Birdman | Crítica

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Os dois, talvez? Nada mais divertido do que o cinema falar dele mesmo e utilizar o teatro como cenário. Maluco, não? Mais do que isso. Nada melhor do que chamar Michael Keaton para interpretar um ator conhecido por ter dado vida a um herói nos anos de 1990. Batman, é você? É com essas e outras referências e ironias que Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) brinca com situações e coincidências que ele mesmo nos apresenta para depois criticar os valores da grande indústria do entretenimento.

O diretor Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos e 21 Gramas) é ousado e os atores aceitam o seu desafio de vários planos-sequência, nos dando a impressão de que é feito em tomada única. Existem alguns momentos nos quais é possível perceber o corte e a interrupção, mas eles são raros. O diretor usa o próprio cenário do teatro para criar um espaço lúdico que nos engana e no qual é possível que horas e dias passem dentro de um único plano.

A ilusão, no entanto, não está presente só nesses planos com os quais brinca Iñárritu, ela é peça fundamental na estrutura do roteiro. Riggan Thomson, personagem de Michael Keaton, está no centro dessa ideia, ou melhor, é vítima dela. Riggan é um ator que ficou famoso e ganhou dinheiro ao interpretar um super-herói nos cinemas e ao se recusar a fazer um quarto filme é esquecido pelas pessoas e entra em decadência. Com o intuito de voltar aos holofotes e fazer algo de importante em sua vida, ele escreve, dirige e atua em uma peça que adapta um texto consagrado, porém, muito mais voltado para a reflexão do que para o entretenimento.

O filme propõe a discussão sobre o que as pessoas querem ver: arte ou ação? Quer dizer, não é bem uma discussão. Está mais uma afirmação. O longa é uma crítica aos grandes filmes e produções de Hollywood, os famosos blockbusters, cujo único objetivo é lucrar e entreter o público.

Iñárritu também fala sobre a sociedade atual e da necessidade que nós temos de sermos reconhecidos e amados. Não só amados por nossos amigos e familiares, mas, sim, a busca constante por esse amor. ‘De que Falamos Quando Falamos de Amor’, o texto que Riggan adapta para sua peça e com o qual ele deseja reconquistar a paixão do público já retrata bem isso. O que estamos falando quando falamos que queremos ser amados? Desejamos que nos amem pelo que somos ou por aquilo que fazemos?

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A busca de Riggan, no entanto, por esse amor parece desnecessária, pois basta ele aparecer ou colocar o pé para fora do teatro no qual está confinado que todos seus antigos fãs reconhecem ele e querem um autógrafo ou uma foto com o Ex-Homem-Pássaro. É nesses momentos e também no comportamento dos coadjuvantes que percebemos quão egoístas esses personagens são.

E por falar em coadjuvantes, eles são muito importantes não só para essa percepção, mas também na construção dos outros conflitos de Riggan. Emma Stone, Edward Norton, Naomi Watts e Zack Galifianakis são os responsáveis por dar vida a eles. Cada um deles configura e representa um mini conflito ou uma mini reflexão. Porém, dentre eles, Norton e Emma se destacam por suas atuações.

Norton é uma grande estrela do teatro que acaba entrando na peça e preza pelo realismo. Isso faz com que, por diversas vezes, ele bata de frente com Riggan durante os ensaios e apresentações. Já Emma é a filha de Riggan, uma ex-dependente química que acaba de sair de uma casa de reabilitação e carrega o peso e a mágoa do pai nunca estar presente em sua vida.

Keaton está perfeito. Quem diria que o ator, tão conhecido por comédias, um dia seria indicado e um dos grandes favoritos ao Oscar de Melhor Ator. Daí, provavelmente, vem o outro título do longa: A Inesperada Virtude da Ignorância. Mas, de ignorante Keaton não tem nada. Muito pelo contrário. O ator pode, sim, ter sido esquecido depois de fazer sucesso nas mãos de Tim Burton, porém, sempre foi um bom e divertido ator e é muito gratificante – pelo menos para mim que sou fã dele – ler textos e ver pessoas elogiando ele.

No começo do terceiro ato, o longa fala ainda sobre o papel do crítico de arte e de como ele é capaz de, com um texto, elevar ou afundar a carreira de um artista. Iñárritu leva a metalinguagem ao extremo, colocando no próprio filme a crítica da crítica que ele está fazendo. É como se o diretor mexicano deixasse seus personagens soltos para fazer da estória e na estória aquilo que eles querem, ao estilo do ultrarrealismo que defende o personagem de Edward Norton. Tudo isso fica ainda mais belo e ritmizado graças à bateria que, assim como as alucinações de Riggan e seu alter ego Birdman, é onipresente na produção.
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