A Linguagem Predatória da Ignorância

Cinetrópole trata-se dum estudo pessoal acerca da sétima arte em forma de road trip. De Toshirô Mifune à P. S. Hoffman, de D. Fairbanks à M. Haneke, da Nouvelle Vague aos super-heróis, de Um Corpo Que Cai à Sangue Negro. É uma jornada cósmica e espiritual pelos 120 anos do espetáculo que chamamos de cinema. E não deixa de ser, é claro, um passeio pela mente perturbada do seu chatíssimo autor, cuja opinião de porcaria não reflete a da equipe d’ O Vértice. Aproveite (ou não) a viagem.




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01/18/2015

Não prego ser pioneiro ao dizer que no seu core o ruim do cinema estadunidense se alimenta de diversos tipos de ignorância. No coração ambicioso de Los Angeles, Hollywood, a instituição corporativa de onde partem as concepções estéticas do cinema americano contemporâneo, faz com que os espectadores se afastem como imãs. Não pelos seus polos magnéticos, mas pela sua postura face à empreitada comercial que se tornou a sétima arte. Alguns compram, alguns não. Os cinéfilos mais fervorosos condenam as crias milionárias de Hollywood e procuram refúgio no estrangeiro e no independente, enquanto outros contentam-se com o entretenimento na sua mais pura forma. Mumblecore ou four-quadrant. Haneke ou Spielberg. Cannes ou Óscar. 8 ou 80.


Sempre achei esta “lei do distanciamento” boba. O meu amor por Os Incompreendidos (1959) é tão intenso quanto o meu pelas fábulas tarantinescas. Me entusiasmo com a genialidade de Dr. Fantástico (1964) enquanto Os Guardiões da Galáxia (2014) me faz gargalhar. Para mim tanto faz. Se é mais do que uma questão de saber apreciar o que o longa se propõe a fazer, eu não saberia. Então, pouco me diz se a promessa por trás do longa é a de um debate niilista, um testemunho motivacional ou uma sátira ao sincretismo. O que me importa é que seja bom. Minhas filosofias pessoais estão em segundo, senão em terceiro ou quarto plano. Ben-Hur (1959) e o Martírio de Joana d’Arc (1928) são ótimos. O filme que me levou a escrever este artigo é péssimo. É tudo mais simples do que parece ser, ao meu ver.


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Ele era um católico. Faz alguma diferença?


Lamentavelmente, cheguei à conclusão de que eu (e com sorte, você que está lendo) faço de uma estéril minoria (modéstia à parte, é hora de ser presunçoso). Sob circunstâncias que prefiro não iluminar, vim a presenciar uma exibição de Deus Não Está Morto (2014) de Harold Cronk e descobri que uma imensa porcentagem dos que me rodeiam são não só alérgicos ao pensamento crítico, mas estranhos para a gnose cinematográfica e devotos à estagnação artística. Talvez minha mente seja demasiado pequena para compreender a importância de crenças religiosas num diálogo fundamentalmente artístico. Ou talvez para alguns crédulos discutir sobre o cinema quando dogmas são adicionados à equação seja como separar o joio (neste caso, o que concerne à sétima arte, ou seja, a direção lógica) do trigo (a direção irracional, pois a necessidade de transformar tudo numa cláusula ideológica deve prevalecer!). Novamente, embora me considere um agnóstico ateísta, o valor do belief system por trás do conteúdo fictício que consumo para mim é zero. Eu me importo com cinema e só.


O Superman, além de uma personificação dos princípios morais messiânicos, em sua criação foi inspirado em Moisés. Sobre isto, o meu posicionamento é apenas um: citando Clark Gable em E o Vento Levou (1939), “francamente, minha querida, eu não dou a mínima!”. Grandes Astros: Superman permanece num posto elevado entre as minhas histórias em quadrinhos prediletas. Se eu coloco minhas fichas no Design Inteligente ou na seleção natural, tanto faz. Por esta linha de pensamento (perdão pela comicidade, não consigo não achar a situação absurda), em teoria, peixes não têm escolha a não ser cultuar Procurando Nemo (2003) e todos os mergulhadores e dentistas são pessoas terríveis. Se alguém simpatizar com a animação, mas apontar um defeito na sua narrativa, então estará sendo intolerante e insultando o histórico de opressão dos peixes, porque... razões. A lógica está puxando os fios? É claro que não. Quando falamos sobre o cinema (ou em arte, por si só), o nosso conjunto de ideais individuais não deve atropelar o nosso senso crítico. O autor deste artigo é negro, mas isto não quer dizer que seja coerente afirmar que O Nascimento de uma Nação (1915) foi um filme insignificante para o cinema meramente por ser uma apologia à discriminação racial ou que o remake de Oldboy de Spike Lee (2013) seja incrível porque o realizador é negro.


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O épico bíblico de Aronofsky falha precisamente por não ter Deus o bastante


O besteirol de Cronk sequer merece ser classificado como cinema. Teve a proeza de superar Transformers: A Era da Extinção (2014) como um dos piores avaliados pela crítica especializada no ano. Pelo carinho que tenho pela indústria cinematográfica, prefiro considerar Deus Não Está Morto uma propaganda ideológica. Na verdade, uma propaganda ideológica malfeita, se pusermos em comparação com os documentários pró-nazismo de Leni Riefenstahl, que são muito bem dirigidos. A escrita é fraca, dispersa e risível. Os personagens, que já são rasos, ganham vida em atuações que não são dignas nem de prêmios pela Framboesa de Ouro. A edição é pior do que a de uma telenovela. A cinematografia é repleta de enquadramentos óbvios, trabalho de um novato sem talento da pior faculdade de cinema. A trilha sonora é desonesta (as sinfonias de fundo das cenas em prol da fé cristã são angelicais). A direção é, de fato, amadora. Burro, tendencioso e cheio de imprecisões, Deus Não Está Morto conta com a ingenuidade e ausência de bagagem científica, histórica e cinematográfica do espectador (e certo racismo, afinal todos os islâmicos são fanáticos, asiáticos insensíveis e ateus soberbos) para surtir algum efeito. Para ser honesto, o longa não merece um texto de mais de duas sentenças, porém tenho mais tempo livre para esbanjar do que me orgulho. Pornografia pseudo-filosófica da pior qualidade. Parafraseia Nietzsche em seu título, mas é tolo demais para trabalhar com isto. Trabalha com a linguagem predatória da ignorância.


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O pipocão de Ang Lee realmente precisava de uma metáfora religiosa de fundo? A resposta é não


Talvez a minha ideia de humor seja muito peculiar, mas não acredito ser o único que vê alguma ironia no quanto Dr. House (2004) é menos pedante no seu debate religioso. Embora o personagem do excepcional Hugh Laurie seja arrogante, sarcástico e não deixe passar uma única oportunidade de ridicularizar todos que depositam sua fé em divindades, todos os episódios que cercam a religião (seja ela o cristianismo e a figura de Jesus Cristo ou o pastafarianismo e seu Monstro do Esparguete Voador) acabam de forma ambígua, sugerindo a existência de uma força superior, contra tudo o que o médico acredita ser verdade.


Dentro do grupo que aprovou o longa de Cronk (venturosamente pequeno), a denúncia à discriminação é seletiva. Os que criticam o retrato cartunesco de “cristãos bondosos, todos outros grupos retrógados” são intransigentes que devem ser crucificados. Projeções de fanáticos. Ideias não devem ser protegidas, pessoas sim. É por esta razão que considero incabível qualquer tentativa de justificação para os atos dos criminosos por trás do atentado ao Charlie Hebdo, e em simultâneo, sinto repulsa por quem guarda a sete chaves o rótulo estúpido de que todos os muçulmanos são vilões da Disney. “Zombe do que ele acredita, mas não ouse fazer o mesmo comigo”. Possivelmente sentenciariam um profissional ríspido como Demetrius Caesar do Cineplayers à morte se este escrevesse uma resenha de um filme onde um clérigo aparece durante 5 frames. Se o mesmo crítico apoiasse uma campanha de extermínio aos hindus, bem, quem se importa? Como já dizia o extraterrestre vivido por Seth Rogen em sua comédia (todos temos guilty pleasures!) Paul (2011), you can’t win with these people.


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Filme sobre religião ou filme religioso? Mais do que qualquer um dos dois, é um filme ok


Deus Não Está Morto é para mim uma aula de como não se fazer cinema ou disseminar uma ideia. Que haja alguém que defenda com unhas e dentes a abominação cinematográfica racista e palerma que é o longa de Cronk unicamente por se sentir na obrigação de venerar tudo que esteja dentro do seu círculo dogmático pessoal, me assusta. Afinal de contas, o que há de mais interessante no cinema do que o próprio auto-questionamento com que ele nos presenteia?


“Um filme é uma fonte petrificada de pensamentos.” – Jean Cocteau.


Obrigado por ler e espero que tenha gostado da viagem.

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