Temporada em Foco | American Horror Story: Freak Show

“As aberrações herdarão a Terra.”


Em sua terceira temporada, American Horror Story veio até nós com o tema “Clã das Bruxas”. Os roteiristas tinham muitas possibilidades de histórias para desenvolverem, mas acabaram desperdiçando 13 episódios com uma história rápida, personagens mal escritos, um roteiro bagunçado e muitas participações especiais que só serviram para incluir na trama amigos do criador da série. Depois de muitas críticas, foi anunciado o tema da quarta temporada da série. Ao saber que a season trataria de um Freak Show (Circo de Aberrações), todos os fãs esperavam que Ryan e os roteiristas se redimissem pela temporada anterior e criassem algo espetacular, mas não foi bem isso que aconteceu e muitos erros foram repetidos.


A temporada foi situada na cidade de Júpiter, Flórida, e se passou no ano de 1952. Acompanhamos o dia-a-dia dos artistas do último freak show ainda em atividade nos Estados Unidos e, assim, conhecemos vários personagens que viviam de exibir aquilo que tinham de diferente para o público em troca de dinheiro. Conforme os episódios passavam a gente podia conhecer mais de cada um deles. Por exemplo, as siamesas Bette e Dot (Sarah Paulson), que foram parar no freak show através da “bondade” da dona do circo, Sra. Elsa Mars (Jessica Lange), que as acolheu no hospital antes de serem presas por assassinato. Além delas, estes são outros personagens que acompnahmos: Ethel (Kathy Bates), a mulher barbada que se juntou ao circo após quase morrer na cadeia por causa de bebida; Ma Petit, a menor mulher do mundo; Desirre (Angela Basset), a mulher com três seios; Peper, que já havia aparecido em Asylum e aqui teve seu passado revelado; Paul, o homem foca que nasceu com deformidade nos braços; Jimmy (Evan Peters), que era conhecido como homem lagosta por causa de suas mãos com dedos colados, entre outros... Resolvi pesquisar de onde vinha a inspiração para esses personagens e descobri que, além de usarem referências do filme “Freaks”, de 1932, dirigido por Tod Browning, muitos dos personagens que estavam em cena existiram de verdade.


Um dos maiores problemas de Freak Show foi claramente o roteiro. Tentando corrigir o roteiro apressado e as muitas narrativas simultâneas apresentadas na temporada passada, os roteiristas escreveram um texto com a preocupação de fazer com que cada personagem em cena fosse importante. Até aí, tudo bem. O problema é que esqueceram de criar uma trama principal que unisse todas. Vou usar as temporadas anteriores para me explicar. Na primeira, a maior parte da temporada girou em torno do mistério sobre quem era o homem de borracha. Na segunda, o mistério era a respeito de quem era o Bloody Face. Na terceira, tivemos que esperar até o último episódio para descobrir quem seria a nova bruxa suprema que lideraria o clã. Já agora, na quarta temporada, as tramas aconteciam aleatoriamente, muitas das vezes sem conexão nenhuma de uma com as outras. Num exemplo direto, senti várias vezes que a história de Glória e seu filho mimado Dandy, interpretados pelos ótimos Frances Conroy e Finn Wittrock, não tinha nenhuma relação com o circo de Elsa Mars. Para citar mais um caso, não vi nenhum envolvimento do plot do palhaço assustador Twisty Clown com o circo.


Outro problema de Freak Show foi em relação aos vilões. Nunca dá certo a inclusão de muitos vilões em uma mesma trama, e isso pôde ser visto claramente em Freak Show. Tínhamos o menino psicopata, Dandy; o palhaço incompreendido, Twisty Clown; Dell Toledo (Michael Chiklis), o homem forte que escondia seus desejos homossexuais a qualquer preço, nem que precisasse matar um inocente; Stanley e Esmeralda, que eram dois vigaristas que faziam de tudo para vender os freaks para o museu; Edward Mordrake (personagem inspirado em alguém que realmente existiu e que faz com que qualquer um que conheça sua lenda tremer de medo), que apareceu nos dois ótimos episódios de Halloween mostrando suas faces e levando aquele que mais se encaixa no perfil para seu freak show no além; e até a Senhora Elsa Mars, que teve seus momentos de vilania, assassinando amigos e se juntando com os charlatões pelo simples fato de o sucesso ter lhe subido à cabeça. Com isso, senti falta de um vilão central que tomasse a liderança, fizesse coisas diabólicas e recebesse toda a antipatia da audiência. Acredito que isso traria mais sucesso ao roteiro.


Outra coisa que posso citar diz respeito às perdas de potenciais personagens antes do tempo. Foi bastante triste ver ótimos personagens – aqui me refiro a Glória, Ethel, Regina Ross, Twisty e outros – tendo que deixar a série prematuramente por causa de mortes ou escolhas mal pensadas pelos roteiristas.


Bom, com tudo isso, superei os doze primeiros episódios e fui assistir a season finale com um pouco de esperança de que a temporada pelo menos se encerrasse de forma digna. Novamente, não foi o que aconteceu, pois o último episódio nos apresentou mais do mesmo. Como já virou regra, as personagens de Sarah Paulson acabam vivas e felizes, ao contrário das personagens da Jessica Lange, pagam pelos seus erros e/ou morrem. O vilão se ferra e aqueles que passaram a temporada sofrendo o pão que o diabo amassou dão a volta por cima.


O fim que Elsa teve deixou muita gente dividido. Eu achei ruim, pois ela passou a maior parte do tempo pensando somente nela mesma, cometendo crimes e, quando morreu, foi para o céu viver feliz com seus freaks e receber muito aplausos pelos seus shows. Achei bem contraditório, pois, pelo caminho que ela trilhou, o mais correto seria vê-la sendo punida.


Mas essa temporada não foi de todo ruim, como o texto faz parecer até agora. Por exemplo, ela nos apresentou um dos melhores episódios de toda a série. Caso haja dúvidas, sim, me refiro aqui ao 4x10 (Orphans). Foi muito bom poder conhecer o passado da Peper, já que lá na 2ª temporada ela não passava de uma mera coadjuvante e foi pouco aproveitada. Ver sua história, o motivo que a levou a deixar o circo, a vida dela na casa de seus parentes odiáveis e conhecer a culpa que ela carregava por algo que ela não fez, isso sem falar no deslumbre de ver Briarcliff e a Sister Mary Eunice (antes de ficar endemoniada) novamente, me encheram de lágrimas. Só de pensar nos parentes da Peper, me vem à cabeça o quanto pessoas “normais”, sem nenhum defeito aparente, podem ser mais freaks do que as “aberrações”. A crueldade não escolhe um tipo de pessoa, uma classe social, ela pode ser uma característica de um vizinho, um amigo, um colega da faculdade, etc...


O ponto alto do final da temporada foi a perseguição de Dandy e o tiroteio contra os integrantes do circo. Toda a cena foi filmada magistralmente, e confesso que me deixou angustiado. A cena da morte do vilão Dandy foi excelente e muito simbólica, de modo que até Holdini ficaria orgulhoso de ver uma de suas mágicas sendo usadas para fazer justiça.


Para concluir, esta foi uma temporada bem devagar, sem um direcionamento correto, mas não chegou a ser o “desastre” que foi Coven. De modo geral, foi uam temporada bem regular. Se eu fosse criar um ranking das temporadas, ele ficaria assim:


Asylum > Murder House >>> Freak Show >>>>>>>>>>>>> Coven


E vocês o que acharam da temporada? Gostaram da minha crítica? Vocês já tem alguma ideia do que será apresentado na quinta temporada? Não esqueçam de comentar... A gente se vê em outubro para mais histórias americanas de horror.


-Anotações do diário de Betty e Dot (1): Confesso que, no fim do episódio 4x10 (Orphans), fiquei esperando a Sister Jude entrar pela porta ou fazer alguma pequena participação, mesmo sabendo que aquelas cenas se passavam alguns anos antes de Jude entrar para Briarcliff. Apenas saudades de Asylum.


-Anotações do diário de Betty e Dot (2): Ryan Murphy publicou uma mensagem de agradecimento a Jessica Lange em seu Twitter pessoal por todos esses anos em que ela trabalhou em American Horror Story. Em outubro, a atriz não estará mais presente no elenco, e vai fazer muita falta. Ao mesmo tempo, acredito que isso será bom para a série se renovar e mudar um pouco os ares, pois a fórmula do sucesso está ficando desgastada. Veja a mensagem de Ryan Murphy:


https://twitter.com/MrRPMurphy/status/558122471380234240

-Anotações do diário de Betty e Dot (3): Ryan deu algumas poucas pistas sobre o tema da quinta temporada durante os episódios, mas nada de concreto foi anunciado. Só espero que em outubro a gente possa assistir a uma temporada incrível. Quero me surpreender e ficar novamente chocado com acontecimentos impactantes, assim como acontecia em Murder House e Asylum.

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