Um Tour de 15 Horas pela História do Cinema com Mark Cousins

Cinetrópole trata-se dum estudo pessoal acerca da sétima arte em forma de road trip. De Toshirô Mifune à P. S. Hoffman, de D. Fairbanks à M. Haneke, da Nouvelle Vague aos super-heróis, de Um Corpo Que Cai à Sangue Negro. É uma jornada cósmica e espiritual pelos 120 anos do espetáculo que chamamos de cinema. E não deixa de ser, é claro, um passeio pela mente perturbada do seu chatíssimo autor, cuja opinião de porcaria não reflete a da equipe d’ O Vértice. Aproveite (ou não) a viagem.




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02/17/2015

A História do Cinema - Uma Odisseia é um documentário dirigido por Mark Cousins e produzido por John Archer. 915 minutos de apresentação histórica dividida em 15 episódios de uma hora. Conta com comentários do próprio Cousins - diretor e crítico irlandês -, além de trechos de entrevistas com cineastas como Martin Scorsese e Lars von Trier e referências a mais de mil filmes.


Em 2011, o longa foi emitido no Reino Unido como uma série semanal pelo serviço de televisão digital More4 do Channel 4. Foi também exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto do mesmo ano, reproduzido no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque em 2012 e lançado nos Estados Unidos pelo canal TCM em 2013. Hoje pode ser encontrado à venda em DVD.



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Como afirmei aqui, não sou um grande fã do gênero documentário, mas não pude escapar deste título. Pensei que seria pertinente para uma coluna que, afinal, não deixa também de ser uma odisseia pessoal.


Antes de partirmos para minhas observações sobre o documentário de Cousins, uma breve síntese dos episódios e dos seus conteúdos:


1. O NASCIMENTO DO CINEMA (1895-1920): sobre o nascimento da sétima arte, as primeiras produções cinematográficas, estúdios pioneiros, as primeiras estrelas de cinema e a natureza de Hollywood.


2. O SONHO DE HOLLYWOOD (Anos 20): continua o testemunho sobre o mito de Hollywood. Sobre os loucos anos 20, as comédias mudas de Chaplin e Keaton e a preservação do espírito do cinema.


3. EXPRESSIONISMO, IMPRESSIONISMO E SURREALISMO (Anos 20): jornada pelo cinema de Paris, Berlim, Xangai, Tóquio e Moscovo e pelas escolas artísticas mais marcantes desta época.


4. O APARECIMENTO DO SOM (Anos 30): reflexão sobre a revolução nascida do surgimento do som. Das comédias, filmes de terror, dramas de gangsters, westerns e musicais aos grandes êxitos da década.


5. CINEMA PÓS-GUERRA (Anos 40): influência do pós-guerra no teor das obras cinematográficas. Grandes autores e grandes filmes de uma era ainda em processo de cicatrização.


6. SEXO E MELODRAMA (Anos 50): aparecimento de figuras como Marlon Brando e James Dean durante um debate sobre paixão, sexo, raiva, sedução, lágrimas e sensualidade.


7. NOVA VAGA EUROPEIA (Anos 60): explosão da Nouvelle Vague francesa no cinema europeu e sobre os grandes pais do movimento, como Godard e Truffaut.


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Cousins é apaixonado por Ozu, Dreyer, Ford e outros


8. NOVOS REALIZADORES, NOVAS FORMAS (Anos 60): novos diretores, como Tarkovsky e Oshima, se destacam no âmbito internacional após as sequelas das inovações europeias.


9. O CINEMA AMERICANO DOS ANOS 70 (Anos 70): sobre o amadurecimento do cinema americano no final dos anos 60 e início dos 70, sempre com paralelos a movimentos de outros países.


10. FILMES PARA MUDAR O MUNDO (Anos 70): viagem global pelos diversos filmes dos inúmeros países que moldaram o cinema da década, da Austrália ao Japão.


11. O APARECIMENTO DOS MULTIPLEX E O MAINSTREAM ASIÁTICO (Anos 70): sobre o florescer estrondoso do blockbuster e a drástica mudança que causou sobre a indústria e também sobre a sua conexão com Bollywood.


12. LUTA CONTRA O PODER: O PROTESTO NO CINEMA (Anos 80): sobre o cinema como forma de protesto político-social, discutindo eventos históricos como a ascensão do ator Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos.


13. NOVAS FRONTEIRAS: CINEMA DO MUNDO NA ÁFRICA, ÁSIA E AMÉRICA LATINA (Anos 90): anos de extravagância, realismo e inovação de gênero nos mais variados pontos do mapa.


14. INDEPENDENTES AMERICANOS E REVOLUÇÃO DIGITAL (Anos 90): diretores independentes americanos como Tarantino e Baz Luhrmann ganham destaque, sátiras políticas como Robocop agitam o público e o formato digital revoluciona para sempre a sétima arte.


15. O CINEMA HOJE E O FUTURO (Anos 2000): sobre o cinema pós-11 de Setembro, a relação entre diferentes mídias e questionamentos sobre o futuro tecnológico da arte.


Embora se aprofunde com paixão nos grandes e pequenos grandes autores, exaustando-se na discussão da técnica e contexto histórico, o narrador - com o seu sotaque insuportável - mostra-se presunçoso. As suas preferências pessoais têm demasiado choque sobre o material, sempre esbanjando rótulos como 'honesto' e 'realista' para os seus filmes prediletos e esnobando o cinema mainstream norte-americano. É compreensível, porém pode deteriorar o documentário para quem espera conteúdo histórico completamente imparcial.


É mais sobre, como o diretor adora repetir (um dos maiores problemas do longa), a história da inovação do cinema. Muitos dos capítulos são insípidos, mas o último é uma especial desilusão, com um epílogo ainda pior. A expectativa é mortal para o espectador. Para quem espera um curso de teoria cinematográfica de módulo único, alerto que encontrarão algo diferente. Serve como uma boa entrada para o mundo da sétima arte e introdução a novos nomes, não como guia histórico.


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Que decepção! Conhecimento praticamente enciclopédico e uma das únicas citações que faz ao cinema estadunidense mainstream contemporâneo é A Origem


Alguns picos de expressão num discurso fundamentalmente monótono definem essa Odisseia. O conto de como os homens usurparam as funções e iniciativas femininas após descobrirem o potencial do cinema como negócio, por exemplo, é curioso. O resto do longa, no entanto, não mantém o padrão. Nunca deixa de informar, mas quase não entretém.


Não basta para o irlandês mencionar visualmente as suas inspirações, ele o faz verbalmente vezes sem conta. Sequências com planos de duração acima da média em que o narrador reflete sobre a maravilha do realismo de longos planos. Pleonasmo cinematográfico ou simples insistência, não importa qual dos dois. É irritante.


É reconfortante para o cinéfilo mais dedicado ver tantos nomes inéditos intrigantes saltando na tela. Diretores africanos e coreanos independentes conquistam horas de projeção, enquanto os titãs de Hollywood são deixados de lado. Novamente, para os amantes da arthouse, o box de DVDs é um parque de diversões portátil, mas para o público casual, pode ser um pouco frustrante.


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Prepare-se para investir mais atenção no puzzle que é o cérebro de Cousins do que no cinema


Pessoalmente, o maior incômodo é, mais uma vez, a altivez em pele de bom senso. Não que eu queira menos Buñuel e Eisenstein ou não dispense Spielberg e Lucas (pffff), mas o relativizar da história que Cousins comete é inaceitável. Assistir o seu documentário não é tanto sobre aprender quanto sobre aceitar o gênero também como uma forma de ficção e se habituar à personalidade do seu autor.


A História do Cinema – Uma Odisseia é útil e fresco, porém não se esforça o bastante para conter as pretensões do realizador. 50/50, de verdade. Se você não ama (muito) a arte de que Cousins fala ou não tem paciência para locutores parciais, cairá na metade desfavorável. Felizmente, eu caí na metade aproveitável.

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