Ida | Crítica

Quanto mais cor o cinema ganha, mais belas ficam as filmagens em preto e branco. Ida é um mergulho no passado, uma redescoberta dos traumas de guerra e um filme no qual a fotografia e a luz são utilizadas de maneira perfeita, mas não apenas na composição do cenário. O recurso serve, primeiramente, para compor a personalidade das personagens e traça um paralelo com a realidade com a qual elas têm de se confrontar.

O filme se passa na Polônia, em 1962, 17 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, e conta a estória de Anna, uma freira que, as vésperas de fazer seus votos, vai passar uns dias com sua tia Wanda, única parente viva que tem. Nessa visita, ela é apresentada a um passado e identidade que desconhecia: seu nome, na verdade, é Ida; ela é judia; e seus pais foram mortos durante a ocupação da Polônia pelos nazistas. A partir disso, as duas começam a procurar onde os pais de Ida estão enterrados.

O filme se desenvolve como um tradicional road movie, passando pelas etapas e abordando as metamorfose sofrida pelas personagens de Ida e Wanda durante a viagem que fazem. Interessante ver como Ida é uma personagem quadrada, sem graça e previsível na maior parte do filme e, em contrapartida, a tia dela é “do mundo”. O contraste entre essas duas personalidades distintas, se comportam e enxergam a realidade é o grande destaque do longa. A maneira como elas convivem, mesmo não concordando com o comportamento da outra, aprendem a se gostar e criam um laço afetivo forte também é algo muito bem trabalhado e interessante no roteiro de Pawel Pawlikowski. Isso, no entanto, não é muito nítido nas duas primeiras partes do filme e fica explícito apenas no último ato.

Na realidade escura e com tons de cinza deixada na Polônia pelo nazismo, a luz invade o cenário da mesma forma que o passado de Ida invade sua personalidade. A iluminação se assemelha em sensibilidade ao utilizada em A Noite da Vingança, filme dinamarquês de 1915, dirigido por Benjamin Christensen, que foi a película mais inovadora na utilização desse recurso na época. Hoje, o uso da luz já muito mais trabalho e já se sabe o poder que ela tem e dar dramaticidade na composição de uma cena, no entanto, mesmo com esse conhecimento, são raros os diretores que a utilizam de maneira tão poética, saudosista e contemplativa. É como se Ida tivesse sido fotografado por Sebastião Salgado.

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A câmera que quase não se movimenta de Pawlikowski funciona para formar cenas que poderiam – e podem – terem sido inspiradas em pinturas antigas. O filme todo é trabalhado através do minimalismo e algumas cenas são utilizadas para simbolizar o estado de espírito e pensamentos dos personagens. Na há uma grande carga subjetiva na produção, é possível facilmente saber o que o diretor quis dizer ou mostrar com determinada tomada, porém, ele não dá tudo de mão beijada e também não dá o trabalho de filmar acontecimentos óbvios e explicar didaticamente o que acabou de acontecer. É comum também ver personagens que saem e entram do quadro constantemente

A falta de uma trilha sonora em muitas cenas também se destaca, fazendo com que o silêncio fortaleça ainda mais o distanciamento que há entre tia e sobrinha. O filme utiliza apenas músicas que estão na cena, quando, por exemplo, elas vão a um show ou Wanda coloca um de seus discos para tocar enquanto fuma. A música exerce aqui, então, um papel sedutor e melancólico, respectivamente.

Agata Trzebuchowska tem uma beleza sedutora que encanta mesmo encoberta pela roupa de freira. No entanto, a atriz sabe construir a imagem de uma garota puritana, que não conhece o mundo, o mal que há nele e os pecados apenas com o olhar e pequenos gestos. Essa impressão que ela nos passa é importantíssima para o desenvolvimento do roteiro.

Muito elogiado pelos críticos do mundo todo e eleito o melhor filme europeu de 2014 na 27ª edição do European Film Awards, Ida está entre os pré-indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e entra como o grande favorito para levar a estatueta dourada para casa. O filme pode ser lento, como um tema já batido e ter um roteiro simples, porém, sem dúvidas, é esteticamente um dos filmes mais belos desse ano, resta-nos saber se isso será suficiente para conquistar os membros da Academia.
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