Better Call Saul – 1ª Temporada | Crítica

Quando o derivado encontra o seu habitat natural.


O spin-off de Breaking Bad trata das peripécias do advogado Saul Goodman seis anos antes da metanfetamina azul de Heisenberg chegar às ruas de Albuquerque. Gilligan e diversos membros do elenco, como Bob Odenkirk e Jonathan Banks, retornam para trazer para as telas as aventuras de Saul quando ele ainda estava tentando encontrar seu lugar no mundo jurídico.


O começo é bastante superior ao de Breaking Bad, que estreou relativamente morna. Gilligan aprendeu e com a experiência adquirida conduz uma narrativa muito mais ágil e com orientação mais definitiva. O telespectador não é apresentado à trama duma vez, é colocado no canto e descobre tudo por si só. São diversos episódios até a série anunciar em voz alta o parentesco entre Saul e Chuck ou a doença do último.


Bob Odenkirk está muito simpático. Abusando das feições duras e cômicas, como sempre, mas reconhecendo as suas limitações e preocupando-se mais em construir um sujeito carismático do que um multidimensional. Não que o personagem seja vazio, pois o script não lhe concede esse privilégio, conferindo-lhe contestações morais e estratégias brilhantes.


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Todos os personagens funcionam bem, na verdade.


Mike é um grande personagem e a oportunidade de conhecê-lo melhor é um dos acertos da prequela. O episódio protagonizado por ele, embora frouxo dentro da temporada como um todo e brandamente previsível, é memorável.


Nacho, é um antagonista de peso que deve ser mais aproveitado pela frente e cuja ausência foi sentida. Esperto, intimidante e coerente, não apenas um maníaco irracional. Se Tuco foi o vilão ideal para o ainda ingênuo Walter White, Nacho caiu como uma luva para o sabichão Saul.


Kim é tão cativante que a enorme possibilidade de um romance com Saul não é tão assustadora. Avança sempre os plots de maneira eficiente e estou ansioso para o desenvolvimento da sua amizade.


Chuck é uma adição interessante, ainda que a sua existência seja consumada apenas pelo cumprimento da quota de ‘familiar que julga as ações do protagonista’, que antes era preenchida por Skylar. O personagem cresce quando descobrimos a sua posição em relação ao ensino à distância (para não ser muito detalhista) e o seu lugar como verdadeiro inimigo da temporada.


Novamente, todos desempenham bem as suas funções no contexto de 'caricatura visceral' da série.


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Gilligan continua desafiando a duração padrão de planos da televisão americana. O showrunner é um verdadeiro mestre da decupagem e a trilha visual de Better Call Saul é delicada e de exatidão semi-matemática. Micro e macro, ao mesmo tempo. Macro na qualidade, micro nos pormenores. Takes experimentais são recorrentes. Gilligan não esquece a sua obsessão com tons de amarelo, que inundam o mundo pré-Heisenberg para deixar claro que Saul está no jogo há muito mais tempo do que o químico.


O humor negro compõe 30% do texto de Better Call Saul e se expressa mesmo nos momentos mais sombrios da série. Quando Tuco quebra as pernas dos irmãos Cal e Lars – que deveriam ter morrido –, por exemplo, Gilligan recusa-se a não fazer fazer o mexicano ridicularizar a situação. No geral, a maior fatia das piadas pertence à Saul, que parece um forasteiro em todos os ambientes justamente por ser tão bem humorado.


A continuidade e a estrutura da narrativa merecem ser debatidas. Better Call Saul não é conceitualmente plana. Não é sempre um drama criminal e não se propõe a ser uma série jurídica, porém mixa componentes dos dois gêneros. Além disto, também não se preocupa em fazer distinção entre procedural e serializado; alguns episódios seguem uma única história, outros são casos quase que fechados dentro deles mesmos. É ousado e mantém a atmosfera fresca.


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Um dos pontos mais dúbios de toda a série, que pode ser encarado como uma força ou uma fraqueza, é a complexidade do background de Saul. O advogado possui um passado bastante intricado com trangressões legais. Ao contrário de Breaking Bad, em que o protagonista era um virgem do crime, Saul já foi um golpista de alto nível, de modo que o argumento possa parecer eternamente avançado, no sentido que nunca veremos a entrada de Saul nesse mundo, de fato. Por outro lado, é ótimo, pois isso o diferencia de Walter.


Better Call Saul não deve nada a Breaking Bad. Muito pelo contrário. Quando muito, a jornada de Walter White foi mais direta, enquanto Gilligan está aproveitando a de Saul para experimentar novas fórmulas. Engraçada, sombria e ousada, a dramédia da AMC é um dos melhores lançamentos do ano.


 
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