo ponto, mesmo esbarrando em um roteiro raso, mas é infeliz com seu final anticlimático.
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