HBO: In Memoriam (Parte 1) – Família Soprano

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Próximo ao fim dos anos 90 e no início do novo milênio, a HBO agitou e transformou para sempre a forma de se fazer televisão na América.


Dizer que o ‘padrão de qualidade HBO’ é uma garantia soaria como uma baboseira antes do lançamento das séries de que vou falar nesta trilogia de artigos. O título pode causar confusão, portanto necessita de esclarecimento. Não quero com esse título dizer que esse padrão está morto - apesar de True Blood ter durado mais do que o suadável -, mas não partilho da opinião de que Game of Thrones e True Detective sejam páreas para as produções da era de ouro do canal.


E o que seria mais sensato do que começar pela série pioneira? Família Soprano (The Sopranos) foi o que mudou o jogo para o canal e para os dramas televisivos no geral. Não foi a primeira a cair nas graças da crítica especializada ou do público porque a HBO já havia conquistado esse espaço com Oz e Sexo e a Cidade, porém o fênomeno desencadeado por David Chase não foi igualado por nenhum outro.


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A série segue a vida de Tony Soprano, capo de uma organização mafiosa de Nova Jérsia e líder de uma família típica. Tony sofre de problemas psicológicos como ataques de pânico e depressão clínica e frequenta o consultório de uma psiquiatra, onde vem a descobrir a relação entre as suas crises mentais e a sua ‘carreira profissional’.


A sua recepção crítica, conquistas em premiações e legado na indústria audiovisual alcançam níveis estratosféricos. A importância de Família Soprano para a construção de ícones da cultura popular contemporânea, novas ferramentas narrativa, inovações fotográficas é absurda. Se Walter White, Don Draper, Frank Underwood e Dexter Morgan reinaram (ou reinarão) por tanto tempo, é porque Tony Soprano deixou um vazio colossal. E se existiram, foi porque ele os precedeu e a herança que deixou foi riquíssima.


Seriado sóbrio, composto por um repertório musical apaixonante, nuances visuais significantes, diálogos articulados com maestria, atuações inspiradas e um argumento completo. E a sua maior façanha, que permanece até hoje inigualável, é a construção da personagem de Gandolfini (que descanse em paz).


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É possível que Tony seja o personagem mais complexo que a ficção moderna concebeu nos últimos 30 anos. O maior dos anti-heróis. O primeiro contato que os telespectadores tiveram com uma figura criminosa capaz de compaixão, remorso e tantos outros sentimentos que fogem das retratações comuns de foras da lei. E não só o protagonista. Todo o elenco de Família Soprano dá vida a personagens esféricos e trabalhados em diversas camadas, independente do seu tempo de tela.


Engana-se quem presume que a série pode ser reduzida a uma história de máfia, mesmo porque o esqueleto tradicional deste tipo de associação criminosa é completamente quebrado. Engana-se muito. Família Soprano é sobre o conflito humano, falhas incitadas pelo ego, papeis e fachadas sociais, perversão moral, diferenças de gênero e raça, corrupção institucional, tradições obsoletas, cláusulas religiosas, ordens patriarcais e mais mil e um temas sociológicos, filosóficos e políticos. O seu roteiro respira controvérsia.


Edie Falco, James Gandolfini


A magnum opus de David Chase  possui um mérito artístico indiscutível, seja no aspecto técnico ou narrativo. É um dos dramas mais influentes e consagrados de todos os tempos, ameaçado somente pela grandiosidade de outra série do mesmo canal (de que estarei falando nos próximos textos). Trata-se do character-study absoluto do storytelling televisivo e da evidência definitiva do manifesto de qualidade perpetuado pela HBO nos anos 2000.


E se houver alguém que queira me crucificar por afirmar que Família Soprano é o Cidadão Kane da TV americana, peço que solicitem o meu endereço por e-mail, pois a minha porta está aberta.

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