Crítica | Game of Thrones 5x06 - Unbowed, Unbent, Unbroken


“Isso foi estúpido”



Com o Inverno quase em nossa porta, nos reunimos novamente para discutir sobre Game of Thrones. A nossa jornada chega com dificuldades ao sexto episódio, já que a cada dia David Benioff e D. B. Weiss parecem mais determinados a fazer com que acompanhar a série seja uma tarefa difícil.


Quero esclarecer uma coisa logo no começo, antes de seguir para a review em si. “Unbowed, Unbent, Unbroken” – já já comentou a escolha do título – marca uma divisão de águas para a série. Depois das inúmeras notícias sobre o quão larga e brutal a adaptação seria, não sabia quanta suspensão de descrença eu teria para a série. Seis, em dez episódios, foi surpreendente para mim, porque sempre achei que eu era bem mais cruel e extremista. É bom saber que não é só o meu mau humor, e sim a falta de qualidade da adaptação que oferece o suficiente para se criticar. Tentei, e vou continuar tentando, extrair o máximo de coisas positivas do episódio, e tentar conceder a essas coisas tanto espaço quanto os meus comentários mais pesados terão. Não posso fazer promessas. Embora eu escreva e reescreva o texto algumas vezes, têm coisas que precisam ser ditas, mesmo que elas sejam um tanto... “diretas”. Se Olenna Tyrell nos ensinou uma coisa, é que Espinhos nunca são demais. Dito isto, vamos ao texto.


Como faço sempre, vou traçar o “roteiro” da viagem pelas tramas do episódio logo de início. Começarei por Arya e seu progresso entre os Homens Sem Rosto. Depois vou comentar as traquinagens de Mindinho, Cersei e toda a turma de King’s Landing. Partirei então para Dorne e as agitações que agora ocorrem nos Jardins da Água da Casa do Martell. Antes da nossa última parada e encerrando as tramas em que as boas cenas superaram as críticas, vamos ver as novas dificuldades na jornada de Tyrion e Jorah. Por fim, passaremos por Winterfell, decididamente o maior problema até agora.


Começamos com Arya se ajustando a sua rotina na Casa do Preto e Branco. A trama criada por Martin para a garota Stark, que até agora foi a que sofreu menos com a “adaptação” (estou procurando uma palavra mais apropriada para a atrocidade que está sendo feita...), tem tanta qualidade que até um clichê – querer espiar por uma porta entreaberta? Come on! – funciona.


E se jogar o Jogo dos Rostos – exatamente como visto na série; uma história é contada e deve-se saber se é há verdade no relato e, caso haja, apontar a mentira; errando, você apanha... a.k.a. diversão jovem saudável (hahaha) – com A Criança Abandonada (The Waif), a quem eu ainda não tinha me referido dessa forma porque a produção só confirmou agora que se trata deste personagem (e não de outra criação grotesca), se isso já tinha sido interessante, recriar a disputa de Arya com o Homem Bondoso/Jaqen H’gar foi ainda melhor.


E como se este plot já não tivesse rendido o suficiente neste episódio – o que é bom e ao mesmo tempo preocupante, já que sem as tramas de Arya, os motivos para continuar a assistir caem drasticamente – tivemos ainda o bônus de ver Arya ministrando a “graça” do Deus de Muitas Faces e entendendo o motivo pelo qual o Jogo é tão importante. E conectar isso com um maior entendimento do funcionamento da Ordem foi uma excelente escolha. O Salão dos Rostos, assim como toda a Casa do Preto e Branco, foi simplesmente magnífico. Um silêncio opressor ecoa daquelas câmaras, toda a magnitude de milhares de rostos no escuro, milhares de identidade que os assassinos podem assumir... tudo aquilo foi indescritível. Infelizmente, é a qualidade em cenas como essa que tornam os erros mais gritantes.


Enquanto isso, em King’s Landing – é, eu sei, a Hanna Barbera já mandou pedir a transição de tramas deles de volta (Enquanto isso, na Sala da Justiça) – as tensões políticas começam a crescer. Cersei está fazendo todas as decisões erradas possíveis, exatamente como era esperado, o que nos garantiu alguma diversão neste episódio.


Respondendo a convocação enviada no episódio passado, Mindinho chega a King’s Landing para prestar contas a Cersei – e é claro, manipulá-la também, chego nisso daqui a pouquinho – sobre seus atos. Sendo Lord Baelish um dos (até mesmo o maior dos) “fornecedores de entretenimento” de King’s Landing, é de se esperar que ele e a Fé Militante troquem algumas farpas. E como ele não nos decepciona, em seu encontro com Irmão Lancel, ele saiu com uma das melhores quotes possíveis:




“Nós dois vendemos fantasia. Acontece que a minha é mais divertida”



Ah, mas não parou por aí! Em seu encontro com Cersei, quando a Rainha Mãe faz comentários mordazes sobre Lysa Arryn, ele faz insinuações claras sobre as escolhas de “companhia” dela, talvez numa referência ao envolvimento dela com Lancel, ou, talvez até de Jaime ele saiba.


É claro que não há com o quê se surpreender, afinal, ele está jogando com Cersei e os Bolton numa mão só. E no ódio cego e estúpido – se servir de consolo para ela, que não quer abrir mão do poder, ela está se saindo tão Targaryen quanto possível, primeiro o incesto, depois a loucura, me pergunto o que virá depois... oh, wait! I already know. But I’ll say no more. No spoilers! – ela está adquirindo novos inimigos sem ter nenhuma “garantia” (reféns, por exemplo) para “manter” a lealdade daqueles que a cercam. Tywin se foi, e o nome Lannister não inspira mais o mesmo medo.


Cersei esqueceu que a Coroa que ela usa é fruto de uma rebelião que foi fruto da fúria dos Lordes do Vale e do Norte – e é claro, dos Lordes da Tempestade – contra o Rei Louco. Pelas minhas contas, Mindinho já é o Senhor do Ninho da Águia, Protetor do Leste e Defensor do Vale de Arryn, pelo menos enquanto o pirralho lá continua a apanhar num castelo qualquer. Agora ele aponta suas garrinhas para o título de Senhor de Winterfell e Protetor do Norte. Nesse ritmo, talvez ele não precise realmente queimar os Sete Reinos para ser rei da montanha de cinzas.


Mas deixando Lord Baelish de lado, mas ainda passeando pelas traquinagens de Cersei em King’s Landing, a ideia dela de usar a Fé Militante para punir os Tyrell – usando a desculpa mais estúpida do mundo, porque todo mundo sabe que pra ela faz zero diferença ter casado ou não com Loras – está gerando resultados, e neste episódio, Lady Olenna em pessoa retorna a cidade para defender seus netos. É uma pena que tenham conseguido estragar a aparição da personagem... Deixem que eu explique antes de começarem a reclamar!


A Rainha dos Espinhos decididamente rendeu boas reflexões sobre a política e o funcionamento de Westeros, e até algumas críticas sociais interessantes. Ela tem uma personalidade “forte”, para dizer o mínimo. E somos reapresentados a isso quando os produtores param a carruagem dela simplesmente para fazê-la apresentar um comentário mordaz sobre King’s Landing. São desses Espinhos que sentimos falta. Essa é a mesma Olenna Tyrell que deixou qualquer “entretanto” de lado e jogou o “finalmente” na cara de Cersei. NUNCA, eu repito, NUNCA que ela viria sem uma escolta larga o suficiente para impedir que Margaery fosse arrastada por um bando de fanáticos. Já me basta Tommen assistindo tudo com aquela cara de bocó – hail King Julian – durante toda a cena, não precisava ter contradito todo a personalidade e comportamento já apresentado em Olenna simplesmente para fazer uma cena qualquer, meramente para aumentar o senso de falsa segurança de Cersei. Caso eles tenham esquecido – quem leu aprendeu com Martin, quem assiste teve quatro temporadas para aprender – que quando as coisas “vão bem” demais para um personagem, é sinal de que ele/ela vai se f*der bonito. É o mesmo erro que estão cometendo ao gastar tempo de cena para nos garantir que Ramsey é o bocó mais bocó do Norte (e pobre de Jon Snow é quem não sabe de nada...).


Mas já que estou falando do Inquérito, não posso deixar de mencionar o quanto Jonathan Pryce está atendendo as minhas expectativas como Alto Pardal. Gostei de como ele mostrou que não têm restrições para a execução da “fé”. No meio de tantas adaptações desajuizadas, é bom saber que pelo menos uma trama boa d’O Festim dos Corvos foi bem tratada. Honrarei meu compromisso de não fornecer Spoilers, mas só acho que Cersei não deveria ficar muito confortável com esta vitória. Se existe uma verdade sobre a fé é que ela aceita novos alvos com facilidade.


Mas chega de falar sobre a capital! Vamos juntos aos Jardins da Água para dar uma olhada no que tem acontecido em Dorne. Entretanto, antes de partir diretamente para as tramas dos domínios do Príncipe Doran, quero fazer uma pequena observação. Afinal, o que está sendo feito em Dorne é um retrato do que eu esperava que a temporada fosse. As tramas flertam com a linha, hora tendo bons elementos, hora passando vergonha. Quando o distanciamento dos livros nas temporadas – bem como a ESTÚPIDA ideia de revelar “um” final antes dos livros – eu esperava que a série fosse se resumir a isso. Acertos e erros balanceados o suficiente para que ainda fosse tolerável assistir a série. A sequência em Dorne desta semana reuniu exatamente isso: acertos e erros mediamente bem contrabalanceados.


Primeiro temos Bronn, decididamente a melhor fonte de humor negro criada pela série – visto que Tyrion ser como é está nos livros, Bronn foi uma grata surpresa – nos presenteando com mais uma das músicas tão características criadas por Martin. “The Rains of Castamere” já tinha cumprido seu papel em impressionar, e agora temos Bronn nos lembrando de “The Dornishman’s Wife”“A Mulher do Dornês”, numa tradução literal – que retrata a história de um homem que se “envolveu” (para dizer o mínimo) com a mulher de um Dornês, e pagou o preço por isso.


E é claro que quanto se trata de Bronn, não seria só isso. Enquanto a nova Myrcella Baratheon aproveita os Jardins da Água, e é claro aproveita/é aproveitada pelo não-tão-jovem-assim Trystane, herdeiro do Príncipe Doran (não esperava ver os dois jogando Cyvasse, mas não precisava ser praticamente preliminares...), Jaime, Bronn e as Serpentes da Areia resolvem fazer todos uma visita, todos visando alcançar a garota.


Foi nesta parte que a balança de inverteu e uma das cenas mais deprimentes/toscas de Dorne aconteceu. Tentaram fazer essas – agora menos convincentes/aceitáveis – Serpentes da Areia, como numa tentativa de esfregar na nossa cara o óbvio, já que todo mundo entendeu que elas são filhas de Oberyn, não só repetindo que “vingança” por Oberyn é o motivo para as ações delas, a produção – noutra clara tentativa de dizer: “eles são burros, e já que não podemos colocar uma daquelas placas do Pica-Pau, vamos enfiar a informação na cara deles de forma tão grotesca que até um imbecil perceba” – tentou fazer essas garotas aí recriarem, da maneira mais tosca e mal coreografada possível, o estilo de luta característico do Príncipe Oberyn, executado tão perfeitamente por Pedro Pascal na temporada passada.


Outra coisa desnecessária aqui foi que, a produção agora parece pensar que é preciso que o nome do episódio esteja nos diálogos. No episódio passado isso não foi problema, já que o diálogo entre Aemon e Jon Snow é importante para a história. Mas forçar o lema dos Martell – que não é se quer a Casa de Elaria e suas filhas que, independente do parentesco com Oberyn ainda são todas SAND, a.k.a. bastardas de Dorne – numa cena em que a atuação de Elaria foi sofrível (para dizer o mínimo) é forçar um pouco a barra.


É claro que outras boas tramas tiveram lugar em Dorne, como o fato de Doran ter, assim como nos livros, esperado a conspiração acontecer para tomar medidas, se mantendo o precavido Príncipe Doran, usando causa e consequência para evitar incorrer na fúria do povo. Ver Aero Hoth tendo uma oportunidade de mostrar suas habilidades com o machado e mantendo a personalidade mais “obediente” do personagem – que não perdeu a oportunidade em tirar onda com a falta de mão de Jaime – também foi muito bom. Até mesmo a possibilidade de perder Bronn, que foi cortado pela lâmina possivelmente envenenada de uma das Serpentes, foi aceitável. Mas como o texto já está gigante e ainda faltam dois grandes núcleos, vou seguir viagem para Essos e discutir as confusões em que Tyrion e Jorah estão agora.


Até mesmo num episódio denso e polêmico como esse, Tyrion acha tempo para ser Tyrion e apontar uma coisa que tinha passado despercebida da maioria de nós, este que vos escreve incluso. Jorah precisou de TRÊS episódios para pensar em pergunta uma coisa tão óbvia quanto o porquê para o Lannister ter fugido de Westeros.


Ter reforçado nesta trama o quanto Daenerys pode mudar a perspectiva de alguém pelos olhos de Jorah também funcionou perfeitamente. Afinal, o mundo deles perdeu os dragões e a magia muito tempo atrás, coisas que foram substituídas pelo fanatismo e a loucura. Ouvir o choro de um dragão e ver o renascimento pelo fogo da última Targaryen decididamente é algo que pode mudar perspectivas e iniciar religiões.


Numa última nota antes de ir para o Norte, tenho que admitir que, mesmo tendo lido todo o material vazado sobre a série, não esperava que Tyrion e Jorah fossem escravizados. Certo, economiza todo o clima roadtrip – que acho (só acho... hahaha) que “pegaram emprestado” de Peter Jackson... – um tanto desnecessário.


E agora, a hora mais temida por mim ao escrever este texto chegou: vamos falar sobre Sansa, Ramsey (bocó), Theon/Fedor e o governo do Norte.


Enquanto todas essas outras coisas aconteciam, em Winterfell, fomos entediados por aquela garota ciumenta que Ramsey estava “usando” como forma de entretenimento – genuinamente esqueci o nome dela, primeiro porque ela não importa, segundo porque ela é tão bocó quanto Ramsey, e só tenho paciência para prestar atenção/tolerar/suportar um desses dois – tentando apavorar uma Sansa que parece tão crescidinha e razoavelmente tão badass quanto Mindinho diz ser. É uma pena que a bravata que ela demonstra no seu “Eu sou Sansa Stark de Winterfell. Este é o meu lar, e você não pode me assustar” é logo jogada fora pela cena mais desnecessária da até aqui.


O problema real não foi o casamento. Um casamento Nortenho também é algo que eu fiquei feliz em ver. A Fé dos Sete tem – e continuará a ter – muito espaço, e é bom ver que os Deuses Antigos ainda têm suas tradições honradas. É o que veio depois que realmente depreciou a série como um todo.


Sou forçado a terminar com uma reclamação, foi o que a série ofereceu, então fazer o quê? Confesso que estava começando a aceitar a possibilidade de que essa trama de Sansa no Norte, tomando o lugar da falsa Arya (a.k.a. Jeyne Poole) dos livros e se casando com Ramsey, tendo todo aquele momento de aliados improváveis com Theon/Fedor... tudo isso estava até aceitável. Mas terminar o episódio com Theon/Fedor com uma cara de filhote abandonado claramente roubada de Tobey Maguire enquanto você escuta, isso mesmo ESCUTA – essa ainda é a série em que você tinha Jaime montando em Cersei indiscriminadamente, Tyrion e suas prostitutas, Loras e seus amiguinhos e até mesmo Tommem (que nos livros é uma CRIANÇA!) experimentando o “entretenimento horizontal”? – um tipo de pornô de baixa qualidade, em que você não tem se quer certeza de se o casamento foi consumado – afinal, quem pode provar qual tipo de sexo estava acontecendo ali? – envolvendo Ramsey?! Não pago TV pra ter que aturar isso!


E antes que alguém defendendo bandeira A ou B venha reclamar, eu não digo nenhuma dessas coisas porque acredito que nudez da atriz faria do ESTUPRO – toda forma de sexo não-consensual é definida desta forma – menos chocante. Nos livros é pior, e é uma das minhas reclamações sobre a obra de Martin. Nem que fosse criada uma nova faixa na censura, poderia ser mostrado o que Ramsey faz com Jeyne Poole nos livros, e deixo meus cumprimentos a produção por ter tentado amenizar a situação. O que realmente me incomoda é que, dada a liberdade de adaptar, os produtores ainda recorrem a esse tipo de coisa, ao invés de trabalhar melhor o material base sobre o personagem e carregar a trama sem essas cenas desnecessárias. Mais ainda pela mensagem negativa que é mandada. Se Jon Snow ou Daario Naharis fossem estuprados na série, o escândalo e a quantidade de gente reclamando e parando de assistir a série seria gigante. Porque estuprar um homem, mesmo num cenário de Idade Média, é inaceitável. Mas ser aceitável para alguns "fãs" estuprar uma CRIANÇA – é isso que a personagem é – para ser o elemento “motivador” para que ela faça qualquer coisa é absurdo!


Enfim, já me alonguei demais. Espero que não tenha ofendido ou deixado à impressão errada sobre minhas opiniões, e espero que se sim, vocês se manifestem. Comentem o texto. Me digam o que achara da review e do episódio, me digam qual a opinião de vocês sobre essas cenas problemáticas que a série tem apresentado. Espero ver todos vocês na próxima semana, quando discutiremos “The Gift”, o sétimo episódio de Game of Thrones. Por hora, au revoir.

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