Ex Machina | Crítica


O cinema de gênero sofreu muito com as novas convenções do mercado cinematográfico. Se ontem os gêneros mais populares e lucrativos (e também engenhosos) eram westerns e histórias de gangsters, hoje são os quadros frenéticos de ação cobertos com um disfarce de ficção científica. Robôs espancando alienígenas, alienígenas devorando mundos, mundos sendo destruídos por robôs.

O problema é que não há nada de científico neste tipo de película, é apenas uma forma de se apropriar de um gênero tão promissor para fecundar histórias que são sobre tudo a não ser conceitos. Pois no fim, é sobre isto que trata a ficção científica: conceitos, ideias, possibilidades.

É por isto que, por conveniência, prefiro classificar séries como O Exterminador do Futuro, Star Wars e tantas outras (que não me entendam mal, ainda são ótimas) como ‘fantasia científica’. Não há mais ciência em Star Wars do que em O Senhor dos Anéis. As espadas de aço são substituídas por espadas mais avançadas, nascidas da tecnologia, apenas isto. Não deixam de ser frutos de fantasia, tipologias independentes da proposta científica.

O que não quer dizer, é claro, que não possa haver equilíbrio entre um empolgante pacote de ação e um intrigante pacote de ideias. Distrito 9 (Neil Blomkamp, 2009, seu único longa decente) e Blade Runner, o Caçador de Andróides (Ridley Scott, 1982, um dos seus últimos longas decentes) estão sempre prontos para serem citados neste ponto, por exemplo. Porém, pessoalmente, ainda tenho uma queda maior pelo sci-fi conceitual. Sequências de ação não me conquistam, nunca conquistaram. Por outro lado, Solaris (1972), Brazil: O Filme (2985), Metrópolis (1927), Alphaville (1965), 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968, um dos meus prediletos, que me ensinou o que é cinema), entre tantos outros, para mim são os Pilares da Criação do gênero.



E Ex Machina acaba de se juntar aos ótimos filmes dos últimos tempos que absorveram a ficção científica na sua mais pura forma, pelos seus mais puros elementos: os conceitos, as ideias, as possibilidades.

O enredo gira em torno de Caleb (Domhall Gleeson), um jovem programador que vence um sorteio e é premiado com a possibilidade de passar uma semana na companhia de Nathan (Oscar Isaac), o proprietário da empresa em que trabalha, responsável por um motor de busca milionário (uma espécie de Google). Porém, Caleb descobre que a sorte não foi bem o que o levou a conhecer o cientista e passa a fazer parte de um experimento secreto que tem como finalidade testar e avaliar as qualidades e capacidades humanas de uma inteligência artificial chamada Ava (Alicia Vikander).

O diretor Alex Garland esboça um visual sofisticado, tão rebuscado e inexpressivo quanto a fantástica tecnologia que o filme destaca. Longos planos de paisagens naturais pontuam os intervalos entre as cenas, ilustrando a beleza da própria natureza e talvez argumentando em prol da ausência de necessidade de se ir tão além no que toca às descobertas artificiais - pois os tons verdejantes das florestas e as borboletas que por elas voam já são belíssimas.



Mas os homens de Ex Machina - humanos tão mecânicos, tão inumanos - não julgam a natureza como merecedora de prestígio ou atenção. O bilionário Nathan, um Dr. Frankenstein moderno – que Isaac encarna com absurda perfeição –, está demasiado preocupado em desenvolver as suas donzelas sintéticas para apreciar a estonteante vista da sua mansão (ou melhor, do seu território, pois ele é o proprietário de toda a região).

Enquanto isto, Caleb – não muito diferente de algumas outras performances de Gleeson, mas ainda bastante reconfortante em sua apresentação – está demasiado entretido com o pensamento de ser importante, de ser um salvador, capaz talvez de libertar a pobre Ava do seu cativeiro, mas incapaz de compreender que pode estar sendo manipulado.

Vikander, por sua vez, constrói Ava como a figura mais simpática, compreensível e sensível do longa (e, portanto, a mais humana). Graças à paciência do roteiro, Ava é beneficiada por uma estrutura rítmica que assinala a trama com pequenos eventos e sutilezas, de modo que a sua revolta no final não soe como uma exagerada devoção aos clichês do tema.



Garland, que dirige e escreve o roteiro do longa, compõe um interessantíssimo e conflituoso mundo: uma utopia distópica (que na verdade não é nenhum dos dois, apenas uma versão mais melancólica e fria do nosso próprio mundo), provocada e estimulada pela própria sabedoria humana, pelo quebrar dos limites que se opõem aos avanços científicos com que sonhamos desde que nos conhecemos por gente. Homens se tornando deuses e as suas criações se tornando... homens – como magistralmente transmitido no episódio em que Ava pacientemente monta a sua aparência humana –.

Ao final de Ex Machina, só resta nos resta a questão: Ava é ou não capaz de sentir verdadeiramente? Terá ela saído como humana do quarto em preto e branco? E reside na oportunidade de fazer estas questões a grande qualidade de Ex Machina e da boa ficção científica: refletir e perguntar, sabendo que estas perguntas jamais terão resposta.

NOTA: 9,0
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