Banksy - Uma Lata de Spray, Uma Câmera & Muitas Ruas

Cinetrópole trata-se dum estudo pessoal acerca da sétima arte em forma de road trip. De Toshirô Mifune à P. S. Hoffman, de D. Fairbanks à M. Haneke, da Nouvelle Vague aos super-heróis, de Um Corpo Que Cai à Sangue Negro. É uma jornada cósmica e espiritual pelos 120 anos do espetáculo que chamamos de cinema. E não deixa de ser, é claro, um passeio pela mente perturbada do seu chatíssimo autor, cuja opinião de porcaria não reflete a da equipe d’ O Vértice. Aproveite (ou não) a viagem.


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Banksy. Artista de rua, diretor de cinema e ativista político. As suas pinturas satíricas podem ser encontradas nas paredes de Londres, Bristol e diversas outras cidades do mundo. O seu trabalho se define pelo encontro entre o humor negro, a crítica político-social e a revolta contra o movimento artístico mainstream.

Pouco se sabe sobre a sua trajetória fora do graffiti, porém especula-se que tenha nascido em Bristol (cidade onde nasceu também a sua arte) por volta de 1974. Mas se há algo em que o próprio artista concordaria comigo, é que a sua biografia não importa, só a sua arte.


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Banksy não tem vergonha em assumir as suas posições anárquicas contra um governo cuja legislação trata a arte urbana como vandalismo. É contra a comercialização da arte, especialmente a sua, que é muito popular em leilões. Não fosse essa postura, teria aos seus pés uma fortuna estimada em milhões e milhões.


O artista, que não nega a influência de Blek le Rat sobre as suas criações, cresceu dentro do cenário underground britânico com comentários em  estêncil sobre consumismo, conflitos bélicos, fascismo, imperialismo, autoritarismo, religião, anarquismo, ganância, pobreza, desespero, hipocrisia, alienação, niilismo e existencialismo.


Abaixo, algumas das minhas peças favoritas do artista.


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No que a mídia transforma as atrocidades quando elas não põem em risco vidas caucasianas. Quando sangue e bala não deixam de ser sinais de violência, a violência é uma mera atração de circo, isca de audiência. Não existe honestidade no jornalismo, apenas molduras sujas.


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O mortal fabrica uma deidade à sua imagem. O mortal molda a verdade que quer aceitar. O mortal (sobre)vive entre as cláusulas que escreveu para a sua própria existência. O mortal se consola com mentiras acolhedoras. Sobre mortais e deuses de estimação.


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A pobre formação ideológica dos jovens de hoje. Por que se aprender algo quando se pode ter uma percepção maniqueísta que exige menos esforço? Blá, os políticos são todos porcos... blá, o sistema é uma porcaria... blá, capitalismo, polícia, opressão... blá... cérebrossss! Zumbis em treinamento.


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Banksy brinca com a superficialidade da percepção artística frouxa e pomposa que reina entre os críticos. Numa sociedade onde o termo 'fanboy' faz falta no dicionário, muitos se preocupam pouco em veicular ideias, já que as 'grandes mentes' enxergarão pensamentos no nada.


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Talvez o operador de câmera tenha aberto os seus próprios olhos para a beleza orgânica. Talvez o operador de câmera esteja somente preparando um plano mais bonito. Talvez os dois, talvez nenhum. Tocante para qualquer cinéfilo, de qualquer maneira.


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Limpando a história? Mais: regredindo. Des-evolução. É mais fácil eliminar qualquer traço de um passado que, por alguma razão fútil, é considerado vergonhoso do que admitir a sua grandeza (vide o criacionismo). Imperdoável. É como naquela música, “o que Darwin dizia deve estar errado, é o homem que vai se tornar um macaco”.

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O documentário Saia Pela Loja de Souvenirs (Exit Through the Gift Shop, 2010), primeiro da filmografia do artista urbano, é interessante na fórmula e ousado na premissa. É propositalmente tendencioso no modo como retrata as suas lead-figures – para não dizer roles –, mas não compromete o teor crível da produção precisamente por, desde o princípio, propor-se  a ser uma sátira à fraude artística que é o artista conhecido como Mr. Brainwash (até mesmo o nome é vazio e intelectualóide). Uma espécie de mockumentary residual.


Não sou o maior amante do género documentário, mas o ritmo e o formato do longa de Banksy em momento algum são problema. Banksy é um artista verdadeiramente completo: não bastasse um gênio nas artes visuais, é também um excepcional argumentista. O humor ácido britânico não se ausenta durante os seus 87 minutos de running-time e é a válvula que o realizador utiliza para ridicularizar o prota/anta-gonista.


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Presença maior do que metade dos figurões de Hollywood


Ilusão: a maior – e talvez única – fraqueza do filme. Na verdade, não uma falha do filme, mas um furo na minha experiência. A ilusão que construiu em torno de si próprio foi a infecção que me prejudicou. Por culpa da tradução equivocada do título (Banksy – Pinta a Parede!) em Portugal, onde vivo, o espectador é levado a esperar por um documentário sobre o próprio Banksy e presenteado (ou condenado a, dependendo da sua apreciação pessoal) com um produto diferente. No meu caso, presenteado.


É válido acentuar o paralelo que o realizador ergue entre o ânimo do seu longa e o das suas pinturas urbanas, uma vez que ambos funcionam como críticas, sejam elas à sociedade ou a Thierry Guetta. Sofre é de um problema de tom-veracidade, que pode também ser um mérito. É impossível descodificar a verdade por trás das filmagens. Ora vemos um cartoon em live-action, ora vemos um registro histórico. A cinematografia segue a estética estilística do graffiti com planos furtivos e ríspidos, quase que numa metalinguagem, e faz da narrativa um tour turístico por um mundo cru e clandestino.


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 Contemplem! A megalomania ganha uma nova estampa!


O conteúdo que o documentário traz para a mesa é ótimo e deixa brechas (bem grandes) para alguns debates intrigantes. Até onde pode a arte ir sem perder o sentido artístico que a move ou deveria mover? O mercado de arte é tão insensato quanto parece? E a maior de todas as questões: o Mr. Brainwash é uma mentira ou uma verdade atormentadora?


Bom, a única coisa que todos podemos (e devemos!) esperar é que as traduções portuguesas, de Portugal ou do Brasil, deixem de distorcer a linguística original de uma obra em nome da sua própria e que Banksy continue se aventurando pelo cinema. Além de um fantástico artista de rua, o britânico é também uma deliciosa adição ao cinema contemporâneo.


"A primeira regra de um documentarista é: tenha paciência para observar a vida." – Herz Frank.



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E você? Qual a sua opinião sobre Banksy? Comente.
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