Star Wars: O Despertar da Força | 10 Maneiras de Superar a Trilogia Original

Cinetrópole trata-se dum estudo pessoal acerca da sétima arte em forma de road trip. De Toshirô Mifune à P. S. Hoffman, de D. Fairbanks à M. Haneke, da Nouvelle Vague aos super-heróis, de Um Corpo Que Cai à Sangue Negro. É uma jornada cósmica e espiritual pelos 120 anos do espetáculo que chamamos de cinema. E não deixa de ser, é claro, um passeio pela mente perturbada do seu chatíssimo autor, cuja opinião de porcaria não reflete a da equipe d’ O Vértice. Aproveite (ou não) a viagem.



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02/07/2015

Star Wars: O Despertar da Força é uma das produções mais esperadas do cinema pipocão de 2015. Depois do sabor amargo deixado na boca por três prequelas (terríveis) que não honraram o espírito da aventura original, J. J. Abrams, maníaco pela série, demonstrou que está disposto a resgatar este espírito perdido.

Não sou daqueles que se deixam cegar pelo saudosismo e pelo amor ao sabre de luz e não tenho problema algum em dizer que os três primeiros filmes têm muitos problemas. Sou daqueles que esperam que os novos sejam ainda melhores do que os originais.

Então eu, também como um grande fã, resolvi montar uma lista com as 10 coisas que o novo episódio e os dois outros que o seguirão podem fazer para superar a trilogia clássica de Star Wars.

Segure o (mau) pressentimento que está tendo e vamos começar.

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Em última posição, pois é o mais óbvio de todos os pontos. Abrams já declarou o seu amor pelos efeitos práticos de que Lucas abusou nos três longas iniciais e já tivemos vislumbres de alguns bonecos e animatronics que o diretor estará utilizando no sétimo episódio. Confesso que só estou inserindo aqui por temer que Abrams, assim como George Lucas (e Peter Jackson) caia na ilusão tecnológica que é o CGI. Não há problema algum em se usar imagens geradas por computação gráfica, contanto que elas sejam balanceadas com coisas palpáveis, como feito por exemplo em O Senhor dos Aneis. O trabalho de maquiagem e de construção de sets do primeiro Star Wars são muito superiores ao circo de aberrações digitais que Lucas fez com os prequels. Então, o mínimo que podemos esperar é que os efeitos práticos estejam mais avançados.


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Está bem, vamos esquecer por um momento de que estamos falando sobre a Disney e que já vimos no teaser um droid feito para este exato propósito. Todos sabemos que o maior turn-off de O Retorno de Jedi, além do título confuso (de? do? dos?), são os ewoks. É simplesmente inaceitável que o Império tenha sido derrotado por ursinhos felpudos e engraçadinhos. O pior é que, inicialmente, o papel deles na Batalha de Endor era dos wookies. Mas, por algumas complicações na produção, e ainda mais pela ganância de George Lucas (que é o pai de todo o esquema de filmes-para-vender-brinquedos), no lugar dos irmãos do Chewbacca nós recebemos ewoks. Por favor, Disney, não invente criaturas ou máquinas estúpidas só para aumentar a venda dos produtos da franquia. É Star Wars, as pessoas comprarão qualquer coisa!


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Teremos uma nova trilogia, fantástico. Mas aqui está algo que sempre me incomodou sobre os originais: eles são definidos por altos e baixos. Uma Nova Esperança é muito legal, O Império Contra-Ataca é espetacular e O Retorno de Jedi é legal. O mais perto de simetria que temos são os prequels, porque são três péssimos filmes. E o tom entre os filmes está sempre se movendo na escala entre ‘descontraído’ e ‘sombrio’. Também ajudaria ter o plano para os três filmes desde o início, para não termos de engolir plot twists mal planejados como nos originais. Não estou dizendo que quero três episódios num único tom, mas sim que quero três episódios (igualmente espetaculares) que sejam mais difíceis de se descrever. Afinal de contas, não é idiota numa mesma série de filmes termos o protagonista tendo a sua mão amputada e bichinhos da floresta derrotando soldados de elite com pedras?


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Eu não sou propriamente um fã do Boba Fett, mas a morte do mercenário é a mais imbecil de toda a Guerra nas Estrelas. O personagem não teve a oportunidade de fazer literalmente nada na trilogia e foi uma forma de se resolver rápido uma ponta solta. E eu não sinto vergonha nenhuma em dizer que o assassinato do Obi-Wan e a morte do Imperador também não são das melhores despedidas. O chocante fim dos tios do Luke foi... chocante, mas não combina de todo com o resto do filme (voltando ao erro de tonalidade). Então, precisamos de mais fins trágicos para os personagens, sejam eles centrais ou não. É uma space opera, o argumento não pode ter medo de se vestir como tal.


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Não estamos falando de uma saga conhecida por interpretações majestosas. Quase todas, inclusive as dos maiores personagens, são bem canastronas. Han Solo é certamente um dos favoritos dos fãs (eu estou entre eles), mas a performance de Ford era repleta de maneirismos e caretas. De Adam Driver à Max von Sydow, o elenco de O Despertar da Força é promissor. Precisamos de interpretações que componham personagens aventureiros, sim, mas também ricos em identidade. Mais preenchimento e menos contorno.


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Apesar do duelo de Luke e Vader em O Império Contra-Ataca ser fabuloso, por motivos claros, todas as cenas de ação estão bastante datadas. O episódio VII pode trazer a fusão perfeita entre técnicas de HEMA e kenjutsu, deixando enormes brechas para o compromisso emocional e a construção de momentos dramáticos. As sequências de combate dos prequels são medonhas! Os Jedi são inspirados em samurais, não nos ginastas do Cirque du Soleil. O choque do aço de duas espadas nos clássicos medievais pode e deve ser o rascunho dos novos embates que veremos nas telonas. Sem acrobacias, sem malabarismo, apenas sabres de luz colidindo e espadachins trocando olhares poderosos. Sentimento puro e sem palhaçada.


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Vamos colocar para fora o que todos estão pensando: Luke não é um herói envolvente. O que mais me aproxima dos primeiros três filmes é a veia romantizada da história. O Skywalker é tão problemático como personagem dirigente que é difícil comprar alguns dos momentos-chave da trilogia, como a vitória do Jedi recém-formado sobre o pai. É inevitável (e chato, eu sei) compará-lo com o piloto da Millennium Falcon ou com a sua própria irmã, os dois muito mais cativantes. E os prequels, com o seu asqueroso Anakin, não ajudaram a melhorar a imagem dos figurões da série. Gosto de condenar as pessoas a uma vida de reflexão sobre o que teria sido do background do lorde Vader se nos filmes mais recentes ele tivesse sido retratado como um Aragorn Jedi que é consumido pelo Lado Negro na busca pelo poder e não por um stalker pré-adolescente que discursa sobre areia. Embora o desafio não seja dos mais altos, espero que o(a) novo(a) protagonista seja mais interessante do que os anteriores.


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Uma Nova Esperança tem quase quarenta anos e ainda não perdoei Lucas pelo Calcanhar de Aquiles grotesco da Estrela da Morte. Em 88 segundos, Abrams fez mais pela imagem dos Stormtroopers do que todos os 6 filmes da saga. Star Wars está implorando por oponentes inéditos que tragam ameaças reais (como o Inquisidor da nova animação). E com ridicularizar, não falo somente (ou necessariamente) de transformar um inimigo em alívio cômico, mas também da reciclagem dos moldes já consagrados no estágio de criação de novos antagonistas. Nós queremos um vilão novo, não um novo Darth Vader.


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Os prequels exterminaram qualquer migalha de filosofia que sobrou após o fim de O Retorno do Jedi, mas os filmes originais também não foram muito claros. O modelo do Jedi monge e conselheiro é muito mais profundo do que o de polícia intergalática genérica. Como recentemente exemplifiquei para o editor aqui do site, antes dos prequels, os Jedi eram as versões espaciais do Gandalf. Muito poderosos, mas só usam as suas armas e poder como última alternativa, pois a sabedoria vem sempre primeiro. Porém, tudo foi sempre um pouco confuso, como o círculo de emoções que podem condenar um Jedi ao Lado Negro. Não estou pedindo por mais teoria ou ciência (os midi-chlorians são desprezíveis), mas por mais do código de honra, nobreza e espiritualidade dos Jedi.


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A essa altura do campeonato, todos já ouviram falar do Teste de Bechdel, certo? Todos menos George Lucas, aparentemente. Na prática, Leia é a única mulher da galáxia. Numa Hollywood pós-Jogos Vorazes e com a difusão dos ideais feministas modernos, parece fatal e arcaico Daisy Ridley e Gwendoline Christie não terem papeis significantes nos novos capítulos da saga. Não queremos que as duas vivam donzelas em perigo e mulheres másculas, queremos personagens femininas que inspirem as suas jovens admiradoras a fazerem as suas próprias escolhas e perseguirem o que querem. Por favor, Star Wars. Estamos em 2015. Catch up.



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E aí, o que você acha que o novo episódio tem de fazer para superar a trilogia original? Comente.

Star Wars: O Despertar da Força estreia no Brasil em 17 de Dezembro deste ano.
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