Crítica | Game of Thrones 5x05 - Kill the Boy


“Eu sou uma pessoa que bebe. Pessoas que bebem precisam continuar bebendo”, mais ainda depois desse episódio.



Outra noite de Game of Thrones veio e se foi, marcando a metade da temporada. Infelizmente, se o conjunto de coisas “whatever” nos episódios anteriores estava difícil de engolir, neste episódio eles desceram de vez.


Sim, este será um texto quase que completamente negativo. Não me desculparei por isso, porque mesmo com os erros grotescos anteriores, a série ainda nos apresentava o suficiente de boas cenas para nos fazer forçar a suspensão de descrença e ignorar as falhas. Mas isso não aconteceu aqui.


Talvez eles não consigam realmente administrar a alternância de tramas entre O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões, talvez seja porque tempo de cena é desperdiçado com adaptações pra lá de desnecessárias, talvez seja simplesmente um episódio feito com escolhas infelizes. O que importa é que, não foi um episódio bom. Não foi se quer razoável. “Medíocre” talvez seja a palavra mais leve que eu consiga achar para se empregar aqui, e mesmo assim, ainda é um tanto pesado. Não que a série não mereça, mas prefiro discorrer sobre tudo antes de fixar definições.


Quero começar por Winterfell. Grande parte dos acontecimentos – e, consequentemente, dos problemas – está ali, então vamos passar logo por este trecho indigesto o mais rápido possível. Depois, partiremos para a Muralha, onde Jon Snow continua a ter que arcar com problemas que não são realmente culpa dele. Iremos então para Meereen, dar uma olhada nas últimas traquinagens de Daenerys. E por fim, vamos visitar as Ruínas de Valíria, onde Tyrion e Jorah nos fornecem um fanservice que foi a maior tentativa de redimir o resto do tempo gasto com o episódio. Então, agora que o itinerário está claro, vamos embarcar nessa jornada pelos comentários sobre “Kill the Boy”, o episódio desta semana de Game of Thrones.


Vou começar reforçando um comentário  que li lá do Banco de Séries. "Eu não mereço meia hora de Ramsey". Acho que mesmo quem não leu conseguiu entender, desde as primeiras aparições de ex-bastardo do Forte do Pavor, que Ramsey é perturbado, chiliquento, vingativo, tudo isso combinado a um temperamento e personalidade simplesmente desprezíveis. Não era preciso todo aquele teatrinho com Theon/Fedor, ou as cenas dispensáveis envolvendo Myranda para relembrar com quem estamos lidando.


E falando em Myranda, não contente em ser inútil em sua trama – também inútil – com Ramsey, ela resolve que vai, talvez instruída por Ramsey, ou por mero capricho, ser a responsável pelo reencontro entre Sansa – que, se realmente tivesse crescido da forma com que os produtores querem nos fazer acreditar, não precisaria de uma qualquer para juntar os pontos e achar Theon... – e Theon/Fedor, reencontro esse que vai se desenrolar no papel de Theon/Fedor no casamento de seu mestre com Sansa.


Agora falando da garota Stark, acho que Mindinho pode ter se enganado em apostar tantas fichas nela, especialmente considerando que ela não aprendeu a controlar a boca. Roose Bolton traz os traços que o personagem tem nos livros, e essa aparente passividade é algo que deve ser temido, mais ainda do que a loucura de Ramsey. Talvez o maior atrativo da trama da garota seja o mistério que envolve quem seriam esses possíveis aliados que a velinha afirma que ela tem. Afinal, mesmo que ela possa ser a última filha viva conhecida de Ned, ela nunca foi alguém muito agradável para o povo quando as coisas ainda eram simples e ela vivia em Winterfell. Quem garante que a ajuda que é prometida a ela em caso de necessidade não passe de um truque de Ramsey?


E antes de partirmos para a Muralha, não posso deixar de lado Roose Bolton, que teve o seu próprio momento pai e filho – parece que Stannis começou uma moda... – e ainda continuou a apresentar as reflexões políticas razoáveis de sempre.


Vamos agora nos aventurar nos gelados territórios da Patrulha da Noite, e é claro, nas repercussões das ações de Jon Snow como Senhor Comandante. Era de se esperar que o episódio tivesse pelo menos a decência de apresentar a cena em que Aemon diz a frase que intitulou o episódio, incentivando Jon a tomar as decisões que eram necessárias, mesmo sabendo que o preço por ela pode ser altíssimo.


Jon tem o porte e o discurso de líder de Ned, mas ele luta contra uma corrente definida, forjada por mais de mil anos de hostilidades entre os Selvagens e a Patrulha da Noite, hostilidades estas que não se limitaram as fortalezas da Patrulha, mas também vitimaram as regiões próximas. Há ódio demais envolvido, e talvez seja nesta saída para Durolar – que sabemos que veremos, já que locações foram usadas, e duvido muito que o fariam sem ter um personagem importante envolvido – que o destino anunciado pelos livros e pelos vazamentos se concretize.


Ainda na Muralha, enquanto Selyse perde tempo sendo simplesmente intragável – não é de se admirar que Stannis só tenha tido uma filha, com uma esposa dessas... #SeiNão – Stannis se preocupa em continuar sua sequência de boas aparições. A conversa dele com Sam sobre a Obsidiana deu ao intendente uma das pouquíssimas boas tramas dele na temporada, pelo menos até agora.


Numa última nota antes de partir para Meereen e Valíria, Brienne continua apresentando boas tramas, e o questionamento dela sobre a validade/duração da promessa, sem contar com a reafirmação da lealdade dela a Catelyn, que embora possa aconteça sempre que possível, ainda não perdeu seu valor, foi tempo de cena muito bem usado.


Mas chegando agora a Meereen, vou começar com a parte que talvez gere mais discordância. Afinal, embora seja algo completamente novo, que existe só para a série, que é a relação entre Missandei e Verme Cinzento. É provável que tenha gente dizendo “Ai que fofo! Ele sentiu medo de não ver a amada mais!”. E é por causa destas pessoas que eu tenho uma lista de adjetivos aberta enquanto escrevo e reescrevo a review. Não gosto de usar os palavrões que passam pela minha cabeça, e não posso usar o “bocó” do Rei Julien nem metade das vezes que eu gostaria, pelo menos não sem ofender ninguém. Mas abrirei uma exceção para este caso. “Fofo” coisa nenhuma! Se vocês acham que o que Ramsey fez com Theon para o quebrar e o transformar em Fedor foi agressivo, o que se faz com os Imaculados, não só para se remover medo, mas toda e qualquer emoção é muito mais eficaz! Shipp coisa nenhuma! Isso aí uma falta do que fazer com o tempo de cena, já que cortaram tanta coisa útil, então inventam qualquer “coisa” – para não usar a palavra que me veio a mente – para preencher o tempo de cena e fazer valer o salário desses dois.


Dito isso, vamos a Mãe dos Dragões e seus problemas. Quem conhece a história dos Sete Reinos, mais especificamente, a história da Rebelião de Robert e da queda de Aerys II “Rei Louco” Targaryen – que é o mínimo, mesmo pra quem só assiste a série – sabe que o Aerys fez por merecer o título de “Rei Louco”. Para ir mais longe, Sor Barristan – R.I.P – diz (nos livros) a Daenerys que o Rei Jaehaerys II Targaryen lhe disse uma vez que:




“Sempre que um novo Targaryen nasce, os deuses atiram uma moeda ao ar e o mundo segura a respiração para ver de que lado cairá.”



Arianne Martell, em uma de suas conversas com Daemon Sand, questiona como eles poderiam saber se Daenerys seria uma boa governante, já que ela, assim como o Viserys, estava sujeita a possibilidade de ter como herança a loucura do pai. Daemon lhe responde com:




“Não podemos saber. Podemos apenas ter esperanças.”



Eu digo tudo isso não porque acredite que Daenerys tenha herdado a loucura do pai. Até mesmo nos livros, penso que os inúmeros erros que ela cometeu derivam mais de falta de bom aconselhamento, de preparo para ser soberana, não de loucura. A série não consegue passar a mesma impressão, porque por razões óbvias, os personagens tiveram suas idades avançadas, mas os leitores sabem que Daenerys é uma criança. Ela casa com Drogo com treze anos, perde o filho e traz seus dragões a vida com catorze, e tem apenas dezessete anos quanto decide ficar e governar Meereen. Ela é uma criança, que viveu a sombra dos maus-tratos do irmão, sem jamais imaginar que seria Rainha. Ela simplesmente levou fogo até a gasolina que já era a Baía dos Escravos, e agora se vê presa, tentando aprender a lidar com as consequências de se governar, mais ainda quando se governa um povo de costumes tão fortes e diferentes dos seus. Então sim, Daenerys cometeu erros, em excesso até. Mas não pela loucura que arruinou tantos Targaryen antes dela.


Simplesmente adorei o timing dela para voltar a ser a suposta “Mãe” dos Dragões. Ela estava com tanto medo quanto os Mestres, mas o blefe dela foi excelente, e serviu ao propósito.


O grande problema é que, especialmente considerando o casamento, sem Barristan Selmy para a defender, e mais ainda, defender aquilo que ela acreditava quando coisas acontecem num futuro próximo – no spoilers! – me pergunto o que acontecerá com a cidade e com a personagem.


Por fim, enquanto Jorah e Tyrion tentam aprender a serem companheiros de viagem menos relutantes, chegamos às ruínas de Valíria. Mas antes de comentar a trama em si, quero levantar um pequeno questionamento.


Foi uma surpresa para mim que eles tenham mostrado as Ruínas. Foi bom ver Valíria, talvez porque Martin nos contou muitíssimo pouco sobre a Cidade Franca, menos ainda sobre sua Perdição, mas ao fazer isso, eles tiraram um pouco da ideia de imensa e inesgotável destruição que teria se abatido sobre a cidade. Martin não nos levou para dentro daquelas ruínas, e isso não só aumenta nossa curiosidade para saber o que levou aquela civilização à Ruína, mas também deixa fixa em nossas mentes a ideia de que a Perdição jamais cessou naqueles mares.


Pouco se sabe sobre o que realmente levou Valíria à Ruína, cada um tem a sua teoria, não vou dizer que não estou entre aqueles que culpam a magia porque isso não é importante. Mas é fato que a Perdição ocorre cerca de cem anos antes do desembarque de Aegon I “O Conquistador” Targaryen em Westeros.


O que realmente causou a destruição, talvez só o próprio Martin saiba. Mas é sabido que a atividade Vulcânica nas Quatorze Chamas – local onde os ovos de dragão foram encontrados, onde também eram mantidos os escravos, minerando constantemente em busca de metais preciosos – foi imensa naquele dia. Geralmente quando o tema é abordado, eu – e acredito que todos os fãs – nos valemos de um trecho presente n’A Dança dos Dragões, mais especificamente no oitavo capítulo narrado por Tyrion, o que seria o Capítulo 33, contanto normalmente.




“Estava escrito que no dia da Perdição, todos os montes ao longo de quinhentas milhas tinham se despedaçado para encher o ar com cinzas, fumo e fogo, incêndios tão quentes e famintos que mesmo os dragões no céu foram envolvidos e consumidos. Grandes rasgos tinham-se aberto na terra, engolindo palácios, templos, cidades inteiras. Lagos ferveram e transformaram-se em ácido, montanhas arrebentaram, fontes de fogo cuspiram rocha fundida até uma altura de trezentos metros, de nuvens vermelhas choveu vidro de dragão e o sangue negro dos demônios, e ao norte o terreno fraturou-se, ruiu e caiu para dentro de si próprio, e um mar furioso jorrou para onde ele esteve. A mais orgulhosa cidade do mundo inteiro desapareceu num instante, o seu fabuloso império evaporou-se num dia. As Terras do Longo Verão foram queimadas, afogadas e arrasadas.”



Tudo isso simplesmente para dizer o seguinte: eu não vi nada disso na Valíria da série, e vocês? Não é uma crítica, só meio que tirou a graça de um dos elementos mais misteriosos dos livros.


Certo que gostei que tenham transportado a sequência do contato de Tyrion com os Homens de Pedra e a Escamagris nas ruínas. A cena foi feita com numa trama diferente com personagens diferentes, já que Jon Connington e seu pretendente ao Trono de Ferro foram excluídos da série. E transferir a Escamagris de Jon Connington para Jorah pode ter sido a mais aceitável das adaptações até aqui. Depois de nos conformar que todo esse conjunto de personagens não irá fazer parte da história contada na TV, é preciso bem menos suspensão de descrença.


Bom, é isso. Nos levar para as ruínas de Valíria, pode ter sido um tanto fanservice, especialmente pelo aparecimento de Drogon – que convenientemente está morando nas ruínas do lar dos dragões – mas foi uma das poucas boas sequências do episódio, então vou deixar qualquer queixa sobre isso para uma outra oportunidade. O texto já foi negativo demais, embora eu mantenha que, mesmo um episódio pra lá de ruim de Game of Thrones  ainda supera muita coisa que vemos por aí. Enfim, vejo vocês no próximo episódio, de volta as confusões de Cersei em King’s Landing e aos problemas e Dorne. Até lá!

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