Gotham - 1ª Temporada | Crítica

Gotham expõe a trajetória de James Gordon, um novo oficial da GCPD que está voltando para sua cidade natal e descobre que ela é mais corrupta e suja do que podia imaginar. A série, então, segue Gordon enquanto ele combate perigosos criminosos e o crime organizado, e também dá espaço para o desenvolvimento do jovem Bruce Wayne e dos indivíduos que no futuro se tornarão os icônicos inimigos do Cavaleiro das Trevas.


O piloto é uma das coisas mais retrógradas e expositivas que a Fox transmitiu nos últimos anos. Tenho uma aversão grande ao canal desde que Firefly foi cancelada, então a renovação de Gotham me caiu como uma afronta. Nasceu datada e foi aos poucos se libertando para se tornar apenas assistível. Mas nunca deixa de ser pateta, só para avisar. É como se Os Trapalhões em algum ponto tivesse tentado ser respeitado como drama.


Seria possível dizer que o tom é muito irregular, mas o ‘muitíssimo’ é mais apropriado para descrevê-lo. Enquanto Falcone transforma a série numa aspirante a drama da HBO, idiotices como a mãe do Pinguim e o romance entre Nygma e sua colega fazem de Gotham um pastelão da CW. O extraordinário não é gradualmente introduzido como em Arrow. Um episódio é estritamente rigorosamente sóbrio e o outro fala sobre super-poderes. São várias séries dentro de uma só e todas igualmente ruins.



Gotham é boboca. Tudo é porcamente óbvio. Nygma – que só trabalha na GCPD para que o argumento não tenha de se perder em mais um subplot – passa o tempo todo fazendo charadas porque se tornará no futuro um vilão obcecado por elas. Haha, tão inteligente (não). Não só mastiga, como também não deixa o espectador digerir sozinho. Arranca toda a ironia trágica por trás dos inimigos do Batman, que só deveriam existir para se contrapor ao herói, e transforma todos eles em aberrações predestinadas ao crime. O mais admissível é o Pinguim e olhe lá.


As figuras de Gotham são todas, sem exceção, caricaturas. O que muda é se entretém ou não. Fish é interessante, porém a performance de Pinkett Smith faz arder os olhos de tão grotesca. E o texto para a personagem beira o patético. Quando Fish tomou controle de uma prisão cheia de brutamontes com um canivete, eu fechei o episódio. O desenvolvimento de Harvey começa e acaba com a palavra ‘esteriótipo’, porém o personagem é, de longe, o que mais diverte. Pinguim é provocante, mas evoca o velho caso de escritores confundindo ‘misterioso’ com ‘complexo’. Alfred e Bruce são bacanas, mas não deveriam ter continuado após o piloto. Ben McKenzie é canastra e o seu Gordon enjoado e chato. Numa série com tantos personagens, poucos se salvam.


É uma série de excessos. Tudo é conectado e de uma preguiça intelectual mórbida. A conspiração envolvendo o assassinato dos pais de Bruce é lamentável. O Homem-Morcego não nasce da mundana casualidade da violência, nasce de um dos excedentes da história. Algumas aparições são simplesmente estúpidas, outras são toleráveis. A do Zsasz funciona como uma peneira por onde escorre toda a essência do personagem e a do Espantalho inventa de tratar o mal como um bem hereditário. E no roteiro de Gotham, os excessos e a carência de direção coexistem. A série não sabe para onde ir ou que história contar, se a de Gordon, dos vilões pré-Batman, do crime na cidade ou de Bruce se tornando o Batman. Gotham vai em todas as direções e se perde em todas elas.


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É também parcial e covarde. Um personagem é capturado 10 vezes pelo seu inimigo mortal, mas nunca é morto, apenas torturado até que as conveniências do roteiro tomem a forma de um herói e que ele seja resgatado. Os roteiristas se protegem atrás de uma frágil vitrine de falsas ameaças que qualquer criança consegue quebrar. Não teria sido muito mais legal para o episódio e para a evolução do personagem se a namorada de Harvey tivesse morrido afogada? Fish e Pinguim, então, nem adianta tentar. Esses são imortais mesmo.


Em suma, no tocante à qualidade, Gotham é, sendo extremamente caridoso, medíocre. Uma das piores séries da grade da Fox, a produção de Bruno Heller é capaz de cativar não pela integridade do seu conteúdo, mas pelo quão ridículo ele é. Acompanhar Gotham é como assistir semanalmente um gato perseguindo um laser. Você sabe que está perdendo o seu tempo e se diverte apesar disso, porque no fundo, todos nós ainda temos aquela criança interior que se entretém com coisas estúpidas.




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