A Escada do Cinéfilo: Os 10 Primeiros Degraus

O cinema está entre as mais vastas de todas as artes. Para um recém-chegado, a sua imponência pode parecer assustadora e aparentemente sem fim. Como um arranha-céu, quase. E embora o contrário pareça mais apropriado, ajuda pensar no cinema desta forma, como um edifício.


O elevador está funcionando. Você pode pegá-lo e seguir direto para o andar que mais lhe interessa. Ou cautelosamente avançar pela escada. Degrau a degrau. O que importa não é chegar ao último andar, é traçar o caminho mais completo.


É de aparente obviedade, mas para se subir pela escadaria, deve-se estar dentro do prédio. O autor desse texto tem a função e humildade de um porteiro, então antes de deixar entrar o visitante deduz que filmes expostos e debatidos com tanta exaustão como Cidadão Kane, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Um Corpo Que Cai, O Poderoso Chefão e outros já foram riscados da sua lista. Por esta mesma razão, esses filmes não estarão aqui. Não porque não são mandatórios (são!), mas porque é sensato partir-se do pressuposto de que já foram vistos.


Os longas presentes neste artigo estão entre os favoritos de críticos, diretores e cinéfilos fervorosos. Novamente, são os primeiros degraus da longa escada da cinefilia, ajustados em ordem de preferência do autor e não de acessibilidade.


Para os devotos de longa data, são filmes top-of-mind, tão comuns quanto os que mencionei acima, mas para os iniciantes, são um ótimo ponto de partida.



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Performances consistentes, técnicas ousadas e uma premissa instigante. Na outra face da moeda, algumas cenas são herméticas demais e comprometem um pouco o argumento, que é fantástico. A psique que Bergman dá ao longa é única e enigmática.


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Técnicas de montagem singulares que formaram o padrão contemporâneo dão ritmo a um argumento consciente, repleto de sequências memoráveis - é necessário mencionar as escadarias de Odessa?! - e decisões corajosas - como a morte do 'protagonista' pela metade da história -. O filme-propaganda definitivo.


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Agarra a Itália da época pelo coração e espreme com sutileza. A miséria e a injustiça, o sacrifício moral e o vão entre pais e filhos são o arsenal artístico que De Sica utiliza para sensibilizar o espectador. Tocante.


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O humor é de bom gosto, as interpretações são rebuscadas e o visual é sublime - a profundidade de campo possibilita o desenrolar de diversas situações numa única cena -. Com alguns excessos aqui e ali, o grande brilho é o seu espírito jovial. Sátira às banalidades frívolas da Alta Sociedade.


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A cinematografia é precisa e paciente, sem perder o seu brilho para os diálogos e personagens instigantes que o argumento impõe sobre a tela. A Zona é uma ferramenta narrativa sensacional, bem como profunda. E ainda mais do que o visual, o áudio também é magnificamente orquestrado. Os ambientes despóticos visitados soam como verdadeiros mausoléus. Ficção científica de primeira.


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Abundante em planos absurdamente bonitos, o filme de Ford ergue uma narrativa portentosa de personagens icônicos e temas valiosos até hoje. A índole trágica, heroica e galhofeira do longa o tornam numa obra-prima atemporal. Wayne pinta com eficiência as muitas facetas do seu complexo personagem. O melhor que o western americano pode oferecer.


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Mastroianni parece esmurrar a câmera ao assoprar vida numa personagem tão complexa. Uma comédia dramática que ridiculariza não só as nossas relações românticas, como também o processo de criação artística e a delicadeza da barreira entre o sonho e o real, denunciando bravamente os seus limites.


escada3Murnau é o arquiteto de um conto ousado e simpático que vai de drama à comédia de forma orgânica num piscar de olhos. Os efeitos visuais são estupendos - a fusão entre o plano do protagonista na cama e o do lago é espertíssima -. Seminário para qualquer cineasta, amador ou não.


escada2A posição terrena da câmera faz o espectador se sentir ao mesmo tempo dentro do lar e da vida dos personagens e tão distante quanto os pobres idosos estão dos filhos que retrata. Capta com perfeição a essência de uma família, não apenas no sentido oriental, mas universal. A música é delicada, as atuações suaves e a transição entre planos é belíssima. Se tivesse sido produzido em widescreen, talvez não fosse tão mágico. História definitiva sobre pais e filhos, a terceira idade e a família como um todo.


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As mãos de Dreyer têm o poder de mover montanhas e fazê-las chorar junto da sua sinfonia de tristeza e sofrimento. O design de produção, além de ilustrar com vigor a arquitetura clássica, transforma o cenário numa fortaleza opressora que perturba. Os close-ups que escoltam cada movimento muscular de Falconetti assinam a sua fenomenal performance. O argumento é franco e desolador. Comovente.



(...)

Cinetrópole trata-se dum estudo pessoal acerca da sétima arte em forma de road trip. De Toshirô Mifune à P. S. Hoffman, de D. Fairbanks à M. Haneke, da Nouvelle Vague aos super-heróis, de Um Corpo Que Cai à Sangue Negro. É uma jornada cósmica e espiritual pelos 120 anos do espetáculo que chamamos de cinema. E não deixa de ser, é claro, um passeio pela mente perturbada do seu chatíssimo autor, cuja opinião de porcaria não reflete a da equipe d’ O Vértice. Aproveite (ou não) a viagem.



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03/13/2015
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