O Espetacular Homem Aranha 2 | Crítica

Acredito que depois de Os Vingadores, nenhum filme de super-heróis deixará os fãs de quadrinhos mais felizes e boquiabertos do que o segundo longa da nova trilogia do Cabeça de Teia. O Espetacular Homem Aranha 2 é um poço de referencias as HQs e uma das obras mais bem feitas para os amantes da nona arte. Para você que não viu nem esse nem o primeiro filme da trilogia porque ainda está órfão e revoltado com o fim da trilogia de Sam Raimi, pare... pare com isso agora e vá assistir os dois filmes porque você não faz ideia do que está perdendo.


O Espetacular Homem Aranha 2 não é tão bom quanto o Homem Aranha 2 de Raimi, mas é facilmente melhor que os outros dois filmes da trilogia antiga e está praticamente no mesmo nível que as melhores obras de super-heróis que já saíram até hoje.


Infelizmente, porém, o filme é imperfeito e uma de suas maiores qualidades é também seu elo mais fraco. Harry Osborn, perfeitamente interpretado por Dane DeHaan (nós sabíamos que esse rapaz ia longe, leia essa matéria AQUI!) é quem realmente conduz a história de um ponto ao outro, ele é também o personagem mais interessante do filme, mas o mais mal aparado. Em sua apresentação, enquanto conversa com seu pai, Norman Osborn, Harry tem milhões de diálogos expositivos mal feitos, incluindo um onde ele praticamente pega uma calculadora e conta com seu pai quantos anos ele tem e quando ele foi embora, tudo para explicar de forma absolutamente mastigada que... hey, não é que ele podia ser amigo do Peter na infância?


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O roteiro ao ponto em que dá a Dehaan algumas ótimas cenas para ele trabalhar, também deixa ele com o maior de todos os problemas do filme, uma história apressada e alguns furos de roteiro que apenas com muita boa vontade nós deixamos pra lá e relevamos pelo bem do entretenimento.


De fato, muita coisa tem de ser relevada nesse novo filme, ironicamente, ele tem a mesma fraqueza que o seu vilão, o Electro, cujo ponto fraco é o Overload. O filme não chega a explodir, mas fica bem no vermelho. Há simplesmente coisas demais acontecendo no longa, no entanto, nem de longe fica aquela bagunça que foi Homem Aranha 3, Marc Webb parece muito mais capaz de lidar com um filme cheio de trecos absurdos do que Sam Raimi, apesar de ter menos experiência.


O filme tem tanta coisa, que em certos momentos fica obvio que cenas foram eliminadas do corte final e ainda assim o filme beira a 2 horas e meia. Um exemplo, que pode ser um furo de roteiro ou não, dependendo do quanto de lacuna você quiser preencher com sua imaginação, é quando Harry encontra Gwen em um elevador, ele já ouviu falar dela, mas nunca a viu antes, mas isso não impede de ele imediatamente reconhece-la, chama-la pelo nome e se apresentar. Como ele sabia quem era Gwen? Bem, no trailer do filme, tem um momento em que Harry diz a Peter que a Oscorp está vigiando ele, quando Peter pergunta porque, Harry diz que essa não é a pergunta do dia, bem, essa é uma boa cena no trailer que nem sequer chega perto de acontecer no filme. De fato, pelo menos 1/4 do que está nos trailers não chegou ao corte final do filme, o que significa que o corte final foi um tanto apressado e feito em cima da hora, porque se não essas cenas não chegariam ao trailer.


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No trailer também, parece que Harry tem motivações maiores do que as do filme, “Nós podemos mudar o Mundo”, ele diz em um dos vídeos. Nada disso está no filme. No trailer há uma cena em que Harry, já caracterizado como Duende Verde plana sobre um determinado andar da Oscorp e encara Felícia dentro do prédio, isso não acontece no filme também, na verdade, Felícia Hardy, interpretada pela ótima Felicity Jones, não passa de uma figurante de luxo que aparece em duas cenas e não tem mais do que 5 falas. Diferente do que o trailer insinuava e diferente do que a relação dela com o Harry no meio do filme indicava. Do mais absoluto nada ela vira uma grande colaboradora dele, sem ter aparecido depois de apenas uma cena onde ela nem fala.


Enfim, eu quero muito ver um Blu-Ray desse filme com uma versão do diretor, com pelo menos 3 horas, ou quem sabe uma com 3 horas e meia incluindo a Mary Jane Watson de Shailene Woodley que também foi completamente cortada do filme? Nesse caso, menos mal, uma Mary Jane nesse filme só atrapalharia tudo, ainda mais sendo a feinha Woodley.


Agora vamos falar do vilão, embora o vilão principal do filme seja o Duende Verde/Harry Osborn, ele não é quem tem mais tempo em tela nem é o mais ameaçador, Electro é muito mais poderoso que o Duende Verde e acaba tendo duas batalhas com o Homem Aranha durante o filme e vale dizer que ambas são sensacionais. Mas enquanto Electro é um vilão muito visual e que gera incríveis cenas de ação, ele é muito mal pensado e um desperdício no filme, Max Dillon é um péssimo personagem, sem motivações claras e sem razão lógica para ser quem é, tudo bem que pode-se argumentar uma real insanidade que foi potencializada pelo acidente, mas ainda assim, é bem forçada e bem súbita essa mudança dele de venerador do Homem Aranha, para um inimigo mortal do Cabeça de Teia, só porque algo que estava além do controle do herói saiu errado.


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Mas como eu disse, ao menos ele é um vilão visual, todas as cenas de ação em que ele está envolvido traz um outro sentido a palavra Espetacular do título, alias, em si, o filme inteiro tem uma ação soberba, com algumas das sequencias de ação mais bem pensadas da história do cinema e carregada no Slow-Motion, no melhor estilo Zack Snyder, mas com um contexto muito relevante; o Sentido Aranha, que nunca é mencionado pelo nome, mas é muito bem demonstrado com as cenas em Slow-Motion do longa. Sério, se você estiver apenas procurando um filme de ação para se divertir com a sua família, vá sem erro, O Espetacular Homem Aranha 2 será uma das experiências mais incríveis que você já teve nos cinemas e quer saber, o 3D ajudará muito nisso e não é sempre que eu elogio um 3D, quase nunca na verdade.


O filme, além de lindo e cheio de ação, é extremamente engraçado, o Peter de Andrew Garfield parece mesmo o Peter das HQs, sempre debochado e tirando uma onda (do bem) com a cara de todo mundo. Há várias piadas subentendidas no texto, além das piadas mais óbvias, que talvez nem todo mundo pegue, mas que não deixam de ser sensacionais mesmo assim, repare no final, quando o Electro está “tocando uma musica” em uma versão remix incrível e o Peter fala “Cara, eu odeio essa música”, poucos devem ter percebido que a música é “A Dona Aranha”, é de rolar de rir. Cenas como a da “chaminé” também são sensacionais. Uma pena saber que Andrew Garfield só volta para mais um filme da franquia, começou agora e já durou pouco demais. O cara simplesmente arrasa como Peter.


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É claro que Andrew Garfield não teria o mesmo charme como o herói se não tivesse sua companheira Emma Stone (cada vez melhor) como sua companheira Gwen Stacy. A química entre os dois continua tão boa quanto no primeiro filme ou até melhor, o romance dos dois é realmente de amolecer o coração de tão natural e aparentemente sincero. Isso me faz pensar que Marc Webb deveria dirigir mais romances, até hoje ele é marcado por ter dirigido 500 Dias com Ela, e olha que ele dirigiu dois blockbuster do Homem Aranha e ainda assim 500 Dias com Ela é a referencia quando se fala no diretor, ele realmente leva jeito para criar romances e depois destroçar nossos corações com ele.


Por falar em destroçar nossos corações, isso me leva a grande questão e força motriz do filme (que vem cada vez mais sendo usadas em filmes Pop), a aceitação da morte. A Tia May tentando aceitar a morte do Tio Ben, Harry tentando aceitar a morte de seu pai e sua própria morte iminente e bem, isso o leva a loucura, é uma força motriz grande o suficiente para sua transformação, lutar de qualquer forma para sobreviver faz sentido, eu só gostaria que fosse mais bem explorado. O Espetacular Homem Aranha 2 não é um filme para contemplação, o que é uma pena, um pouco mais de contemplação de sua própria trama teria o tornado um grande clássico instantâneo.


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Ainda sobre a aceitação da morte, o final do filme tem algo que eu só posso explicar como um Anti-Anti-Climax, bem quando o filme deveria ter um tom mais dark em seu final, a vontade de linká-lo ao filme do Sexteto Sinistro, que eu ainda penso ser absolutamente desnecessário, o filme se transforma em um Feel Good Movie, com uma mensagem importante sobre deixar quem você ama ir, dita pela Tia May, não que não seja uma boa mensagem, mas essa mensagem funcionar para o Peter 1 minuto após do trágico desfecho do 3° ato, é um pouco forçado, tudo bem que se passam 5 meses, mas foram 5 meses comprimidos em uma cena, que nem é uma cena tão boa assim.


Terminar O Espetacular Homem Aranha 2 com uma mensagem positiva e com uma cena mais light e de ação é um desserviço ao final traumático do filme.


Sem contar que a última cena, com o Homem Aranha e o Rino é completamente errada do inicio ao fim, primeiro que o Rino é palerma de armadura, não me parece necessariamente o tipo de escolha de Harry Osborn para o seu Sexteto Sinistro, depois ela é visualmente mal pensada, com erros de continuidade e tudo mais, se você for parar para pensar, enquanto um Robô gigante em forma de rinoceronte destruía uma cidade e fuzilava policiais com uma metralhadora automática de alto calibre, tinha uma plateia de civis e crianças assistindo aquilo no cruzamento ao lado, sendo protegidos apenas por algumas grades que são usadas para fechar ruas e não para parar balas de calibre militar.  Nessa plateia havia uma mãe e uma criança, ambos extremamente perto do robô assassino e destruidor e provavelmente imparável (o Homem Aranha estava fora da jogada, teoricamente não tinha como parar o Rino). Mas depois da cena bonita onde a criancinha enfrenta o Rino e o Homem Aranha chega pra salvar o dia, o Rino e o Homem Aranha devem estar há apenas 10 metros de distancia um do outro. Contudo, como você viu nos trailers, o Rino depois de muito papo avança sobre ele correndo e disparando 3 mísseis e o Homem Aranha dá alguns longos saltos rodando a tampa de um bueiro para repelir os projeteis explosivos (para todos os lados, e tinha uma plateia de pessoas ali). Com a corrida do Rino e com os saltos do aranha, eles deveriam estar pelo menos a uns 50 metros para aquela cena funcionar. Tanto, que essa cena foi provavelmente modificada posteriormente, se você for ver nos primeiros trailers do filme, a forma como o Homem Aranha pula e defende o míssil é completamente diferente.  Enfim, o filme estava tão bom, o terceiro ato é de tirar o folego e destruir o coração, porque terminar em baixa com uma cena até bacana, mas mal feita e que acaba com o peso dos acontecimentos anteriores? O Sexteto Sinistro já estava introduzido, então a cena com o Rino foi completamente desnecessária.


Para não dizer que eu terminei a crítica falando mal do filme, a Trilha Sonora do longa é brilhante, mesclando músicas Pop com o instrumental bem feito de Hans Zimmer e um bocado de versões remixadas pesadas que combinam totalmente com as cenas do Electro. Essa é uma trilha que eu realmente quero ter quando for lançada.


Antes de terminar, vou mencionar rapidamente dois pontos bobos, mas que valem a menção, o primeiro é a participação de Stan Lee que é a mais fraca de todos os filmes, dessa vez eles tentaram fazer uma brincadeira de metalinguagem onde ele é algo como o criador do herói e tudo mais, mas isso não faz sentido nenhum dentro do filme, é mal explicado e ninguém, que não seja um fã de quadrinhos, vai relevar a estranheza da cena. Quebrar a quarta parede não é uma boa para esse tipo de filme.


O filme não tem cena pós-créditos, apesar de que talvez seja apenas na copia para imprensa que não tinha, enfim, não se sabe, mas é certo que o filme já se prolonga mais do que deveria depois da batalha final, então nem precisa de nada pós-credito, já tem coisa demais durante o longa em tempo normal.


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