Deus Branco | Crítica

Há algumas décadas atrás era tão habitual que animais estrelassem longas-metragens quanto humanos. Hollywood construiu novas estrelas: Benji, Lassie, Beethoven, Old Yeller e a lista só continua. Aventuras bem-humoradas de família, em quase todos os casos. Mas os tempos mudaram. Os nossos companheiros de quatro patas hoje são explorados a partir de outra ótica. São tempos sombrios. E esse é o mundo de Deus Branco (Fehér isten, Hungria).


Lili (Zsófia Psotta) é uma menina de treze anos que passa a viver com o seu pai, acompanhada pelo seu cão Hagen, que é constantemente reprimido por todos por ter nascido da mistura de diferentes raças. Não disposto a pagar uma multa pela posse do cão, o pai de Lili abandona o cão. Enquanto Lili procura pelo seu amigo animal, este conhece o lado mais negro do ser humano e acaba por reunir uma legião de seguidores caninos que se comportam de um modo único: eles parecem agir como um exército.


Ambos os protagonistas são interessantíssimos, seja a pequena Lili, seja o cão Hagen. Zsófia Psotta é uma verdadeira revelação, uma das atrizes-mirins mais promissoras dos últimos tempos. Se estivessem interessados numa versão live-action de Os Simpsons, é ela que deveriam procurar para encarnar Lisa. E para viver o Ajudante de Papai Noel, que procurem o cão que viveu Hagen, muito mais talentoso do que muitos humanos. Aliás, todo o elenco canino é soberbamente expressivo e adorável.


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Deus Branco é lindíssimo, a mais pura materialização da beleza do cinema. Somos frequentemente colocados atrás dos olhos do cão para testemunhar a inocência dos animais – tão oprimidos por nós, humanos, mas ainda tão ingênuos –. E a montagem é tão completa quanto, criando com eficiência a ilusão de violência, como, por exemplo, ao colar diversos clipes para construir uma rinha de cães convincente.


As sequências com o exército de cães são fantásticas. Roubam tanto fôlego que só depois dos créditos subirem o espectador consegue refletir sobre o quão difícil deve ter sido treiná-los. Foram diversos meses para adestra-los em pequenos grupos, que depois foram todos organizados numa só grande legião de soldados de quatro patas, preparados para ajudar Hagen a se vingar dos homens.


A trilha é espetacular e justificada pelo próprio bom gosto da sua protagonista humana. “Hungarian Rhapsody no. 2” de Liszt é a sinfonia utilizada para acalmar Hagen – e, no fim, todo o seu exército canino – e por si só já deveria ser o bastante para convencer qualquer um de que Deus Branco é mais do que apenas bonito visualmente. A cena em que Hagen e os seus companheiros assistem o concerto de Tom (Tom & Jerry) é tocante.


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Está bem, o roteiro não é dos mais originais – um déjà vu com Planeta dos Macacos: A Origem é válido –. Os escritores falham em atribuir verossimilhança à repentina relação amigável entre Lili e o seu pai e a menina também parece esquecer o cão muito rápido. Os paralelos traçados entre o cachorro e a sua dona também podem parecer pobres, pois a garota nunca enfrenta o mesmo tipo de violência que o animal. Porém, a intenção conta. Enquanto Hagen entra num mundo negro por culpa da maldade humana, Lili entra por escolha própria.


O longa é agradavelmente ambíguo, do misticismo sugerido pela união dos cães ao título, que jamais é explicado, mas que possivelmente faz referência ao filme de 1982, Cão Branco (White Dog, que pode ser invertido e transformado em God), já que ambos tratam do preconceito – no primeiro contra os negros, no segundo contra os cães de raças mistas –. Então sim, a conotação étnica faz todo o sentido.


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As metáforas do filme podem acabar parecendo baratas, mas nenhuma delas corrompe a sua sofisticação final. Como Lili e o seu pai quando se deitam e se põem em igualdade aos cães, o mais sensato a se fazer é deitar-se perante Deus Branco e assumir que não, este não é um tradicional ‘filme de cachorro’. Deus Branco é o cinema a afirmar, uma vez mais, de que não há limites para o que a arte pode fazer a não ser os seus próprios ‘avanços’ (ou a ilusão de que eles representam o futuro, na verdade).


Ainda é possível fazer grandes filmes protagonizados por crianças e cachorros, então talvez ainda haja também esperança para os nossos tempos sombrios.

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