Black Mirror – White Christmas

Meu desejo é de que todo dia fosse dia de Black Mirror...


Depois de 10 meses sem conteúdo inédito, Black Mirror retorna com um especial de natal excelente! Conhecemos a história de três personagens: Jon Hamm (Mathew Trent), Rafe Spall (Joe Potter) e Oona Chaplin (Greta).


Quem assiste Black Mirror sabe que a vibe da série é mostrar os relacionamentos humanos com a presença de tecnologias. E este episódio não foi diferente, mas vimos mais terror do que nos episódios anteriores, ao menos para mim. Claro que nos episódios anteriores tivemos eventos que podem assustar ou fazer chocar, mas nesse especial, talvez por causa do Natal, o efeito foi maior.


A trama começou com dois personagens numa casa aparentemente distante de movimentos e cercada por uma nevasca. Logo o espectador pode se perguntar por que eles estavam ali, como foram parar ali, onde eles realmente estavam... E todas essas perguntas foram respondidas de forma brilhante nos minutos finais do episódio.


Tentarei não narrar muito os acontecimentos, até porque foram 73 minutos de excelência. Vou comentar então sobre as tecnologias apresentadas e suas características. Foram duas, de uma mesma empresa, a Zed-Link. O Eye-Link foi a primeira que conhecemos. Ele é como o Google Glass, só que seu dispositivo eletrônico se localiza no interior (ou superfície) dos olhos e possui ramificações para o cérebro. Com o Eye-Link é possível transmitir áudio e vídeo em tempo real. No episódio, ela foi usada por Hamm, um tipo de voyeur meio guru de relacionamentos. Foi como Hitch O Conselheiro Amoroso, só que com final macabro.


O que me impressionou nessa tecnologia da Zed-Link foi a possibilidade de bloquear alguém. A pessoa bloqueada não pode ser ouvida propriamente, e é vista apenas como um borrão pela pessoa que a bloqueou. Essa tecnologia seria ótima para ignorar os haters e os bullies. Além disso, como descobrimos no final do episódio, ela pode ser usada como punição. Na realidade a que fomos apresentados, todas as pessoas possuíam essa tecnologia, e os que desobedecessem a lei num grau leve poderiam ser punidos com o bloqueio global. Imagine não ouvir ou ver ninguém, nem mesmo músicas ou filmes e séries? Mas, no caso de Hamm, a punição dada a ele por ter sido negligente com o assassinato não me pareceu tão pesada quanto a vista em White Bear (S02E02).


Mas o block pode ser ainda mais doloroso, como vimos com o personagem de Spall. A mulher de Spall estava pulando a cerca, e acabou por engravidar. Quando Spall descobriu, eles acabaram discutindo feio, pois Beth, sua esposa, não queria ter um filho, e estava pensando em aborto. O resultado dessa discussão foi Spall sendo bloqueado por Beth. Spall não sossegou, e foi atrás de Beth após um tempo. Ela manteve o bebê. Spall, desesperado, encontrou Beth para conversar, mas ela não quis saber dele. Ela então conseguiu uma medida cautelar, segundo a qual Spall não poderia chegar a menos de 10 metros dela. Spall, então, criou o triste hábito de ver Beth todo dia de Natal, pois ela ia para a casa do pai. Assim, ele acompanhou o crescimento da criança, mas, como o Zed-Link também cobre o bloqueio de filhos, Spall não pôde sequer ver o rosto da filha. O quão doloroso é isso?


O especial apresentou também o Cookie, dispositivo implantado no cérebro de alguém (por opção, claro) que absorve diversas informações sobre seu usuário. Após isso, ele é retirado e colocado num recipiente com formato de ovo. Assim, um Cookie pode ser considerado um clone do seu ex-usuário, pois ele tem todas as informações e comportamentos dele. Só que se trata de um clone digital, um amontoado de linhas de código, e sua missão é fazer o que o cliente desejar. No caso que acompanhamos, com Chaplin, a missão do Cookie era ser uma secretária virtual.


O mais fascinante desse plot é o tratamento que eles (e digo eles por que não imagino que deva ser só o Hamm a essa altura do episódio) dão para essa clone digital. A clone, mesmo sendo intelectualmente semelhante a sua ex-usuária, não possui os mesmo direitos de vida. Considerada apenas como uma vida artificial, ela toma posição de escrava, que nunca terá suas vontades atendidas.


Nesse momento, fiquei horrorizado, talvez pelo fato da clone ter todas as característica humanas, exceto por ser artificial, ou digital, ou virtual. E a clone naturalmente não iria se submeter a ordens de um desconhecido. Ao saber disso, e provavelmente de outros casos, Hamm a torturou com solidão e tédio. A passagem de tempo é sofrível e, após mais de 6 meses de solidão e tédio, a clone acaba implorando por trabalho. A sequência que se segue, com a clone comandando a casa, foi algo lindo, e entristecedor ao mesmo tempo. Esse momento com Hamm e a clone foi importante para a resolução e para o twist do episódio.


Voltemos para Spall e seu triste hábito. Em certo momento, Beth sofreu um acidente e morreu. Com isso, o block "morreu" com ela, e Spall agora teve a possibilidade de ver o rosto da filha. No Natal, ele foi até a casa do pai de Beth. A primeira coisa que ele viu foi a criança brincando na neve. Ele foi em direção a ela, mas quando a criança virou para vê-lo... BOOM: ela tinha olhos puxados. Spall então deduziu que tudo o que Beth fez foi por vergonha em dizer que o bebê não era dele, e sim de um colega de trabalho. Atordoado, ele entrou na casa para questionar o pai de Beth. A conversa não foi muito bem e Spall acabou acertando o velho com o globo de neve que daria de presente a sua suposta filha.


Então, vimos Hamm agindo notavelmente como um investigador criminal, extraindo uma confissão de Spall. Minha cara foi no chão com tanta reviravolta. Spall confessou que, após ter matado o velho, saiu de casa, sem rumo. No dia seguinte, a menininha saiu para pedir ajuda e... morreu na neve. Ela não foi longe o suficiente. Hamm então comemorou a confissão de Spall e, de repente, sumiu!


Nos revelam então que Hamm estava num tipo de ambiente virtual, e que o Spall que acompanhamos era um clone do Spall do mundo real, que estava preso a alguns metros dali e não havia falado sequer uma palavra sobre quem era. Os policiais removeram o Cookie de Spall e usaram as habilidades sociais de Hamm para saber quem ele era. Como recompensa, Hamm não seria preso por negligência, mas seu block continuaria. A sequência com ele andando, enxergando apenas borrões e ouvindo ruídos sinistros, ao invés de músicas natalinas, foi de arrepiar a espinha.


Por fim, um último momento de horror. Um dos policiais, com consentimento e apoio de outro, resolveu torturar o clone de Spall com anos de solidão, loucura e uma música natalina em loop, para que ele não esquecesse o que fez. Algo realmente assustador, e até desumano (mesmo se tratando de tortura virtual).


O especial de Black Mirror foi isso. Um show congelante de horror. No final, já com a tela preta, vejo meu reflexo, como num espelho negro. Parabéns Charlie Brooker, você conseguiu impressionar e amedrontar novamente.


P.S.: Anyone Who Knows What Love Is também foi cantada em Fifteen Millions Merits (S01E02).

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