The Good Wife 6x12 – The Debate

The Good Wife chega a outro nível de qualidade.


O episódio todo tem como pano de fundo as manifestações nas ruas de Chicago devido ao assassinato de um homem negro por policiais, fazendo um paralelo com os acontecimentos de Ferguson. Por esse motivo, a produção teve o cuidado de esclarecer logo no início que o episódio foi escrito e filmado antes da decisão do júri em Ferguson e Staten Island.


Trazer um assunto tão importante e delicado como esse para o episódio levou a série a outro nível, saindo do puro entretenimento e entrando em uma discussão crítica acerca de acontecimentos marcantes. Tudo isso se encaixou perfeitamente ao contexto da série – que sempre teve um lado político e que agora explora uma campanha onde os candidatos debatem o melhor para a população.


Então, vamos ao debate. Parte do episódio se desenrolou enquanto o júri estava deliberando no caso dos policiais. Isso levou a uma série de perguntas sobre esse tópico no início do debate, onde Alicia se atrapalhou um pouco, devido ao curto tempo de resposta e à sua distração constante. Até esse ponto, Prady estava se saindo bem melhor que ela, com respostas mais eloquentes e uma postura mais segura.


O único momento em que Alicia conseguiu responder de forma segura foi quando um jornalista a questionou sobre seu casamento, por causa de fotos recentes que mostravam Peter saindo da casa de sua consultora jurídica, Ramona Lytton. Então, Alicia fez todo um discurso de como o trabalho dela não tem relação com seu marido ou com sua vida conjugal.


Nesse momento, pareceu que Alicia despejou no jornalista toda a mágoa e o ressentimento de sempre ter sua vida nos holofotes por causa do marido. Tudo aquilo que ela vinha guardando desde o início, a humilhação a que ela foi submetida, os questionamentos, o desrespeito à sua vida privada que sempre a incomodou, mas que ela nunca pôde responder publicamente. A ferocidade com que ela respondeu à pergunta fez com que até Prady não tivesse escolha à não ser apoiá-la nessa questão.


Quando o debate oficial foi interrompido para dar lugar à transmissão da decisão do júri no caso dos policiais o verdadeiro debate se iniciou. Alicia e Prady começaram a discutir algumas questões na cozinha do hotel, tendo como público os funcionários dali. Foi quando os dois, em especial Alicia, estiveram em sua melhor forma. E foi aí que o episódio ficou mais interessante também. Era impossível desgrudar os olhos da tela.


Pautados na questão racial e no despreparo dos policias, não só os candidatos debateram suas ideias, como criticaram um problema latente que extrapola a ficção. A forma como as pessoas interagiram com eles, expondo seus pontos de vista e fazendo perguntas que realmente interessavam me fez querer que todos os debates fossem daquele jeito na vida real também.


Pela primeira vez, Alicia me convenceu mostrando sua paixão e determinação, me fazendo acreditar que ela realmente pode ser uma boa procuradora. O problema é que, de certa forma, Prady tem razão quando diz que ela é sim engessada pela política dela mesma e do marido. No fundo, Alicia critica o idealismo, mas ela própria ainda não se deu conta de que é uma idealista a sua maneira.


tgw-2


Ainda na questão da revolta, Peter foi às ruas para aproveitar o momento e deixar uma boa impressão do seu governo na história, ao mesmo tempo em que jogou o caso com Ramona para debaixo do tapete. Sair com o pastor de um lado e a viúva da vítima de outro foi pura hipocrisia política para melhorar sua popularidade à custa da tragédia alheia. Não muito diferente do que políticos fazem na vida real.


Enquanto isso na F,A&L, depois de perder a Chumhum, Diane e Cary contrataram David Lee de volta para a firma, o que gerou um certo conflito com Alicia, por ela não ter sido consultada sobre a decisão. A ironia reside no fato de que Cary e Alicia decidiram criar sua própria empresa para fazer algo diferente do que faziam na Lockhart/Gardner, mas parece que eles só andaram em círculos.


No final, eles estão de volta ao mesmo lugar, com as mesmas pessoas – representadas por David Lee – e fazendo as mesmas coisas para sobreviver no mercado. A única diferença é agora ambos são sócios majoritários e têm seus nomes na porta. O que aconteceu com eles na firma talvez seja um paralelo com o que pode acontecer com Alicia na política. Por mais que as intenções iniciais sejam nobres, muitas vezes as circunstâncias acabam nos levando a ser iguais ao que queremos mudar.


Além disso, a volta de David Lee levou ao tão aguardado confronto entre os sócios em relação à candidatura da Alicia. Ela nunca consultou ninguém quando decidiu concorrer e, de certa forma, Diane estava certa ao dizer isso. Como sócia, Alicia nunca agiu pensando no bem da empresa. Por mais que seus motivos fossem nobres, ela nunca pensou se a firma sobreviveria à saída dela ou mesmo na dimensão do impacto que essa saída poderia causar no futuro.


Diane não estava errada ao questionar os motivos dela porque, no momento, gerenciar a firma é a coisa mais importante e não as motivações políticas de Alicia. O que me impressionou em toda essa cena foi como Alicia mudou de opinião de acordo com a conveniência.


Quando debatia com Prady, ela defendia que o escritório da promotoria deveria ser administrado de forma prática, que deveria melhorar como um todo e não girar em torno do racismo. Agora, quando Diane defendeu a mesma coisa em relação à empresa, ela se escondeu atrás do sexismo. Jogar a carta do sexismo é mais fácil do que conversar e ponderar racionalmente sobre o assunto. São essas atitudes que me fazem duvidar da capacidade de Alicia de colocar em prática na política tudo que ela diz.


The Debate foi um episódio que literalmente trouxe vários assuntos para serem debatidos, tanto na série quanto fora dela. A forma com que The Good Wife abordou questões delicadas foi inteligente e, mais uma vez, me lembrou do por que essa é a minha série favorita.


P.S.: É impressão minha ou está rolando um clima entre a Alicia e o Elfman?

Patreon de O Vértice