Mad Max: Estrada da Fúria | Crítica

De John Ford à Sergio Leone, o western encontrou no caminho da sua consolidação enquanto gênero diversos gênios, cineastas capazes de modelar as suas tradições narrativas. Pistoleiros sem nome, cantinas sórdidas, belas donzelas, indígenas maníacos... épicos centrados no oeste norte-americano, filmados sob a ótica ufanista estadunidense. De John Wayne à Clint Eastwood, de No Tempo das Diligências à Por um Punhado de Dólares, o faroeste instaurou-se como o encontro entre o cinema por arte e o cinema por entretenimento. E incondicionalmente do quão sujos fossem, restava sempre a beleza, o desejo de um dia viver nos dias dos caubóis.


Até 1979.


George Miller, australiano (e, portanto, bastante distante da América), apresenta aos cinéfilos de todo o mundo um novo caubói, de nome Max. As mulheres permanecem frágeis (por um tempo), mas todo o resto muda; os cavalos são substituídos por veículos, os indígenas por raiders. E a partir daí, um novo gênero nasce, o pós-apocalíptico: mundos em colapso, fome e sede, o fim de uma civilização e o início de uma nova, homens sucumbindo aos mais profundos instintos, etc.


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Um gênero que tornou-se hoje supracitado, explorado por diversas obras em todas as mídias, uma enorme parte delas igualmente medíocres. E agora Miller está de volta, aos 70 anos, para mostrar aos seus herdeiros como se faz. Ou melhor, não só aos seus herdeiros: a todos os cineastas que têm se alimentado dos fartos seios do gênero de ação.


Mad Max: Estrada da Fúria não se define por um reboot, de uma sequência ou de um remake. Miller trata o seu novo título como parte de uma antologia, com o nome 'Max' sendo o que une o personagem interpretado por Mel Gibson décadas atrás e o vivido por Tom Hardy hoje e os seus respectivos mundos.


Em Estrada da Fúria, Max (Hardy) sobrevive numa wasteland desértica australiana, mais uma vez solitário. O Guerreiro da Estrada é capturado pelos War Boys, um exército de soldados fanáticos comandados pelo líder de culto e tirânico Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, o Toecutter do primeiro filme). Max é transformado no saco de transfusão de sangue para Nux (Nicholas Hoult), um War Boy em busca da aprovação do seu chefe, enquanto a Imperator Furiosa (Charlize Theron) sequestra as esposas de Joe - as jovens que utiliza contra a sua vontade para procriar - e passa a ser perseguida pela sua legião de maníacos.


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O longa é particularmente inventivo e original, especialmente no que respeita ao design de produção. Miller transforma o seu filme num espetáculo visual tão deslumbrante quanto a aurora boreal: planos colossais que situam o espectador em pistas de deserto banhadas numa gama infinita de cores com calhambeques lambuzados de óleo e carregados de apetrechos inúteis e indivíduos de aparência bizarra. E com um roteiro forte, também. Com afeição pelo clássico, de bom gosto.


O tempo de projeção é composto, quase que sem exceção, por episódios de perseguição, repletos de explosões, tiroteios e capotagens, todos eles dirigidos com maestria, pois Miller consegue filmar de modo claro, simétrico e elegante. Miller reserva várias licenças artísticas e uma delas é a utilização de efeitos práticos. Colisões reais, veículos reais, meramente suavizadas pela computação gráfica. E, para mim, um dos pontos mais brilhantes de toda a sua cinematografia: a redução na taxa de frames que levantam paralelo entre as sequências de ação dos filmes e as películas da belíssima era do cinema mudo. Estrada da Fúria dá uma lição nos filmes de super-heróis, que com uma exceção ou outra (Guardiões da Galáxia, franquia X-Men, etc.), não passam de produções medíocres, porém rentáveis.


Miller não reduz o filme a uma visita guiada pelo cenário clássico que criou, não. Em quase todos os aspectos, ele aperfeiçoa a viagem. Hoje, mais experiente e consciente, conserta os erros que cometeu inocentemente no original. Seja na seleção do artista que interpreta o seu herói - que nos filmes originais era vivido por um inexpressivo Mel Gibson, apático ao ponto de não esboçar emoção ao ver a própria família ser chacinada -, seja na retratação das mulheres –. Ah, as mulheres. Em Estrada da Fúria, o próprio Max é engolido pela grandiosidade de Furiosa (Theron). Um western post-punk e sadomasoquista em que as mulheres salvam os homens, em que o exímio pistoleiro que dá título ao filme falha um disparo duas vezes e confia a arma a uma 'donzela', que finalmente acerta o alvo. – Enquanto o que sempre acrescentou valor à franquia – os vilões loucamente unidimensionais e as bizarrices – é ainda mais celebrado. Com tantas ideias e conceitos esquizofrênicos – como o guitarrista flamejante acorrentado num caminhão de som, que é simbolicamente responsável pela trilha espetacular do filme –, questionamos a própria sanidade do diretor.


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As metáforas estão lá, como sempre estiveram. Mesmo que por baixo de tantas camadas e camadas de areia, sangue, gasolina e pólvora, é claro. Max ainda é a encarnação do sentido de perdição do homem, do abandono, do vazio interior, constantemente à procura de uma solução para os próprios problemas e que de alguma forma acaba sempre por ajudar os outros a resolverem os seus. As classes sócio-econômicas e a sua eterna batalha (que nem mesmo o fim do mundo pode parar), os automóveis santificados (a adoração da máquina pelo homem, tão relacionável num mundo pós-Revolução Industrial), a perda das identidades religiosas (conceitos do bloco mitológico escandinavo se fundem com tantos outros sistemas de fé diferentes), a própria difusão do pensamento e movimento feminista... tanto conteúdo quanto explosões.


É possível - e provável - que Mad Max: Estrada da Fúria seja o mais original, ácido e enlouquecedor longa de ação das últimas décadas. É a evidência definitiva de que, quando conduzidos por um cineasta completo, 120 minutos de ação ininterrupta podem sim resultar numa façanha artística. Uma façanha que inspiraria orgulho a D. W. Griffith ou a qualquer um dos gênios que possibilitaram a existência de espetáculos gráficos como este.


Que dia encantador, de fato.

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