Elementary – Um balanço da série até aqui

Bom, galera, meu nome é Bruno e sou novo aqui. Tenho 21 anos e vou assumir as reviews de Elementary, Scandal, Orphan Black e Dowton Abbey. Como ainda estamos em hiatus vou fazer um pequeno (ou não tão assim) retrospecto de algumas delas para preparar para os seus respectivos retornos. É isso, espero que gostem.




“New Holmes, New Watson, New York”



Essa frase foi utilizada com o intuito aparente de introduzir a ideia de Sherlock Holmes num país, ou numa cidade diferente (que não Londres, na Inglaterra), e talvez a ideia de Watson ser uma mulher, no pôster promocional da primeira temporada. Apesar disso, a frase poderia ser melhor utilizada para promover a atual temporada da série, tendo em vista as mudanças que os escritores escolheram para os personagens.


Na primeira temporada, fomos apresentados a um Sherlock Holmes diferente do que estamos acostumados. Ele é extravagante e bem antissocial, sim, mas ao mesmo tempo podemos encontrar um aspecto humano e vulnerável que não costumava ser aproveitado. O vício do personagem costuma ser diminuído, ou esquecido, e aqui temos o contrário. Os escritores introduzem Watson na vida de Sherlock por meio do seu vício, que continua tendo várias implicações na dinâmica dos dois durante a série.


No final da segunda temporada, Sherlock, ao perceber que Watson realmente se mudaria, pega o pacote de heroína (e não cocaína, seu vício nos livros) escondido em seu livro e aceita um emprego no MI6. Confesso que ali achei que a série passaria por uma repaginada e veríamos um pouco de Sherlock em Londres e as complicações que o afastamento entre ele e Watson trariam para a vida dos dois. Infelizmente, a terceira temporada começou meses depois, com a volta de Sherlock, utilizando todo o plot de ele ir para Londres somente para introduzir Kitty, que até agora não está sendo bem aproveitada.


Demonstrar o crescimento da Watson enquanto Sherlock estava em Londres foi algo que conseguiram fazer bem nesses 8 primeiros episódios, tanto na vida profissional da personagem quanto na pessoal. Apesar disso, acho que a introdução da Kitty gerou uma diminuição no “tempo de tela” da Watson e menos interação dela com Sherlock, o que, para mim, foi um erro. A segunda temporada teve uma queda de qualidade considerável se comparada com a primeira, e uma das coisas que me deixava com vontade de continuar assistindo toda semana era ver o crescimento do relacionamento platônico de Watson e Sherlock. A separação, e a introdução de um novo personagem, retirou esse aspecto da série, e isso pode ser perigoso. A Watson vem ganhando mais espaço sozinha, tendo sua casa, seu relacionamento, seus casos... Aparentemente, ganharia até seu próprio nemesis, mas isso parece ter sido descartado no primeiro episódio da temporada. Simplesmente não acho que esse seja o melhor caminho de crescimento para ela na série. Uma coisa que gostei foi de eles terem acabado com o envolvimento da Watson com o Mycroft, que é completamente nada a ver (e era meio nojento).


Kitty, Kitty, Kitty... O que falar de você? Fomos rasamente apresentados a uma personagem fechada, e logo tivemos a explicação do porquê. Ao mesmo tempo, acho que esse plot e essa razão está sendo enterrada e será em breve esquecida. Ela tem crescido rapidamente como detetive e a birra (ou ciúmes) que tinha com a Watson quando chegou já está praticamente resolvida. A questão é que a personagem aparenta ter muito para crescer, mas não está sendo devidamente aproveitada. Seus diálogos têm sido fracos e previsíveis, tanto quanto suas ações, e a submissão que ela tem para com o Sherlock impede que ela faça o que a Watson fez e tome controle da sua vida. Além disso, tem o passado dela, que impede que ela se envolva com outras pessoas, que não está sendo bem aproveitado para o desenvolvimento da personagem. Parece que deixar todos os envolvidos na vida da personagem ficarem sabendo disso e utilizar isso como justificativa para ela ser completamente submissa ao Sherlock foi suficiente para os escritores. Já que introduziram a personagem na trama, espero que a desenvolvam como desenvolveram a Watson e o Sherlock na primeira temporada, que a aproveitem dignamente.


Comecei pela Watson e pela Kitty porque pareceria ser mais fácil escrever sobre elas do que sobre o Sherlock. Vimos muito crescimento do personagem com a Watson na primeira (e um pouco na segunda) temporada. O detetive incrível que parece chegar num ambiente e simplesmente saber tudo que aconteceu ali não tinha muito o que crescer profissionalmente, e o pouco que tinha ele cresceu quando estava atrás da Irene/Moriarty. Porém, temos visto um grande foco em quem é Sherlock Holmes como ser humano, e acredito que nesse ponto eles vem tendo bastante sucesso. Holmes é o personagem mais fechado da série e, ao mesmo tempo, o que eu provavelmente mais conheço. A evolução social que ele teve desde o começo da série, muito por influência da Watson, foi gradual e suave, mas nos mostrou muito sobre quem ele é. Ao acompanharmos sua aflição com a Irene desde o começo, passarmos pela sua angustia ao descobrir que ela é, na verdade, seu maior inimigo, chegarmos ao reconhecimento do quê a Watson representa na sua vida, passarmos pelo drama com Mycroft, vermos ele tomar a decisão de ir para o MI6 após a Watson se mudar, e passar pela sua potencial recaída nas drogas, podemos dizer que Sherlock é o personagem mais concreto e bem desenvolvido na série. Suas ações e falas são diretas e condizem com quem o personagem é, lembrando que ele é, além de tudo, um ser humano. A confissão que tivemos dele para a Watson sobre a Kitty ser, inicialmente, um meio de substituição do que ele tinha com a Watson antes de ela ir embora, ou o discurso que ele fez no final da segunda temporada, prometendo à Watson que mudaria por ela se ela não fosse embora, são fortes exemplos do seu lado humano, além da influência que a Watson tem na sua vida e na sua sobriedade.


Era para este texto ser um retrospecto desses primeiros episódios da terceira temporada, mas não consegui me conter e escrevi um pouco sobre a série toda. Acho sim que Elementary tem futuro e bastante coisa para acontecer ainda. Se querem dar um nemesis para a Watson, que deem, mas desenvolvam isso durante a temporada, ao invés de simplesmente jogar nos últimos 4 episódios. Aliás, acho que qualquer vilão central deveria ser desenvolvido dessa forma. Mesmo que eles não estejam perseguindo-os, que mostrem o desenvolvimento do personagem e o que vai acarretar no encontro deles no final da temporada. Conseguiram fazer isso muito bem com a Irene na primeira temporada, mas a segunda falhou em desenvolvimento e história.


Tenho medo que Elementary acabe se tornando uma série policial com casos semanais isolados, sem profundidade e história de fundo. Estava fazendo uma maratona de White Collar esses dias por causa da Series Finale e percebi que, sendo previsível e “fraca” (ou não), a série sempre manteve uma história de fundo interessante que tinha algum desenvolvimento todo episódio, por menor que fosse. Sinto falta disso em Elementary.


Saudades do desenvolvimento, do ritmo de história e de roteiros e diálogos profundos. Saudades, Moriarty.

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