Crítica | Game of Thrones 5x07 - The Gift


“The Gods demand justice” (até mesmo de você, Cersei).



Após a polêmica da semana passada, estamos juntos de novo para conversar sobre Game of Thrones. Chegamos ao sétimo capítulo da nossa jornada, intitulado “The Gift”.


Depois de toda a polêmica gerada no episódio – e no texto – passado, resolvi começar o texto desta semana com algumas explicações. Primeiro de tudo, caso não tenha ficado justificado o suficiente, o “moralismo” – que embora tenha sido muito bem definido nos comentários, não deve virar sinônimo de opinião, como ouvi em outros lugares – que eu apresento vai continuar aqui. É um texto de opinião, sujeito a cada uma e todas as idiossincrasias do reviewer. E sim, haverão outras situações, talvez nessa temporada, talvez nas próximas, em que outras cenas como a do episódio passado irão me incomodar e eu reclamarei delas sim. Haverão também situações em que eu me absterei de fazer comentários mais mordazes, meramente por não acreditar que vá valer a pena fazer esta ou aquela reclamação. Talvez eu também tenha sido vítima do “efeito discussão” que o episódio quis gerar e tenha aproveitado justamente isso para apresentar críticas já batidas sobre o preconceito e a perpetuação de estereótipos e arquétipos negativos as mulheres e aos papeis femininos presentes na indústria de entretenimento. Talvez eu seja só um idiota (é bem provável).


No fim das contas, o que quero dizer é o seguinte: não me incomoda nem um pouco ser tachado ou receber comentários que discordem da minha opinião, mais ainda quando eles são bem escritos e com bons argumentos, como foram os que eu recebi. Não escrevo estas linhas aqui para reclamar, pelo contrário, busco agradecer. Afinal, cada um de vocês que tira seu tempo para me responder depois de ler 2000 e tantas palavras, e o faz de maneira realmente crítica e honesta, colocando seu nome e assumindo o que diz, cada um de vocês têm o meu mais profundo respeito. O que seria do escritor sem leitores para policiar e dar vazão a seu trabalho? A quem nós, que usamos a palavra, prestaríamos contas senão aos leitores? Então, muito obrigado por lerem e comentarem.


Explicações feitas, vamos traçar à “rota” da nossa viagem pelo episódio, e a review em si. Vou começar pelo Norte. Primeiro a Muralha e para Lá dela, depois Winterfell e por fim, Stannis em algum lugar na nevasca. Daí partimos para Dorne e os problemas de Jaime e Bronn. Então, cruzaremos o Mar Estreito para acompanhar as insatisfações de Daenerys, e é claro, as desventuras de Jorah e Tyrion. Por fim, voltaremos nossa atenção para a ebulição dos problemas, agora com tantas tramas quanto possível. É claro que me refiro a King’s Landing. Caminho traçado, vamos aos acontecimentos de “The Gift”.


Confesso que, ao ver o título, assim como muitos, eu esperava que o episódio fosse – como acabou sendo – sobre o encontro de Daenerys e Tyrion. Mas, também vieram a mente a “dádiva” fornecida pelos Homens Sem Rosto na Casa do Preto e Branco ou, numa referência ainda mais distante, a ideia de Jon Snow de instalar os Selvagens n’As Dádivas, as 50 milhas de território doadas por Bran, o Construtor e pela Rainha Alysanne – consorte do Rei Jaehaerys I – à Patrulha da Noite.


Resolvi mencionar As Dádivas d’A Patrulha da Noite porque vemos a partida de Jon Snow para Lá da Muralha, e é nas Dádivas que ele instalaria o povo livre. É claro que, se alguns dos rumores estiverem certos, veremos o resultado dessa expedição ainda nesta temporada.


Não haverão spoilers sobre o destino do Senhor Comandante aqui, mas direi o seguinte: Centenas de anos de ódio entre os povos não será deixado de lado com facilidade. Afinal, embora a Patrulha da Noite tenha, no passado, salvado os Sete Reinos – n’A Batalha Pela Alvorada, durante A Longa Noite, quando os Outros invadiram Westeros e quase destruíram os Sete Reinos – o propósito da Ordem, pelo qual as Dádivas lhes foram concedidas e que foi motivo de orgulho e honra já se perdeu. Os Outros não voltaram tão cedo quanto o esperado, enquanto os Selvagens vieram repetidas vezes. A Patrulha caiu em decadência, e embora Jon Snow talvez esteja, em sua honra, tentando retomar a glória dos dias antigos, não acho que será fácil resolver essa situação.


Mas deixando isso de lado, tivemos uma cena genuinamente triste na Muralha. Meistre Aemon, o mais velho dos Targaryen ainda vivo, faleceu. Gostei de como a série não só nos mostrou o corpo e deixou por isso mesmo. Ele teve os momentos de delírio, quando chamava por Egg. Sim, o mesmo Egg d’O Cavaleiro dos Sete Reinos, o mesmo Egg que seria Aegon V, O Improvável, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do Território. Numa curiosidade a parte, aquela frase que ele disse a Jon Snow no quinto episódio foi originalmente destinada a Egg, quando este se tornou Rei.




“É preciso um homem para governar. Um Aegon, não um Egg. Mate o menino e deixe o homem nascer.”



É claro que, deixando as teorias R+L=J de lado (for readers only), a partida dele deixa Daenerys como a última Targaryen – já que pra mim, aquele moleque que Jon Connington está tentando vender é Blackfyre e não Targaryen – viva no mundo. Pelo menos, considerando os pesares, a série tirou um tempo para nos apresentar uma despedida honrosa para o personagem. O discurso de Sam no velório de Aemon veio como um lembrete de que o personagem tem mais a oferecer do que meramente ser um meio para um fim, só usado quando a série não tem outra coisa para mostrar.




“He was the Blood of the Dragon, but now, his fire has gone out.”



Não falarei mais sobre Sam porque, tirando a reaparição de Fantasma, prefiro não comentar a cena entre ele e Goiva. Já esgotei as minhas fichas de reclamação quando o assunto é esteriotipização da mulher. Além do mais, teremos Caminhada da Vergonha muito em breve, então é melhor economizar...


Seguindo viagem para Winterfell, a fusão de Sansa e Jeyne Poole agora segue num tom mais... “menos repreensível”. A garota está novamente quebrada em espírito e carrega as marcas da violência de Ramsey (BOCÓ). Até mesmo Theon ficou mais... “acertado” nesse episódio, tendo traído a garota Stark – com quem ele tem, para dizer o mínimo, uma dívida moral – para continuar a servir seu mestre.


Falando nisso, mesmo que tenha dado errado pra ela, já fica claro que Sansa e Theon/Fedor acabarão por encontrar Brienne e Pod numa tentativa de fuga. Ficou esclarecido também que Brienne é a “ajuda” que o Norte tem a oferecer, o que chega até a ser meio que um desincentivo à fuga, quando você pensa bem.


Não posso é claro, deixar passar o quanto, mesmo não sendo a coisa mais sensata a se fazer na situação dela, uma parte mórbida de mim ficou contente por Sansa ter jogado na cara de Ramsey que, não importa aquilo escrito num papel por um rei-criança – também bastardo, fruto de um incesto e um traidor – escreva. Em sua natureza, na essência de quem ele é, Ramsey não passa de um bastardozinho (BOCÓ) qualquer.


Ah, e para deixar Winterfell, e para tentar acalmar os humores gerados pelos eventos da semana passada, a série resolve causar impacto, e nada como um esfolamento completo para nos lembrar da brutalidade Nortenha.


Mas enquanto tudo isso se desenrola, Stannis, Davos e Melissandre estão presos em algum lugar, sofrendo com a nevasca que os impede de prosseguir em sua marcha para retomar Winterfell.


Stannis continua a me surpreender. Ele é um dos personagens dos livros que menos chama a minha atenção, mesmo sendo ele o herdeiro legítimo do trono Baratheon. A série conseguiu fazer aqui o que deveria ter feito a outros: transformar um personagem sofrível em algo mais dinâmico. Todas as boas frases e todas as sacadas meio alívio cômico meio general sábio são perfeitas. E quando ele me saiu com “Winter is Coming. Those aren’t just the Stark words, that’s a fact.” e “Who can say how many YEARS this Winter will last?”… eu aplaudi de pé. Não satisfeito com isso, ele incorporou um discurso que está – pelo menos nos livros, sendo isto, é claro, uma interpretação minha – muito associado simbolicamente a Daenerys (mesmo que ela não coloque tanto em prática quanto deveria), já que é aquilo que ela repete ao queimar Mirri Mas Duur e tantas outras vezes: “Se olhar para trás, estou perdida”. E é possível ouvir o mesmo tom definitivo de quando Stannis diz:




“We march to victory, or we march to defeat. But we go forward, only forward.”



Deixando de lado todo esse clima frio e partindo para companhias mais atrativas, porém igualmente perigosas, encontramos Jaime recebendo algumas verdades na cara, verdades essas jogadas pela “sobrinha” que ele realmente não conhece. Myrcella parece disposta a ficar em Dorne, e me pergunto se ela não vai sofrer nenhum tipo de “acidente” como nos livros.


Ah, e como lá na frente reclamarei sobre repetição/redundância, quero deixar claro logo daqui que não me oponho completamente a isso. O próprio Hitchcoch nos disse que estilo é plagiar a si mesmo, e quando esse é o assunto, Bronn faz isso como ninguém.


Repetir sua interpretação de “The Dornishman’s Wife”, muito provavelmente para irritar ainda mais as (pseudo) Serpentes da Areia foi impagável. E não parou por aí! Pela segunda vez eu levantei da cadeira para aplaudir quando ele soltou “I said dornish women, I didn’t say you”. Foi uma pena que a série tenha tido que tirar a graça desta cena forçando ele a admitir que ela era a mais bonita dos Sete Reinos, meramente para salvar o personagem. Embora, é claro, eu esteja muito contente por não perder um alívio cômico tão bom.


Já na vida de escravos de Jorah e Tyrion, vemos o nosso adorado anão lutar – literalmente – para não ser separado de sua única garantia de chegar ao destino, e a Daenerys. Minha única reclamação é que, depois de ter batido no capataz daquele jeito, ele deveria ter dito algo do gênero “sou ainda melhor com um machado”. Afinal, boas oportunidades para bons alívios cômicos são raros hoje em dia.


Daario Naharis é outro que teve a boa sorte de ser bem tratado no processo de “adaptação”, e agora não se passa um episódio sem que ele não tenha um “ensinamento” para oferecer.


Acho que, mesmo que tenha havido algum descontentamento gerado por outra cena qualquer, todos os fãs ficaram felizes em ver Daenerys e Tyrion finalmente se encontrarem. Até eu e meu “moralismo” mordaz ficamos felizes com isso. Tyrion é, decididamente, um dos personagens mais cativantes criados por Martin, e vê-lo finalmente conhecer a Rainha dos Dragões abre um universo de possibilidades – e medos das m#rdas que podem ser feitas... – literalmente infinito.


Agora que já fomos a todos os lugares – e que já está pra lá de passada a marca de 2000 palavras... – vamos nos voltar para o fim de nossa jornada, e saber o que acontece nos núcleos de King’s Landing.


Não poderia começar por outro lugar senão comentando a acidez de Lady Olenna. Vimos a Rainha dos Espinhos como gostamos de ver. O sarcasmo dela perante a hipocrisia do eterno “os fins justificam os meios” da Fé foi excelente. É claro que o discurso político do Alto Pardal não está errado quando diz que o povo é a maioria e ao apontar os efeitos derivados dessa maioria se voltar contra a minoria que detêm o poder. Mas a quote que encabeça esse texto foi respondida a altura, por um questionamento que eu me faço frequentemente quando entro em qualquer discussão envolvendo religião:




“ – I serve the Gods. The Gods demand Justice. (Alto Pardal)


  – Who do they communicate their demands? By raven or horse? (Lady Olenna)”



E ela não parou por aí! O aviso dela, mesmo tendo encontrado um comentário igualmente forte, não está de todo errado. A Fé Militante já foi esmagada em Westeros antes, e não duvido que os Tyrell possam, senão pela força do braço, mas pela FOME – the Winter IS Coming – garantir que aconteça novamente.


Já em tramas menos bem feitas – e chegando a minha reclamação sobre a redundância – o rei-criança Tommen, devido ao “entretenimento horizontal”, acabou transformado num pirralho chorão que precisa roubar o momento de “glória” – e é claro, a burrice e insanidade – de Joffrey e gritar “I AM KING”. Nessas horas, até que Tywin faz falta...


Mas a hora de Cersei finalmente se aproxima e, ao confirmar e extinguir todas as suspeitas de que Mindinho e ela foram responsáveis pela morte de Joffrey, Lady Olenna mostrou que não será uma mera espectadora enquanto Cersei atiça a Fé contra seus descendentes. A Rainha Mãe enfrentará acusações por todos os “crimes” que ela cometeu, ou pelo menos os que Irmão Lancel tem conhecimento.


É claro que, apesar de tudo o que se abaterá sobre ela muito em breve, ela nos deixou com um lembrete de que, ela retornará, não importa o que façam com ela. Porque quando ela encerra o episódio daquele jeito, mesmo sabendo o que acontecerá, uma certeza fica de que ela irá se reerguer. Com toda certeza ma das melhores quotes da personagem:




“Look at me. Look at my face. Is the last thing you’ll see before you die.”



Bom, por hora é isso. Já me alonguei demais, e acho que “Hardhome” vai nos oferecer muito mais o que falar. Então, até o próximo episódio.

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