Constantine 1x08 – The Saint of Last Resorts

Nenhum preço é alto demais para salvar os inocentes.


Pela última vez em 2014 nos reuniremos para discutir os acontecimentos de Constantine. E desta vez, a série não só provou – novamente – que não deve ser cancelada – por ser a adaptação mais genuína que os fãs podiam querer –, mas também nos mostrou que até mesmo ao adaptar certas tramas, não deixa nada a desejar. Então, vamos dar uma olhada nos eventos de Saint of the Last Resorts, o último episódio do ano de Constantine.


The Saint of Last Resorts é decididamente o episódio de Constantine com uma das melhores duplas roteiro-filmagem que a série teve até aqui. T.J. Scott – que já demonstrou seus talentos em Gotham, Hemlock Grove e Orphan Black, algumas das produções com a melhor qualidade visual dos últimos anos – trouxe um enorme diferencial quando acrescentou seus talentos ao roteiro de Carly Wray, tirando o melhor de cada cena.


Usando um recurso com o qual os fãs de Doctor Who já estão acostumados, a série trouxe um episódio não conclusivo, que ao mesmo tempo acumula a expectativa pelo futuro dos personagens e faz com que os espectadores voltem sua imaginação para um futuro maior da trama. Cheio de cliffhangers, e deixando nossos “heróis” – os leitores do material da Vertigo sabem a razão para as aspas – em situações que vão nos fazer teorizar freneticamente até o dia 09/01.


Não preciso dizer – porque quem já lê o material sobre Constantine regularmente já sabe – o quanto gosto quando a série se aprofunda em eventos da HQ para, mesmo que de forma adaptada, criar uma boa trama. São 30 anos de mitologia, então há qualidade de sobra disponível para construção de boas histórias. E é exatamente isso que temos aqui.


Em The Saint of Last Resorts, mais uma vez alguém do passado de John aparece. E, assim como Gary Lester, é alguém relacionado aos eventos de Newcastle. Ninguém menos que Clair Van Der Boom junta-se a trama para trazer Anne Marie, um antigo caso de John. Mais uma vez nos vemos com uma trama que nos permite analisar a motivação e a moralidade de John Constantine, uma chance de ver até onde ele está disposto a ir e o que ele pode realmente fazer contra a Rising Darkness e tudo o que envolver real perigo aos inocentes. Também é uma oportunidade de novamente confrontar aquilo que é feito com as consequências do caminho trilhado por John e seus associados.


Inegavelmente, este foi um episódio denso, cheio de imagens impactantes, filmagens rápidas e certeiras, além de um tom de obscuridade que é comum no material da Vertigo. A árvore de frutos humanos foi algo que com toda certeza foi bem idealizado e muito bem executado, visualmente falando. O convento em si já é um personagem, algo parecido já foi feito por outras séries, da mesma forma que o hospício em American Horror Story: Asylum ou a própria Gotham City em Gotham. O convento não só serviu como um catalisador para a atmosfera sombria, como amplificou e muito o sentimento de “algo maior”, como se os sequestros das crianças – como o próprio episódio mostrou – fosse parte de algo maior, alguma coisa mais maligna.


Outra jogada de mestre do roteiro foi fazer com que John finalmente descobrisse a origem da Rising Darkness, assim conectando a trama central a todos os acontecimentos anteriores e amarrando o futuro da série de maneira organizada e sem necessidade de um maior plot-twist.


E antes que um fã mais radical – como eu – da HQ venha dizer que não mencionei a Brujeria e o Invunche, é para estes detalhes que vinha conduzindo o texto. A adaptação – como prometido pela produção – agora se aproxima muito do arco Gótico Americano, que trouxe John Constantine ao Universo DC Comics, na época em que Alan Moore – all hail Alan Moore... HAIL! – conduzia o tom do Swamp Thing, de onde também tiramos o Invunche.


Também não me esqueci que a história desta semana foi dividida em dois grandes plots. De um lado, todas os acontecimentos envolvendo John e, do outro, as confusões em que Mary/Zed está envolvida. Os old-school readers – como nos denominei no texto anterior – de Hellblazer sabem muito bem o que acontece com Zed, agora que ela está nas mãos da Resurrection Crusade/Salvation Army. Achei interessante que a moça deixará de ser o elemento de ligação entre o telespectador e a mitologia da série, passando a ter o seu papel mais ativo. Espero apenas que a consagração dela não seja recriada, ou logo – claro, se a série sobreviver – será aberta a temporada de caça por uma nova personagem feminina, talvez Zatana...


Embora a NBC tenha feito a enorme burrice de definir que a a temporada da série se finalizará em seu 13º episódio, vemos que, para TV aberta, John retomou o seu lado mais “pesado”, ficando mais perto do original. Não só o cigarro – finalmente! –, mas o blefe de partir o pescoço ou afogar um bebê foi razoavelmente forte.


Algo que eu não poderia terminar o texto sem dizer é que a transfusão de sangue – somado a todos os outros eventos associados ao arco Resurrection Crusade – me lembra o quanto Nergal e uma ação similar a essa são responsáveis por causar todo o desfecho catastrófico do arco. E embora não tenha sido por saltar de um trem em movimento, John foi deixado para trás ferido e Mary também foi capturada. Mas teremos que esperar até janeiro para saber o que vai acontecer.


Num roteiro corajoso e que uniu pelo menos três grandes histórias do universo de Hellblazer, numa atmosfera tão apropriada quanto, a série provou repetidamente que não deve ser cancelada e que tem mais do que potencial para satisfazer até aos fãs mais radicais – a prova disso é que estou aqui, defendendo a série – por sua fidelidade à mitologia. Então, por duas razões, terminarei esta review com o clássico #SaveConstantine.


Ah, e como só voltaremos a conversar em 2015, boas festas e feliz ano novo. E divirtam-se com moderação. Não ia querer que ninguém precisasse fazer um pacto com Nergal para continuar a ler no ano que está por vir. Até lá.

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