Sobre a Composição de Personagens Complexas: O Equívoco Popular

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Se há um equívoco popular que me faz frustrado, é o de confundir figuras misteriosas ou caóticas com personagens complexas. É precipitado, estúpido, bobo. A complexidade de um personagem nada tem a ver com o seu código moral ou a inexistência dele, muito menos quantos quilogramas de one-liners ele é capaz de inventar; ela diz respeito ao nível de clareza das suas motivações, desejos e receios e a como as dimensões interiores e exteriores são exploradas.


Para prosseguir, é necessário antes compreender dois conceitos básicos da teoria literária que remetem à E. M. Forster: o personagem plano/linear e o esférico/redondo. Um personagem plano tem a sua psique simplificada e pode ser enquadrado em rótulos como ‘herói’ e ‘vilão’, enquanto o esférico tende a evoluir drasticamente ao longo da história e não está no extremo de nenhum rótulo, sempre no meio.


Um importante aspecto da composição de um personagem esférico é o desenho de contradições na sua jornada. Como nós, humanos, seres fictícios também se contradizem. Em Sangue Negro, um dos longas estadunidenses da década, Daniel Plainview diz ser um homem de família para conquistar os seus negócios, porém só usa o seu filho adotivo como ferramenta de negócio. E embora faça todo o possível para não alimentar sentimentos por ele, quando o garoto é ferido, Daniel demonstra sentimentos genuínos, só para no final voltar a desprezá-lo. O personagem volta atrás nas suas decisões e atitudes e mantém-se fresco na narrativa.


cx1O problema surge quando personagens planos são erroneamente confundidos com esféricos por carregarem características singulares. Costuma acontecer quando possuímos um ‘mocinho’ e um ‘bad boy’ no mesmo elenco. O público está sempre mais inclinado a ter mais interesse pelo último, pois comete o equívoco de julgá-lo como mais complexo do que o primeiro.


Então, recorrendo a um óbvio exemplo, em O Clube dos Cinco, Bender é habitualmente encarado como um personagem mais complexa do que Andrew. Bender é um marginal presunçoso e cínico, enquanto Andrew é ‘apenas’ o atleta bondoso. E é aí que entra o ‘equívoco’: ambos são igualmente planos. Não por pobreza do roteiro, mas por escolha dos cineastas por trás da produção, que queriam que os cinco personagens sinalizassem estereótipos. O objetivo do filme não é tornar qualquer um dos seus personagens multidimensionais, então porque o espectador insiste em sugerir que Bender é um?


Não temos de cavar muito fundo pela resposta: o espectador usualmente é induzido ao erro de confundir personagens complexas com heróis byronianos. O herói byroniano é mais dotado de defeitos do que de qualidades, o típico anti-herói. Perspicaz, misterioso, intrigante, sedutor, poderoso, solitário e destrutivo. Infelizmente, tudo quanto é preciso para o sucesso de um personagem entre os consumidores modernos de entretenimento é se adaptar à essa descrição.


Entretanto, heróis byronianos não são complexos por natureza. Conflituosos, sim, mas muitas vezes carecem de desenvolvimento, tanto dentro do núcleo da história quanto fora. Um gangster que é violento durante dois atos e no terceiro aprende a amar não é exatamente complexo. Não só porque outros ângulos psicológicos do personagem além da paixão não são abordados (dentro do núcleo), mas também porque não se afasta muito do arquétipo do ‘imoral que atinge a redenção’ (fora do núcleo).


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A questão é que, por casualidade do destino, o pensamento coletivo dos espectadores mudou. Após os ataques ao World Trade Center, especialmente, público norteamericano passou a rejeitar os personagens ingênuos que estavam imortalizados no seu imaginário. Eram novos tempos para novos tipos de herói.


As adaptações de quadrinhos da DC Comics, por exemplo, de Batman: O Cavaleiro das Trevas à O Homem de Aço, confundem morbidez e depressão com profundidade. A incompetência é tamanha que a única carta na manga dos roteiristas é transformar o Superman, ícone da esperança e compaixão, num agente de destruição e morte.


Dado o contexto, é possível afirmar com segurança que o Coringa de Heath Ledger, por exemplo, sequer se candidata a complexo. A interpretação do talentoso ator (que descanse em paz) contribuiu para a criação de um antagonista memorável, de fato, porém o seu comediante psicótico não é desconstruído a partir de absolutamente nenhum ângulo.


O Coringa alastra o caos, solta frases de efeito e dá gargalhadas. E o Batman, garoto-bandeira da nova política americana de Guerra ao Terror, espanca-o e joga-o no canto. E essa é toda a construção de personagem presente no filme. Um personagem multidimensional é aquele cujas camadas psicológicas nunca são inteiramente conhecidas, porém o vilão vivido por Ledger nunca dá a conhecer qualquer resíduo dessas camadas, se é que elas existem. O roteiro é incapaz de fazer algo que Murnau e Galeen fizeram há mais de 90 anos com Nosferatu e Coppola há mais de 30 com Apocalypse Now: humanizar um vilão desfigurado e/ou insano.


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Devemos nos perguntar ainda porque os argumentistas (hollywoodianos, diga-se de passagem, pois o cinema independente e estrangeiro compõe grandes personagens até hoje) consideram tão mais fácil vender os anti-heróis de Byron como se fossem complexos. A verdade, que não é tão lúgubre quanto se pode assumir, é que sempre será mais provável a aceitação de um anti-herói por parte do público, geralmente um fora da lei. E digo que não é tão lúgubre pois consigo citar inúmeros foras da lei interessantíssimos, como Michel Poiccard (plano) e Michael Corleone (esférico).


Não quer dizer também que indivíduos que não quebrem a lei não possam ser complexos. Para mencionar um pouco do cinema atual, dois heróis dos últimos anos podem ser bons exemplos: Solomon Northup (12 Anos de Escravidão) e Mason (Boyhood – Da Infância à Juventude). Ambos, em teoria, são planos, porém na prática, esféricos.


cx3Os dois heróis – que não combatem a polícia ou dormem com dúzias de mulheres – são esféricos justamente por serem tão psicologicamente completos quanto pessoas reais. A cena em que Solomon tenta fazer com que outra escrava na varanda pare de chorar e se declara um sobrevivente e as aventuras que Mason tem na puberdade são evidências da sua simetria psicológica.


E o mais clássico exemplo de personagem tridimensional não-outlaw do cinema é o magnata Charles Foster Kane. A conjuntura narrativa constrói o personagem a partir de diversos ângulos: a sua vida profissional e familiar, a sua infância, a decadência das suas relações, etc. O Kane que conhecemos no início do longa teria nojo do Kane do fim.


Torço para que o público passe a apreciar personagens que transcendam rótulos. Vivemos dias tristes e exaustivos em que os heróis populares nascem de máquinas de xerox. Já deixamos para trás a era Bush consoante os registros históricos, é tempo de passarmos a viver como tal. É tempo para renovação: para nós e para os nossos personagens.



(...)

Cinetrópole trata-se dum estudo pessoal acerca da sétima arte em forma de road trip. De Toshirô Mifune à P. S. Hoffman, de D. Fairbanks à M. Haneke, da Nouvelle Vague aos super-heróis, de Um Corpo Que Cai à Sangue Negro. É uma jornada cósmica e espiritual pelos 120 anos do espetáculo que chamamos de cinema. E não deixa de ser, é claro, um passeio pela mente perturbada do seu chatíssimo autor, cuja opinião de porcaria não reflete a da equipe d’ O Vértice. Aproveite (ou não) a viagem.



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03/16/2015
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