Robocop | Crítica

Para estabelecer uma base para essa crítica vale dizer que eu não sou fã do Robocop de 1987, muito menos de suas continuações, e eu sou muito fã de Tropa de Elite, especialmente de sua continuação e nem por isso esse filme de José Padilha vai levar vantagens, acho que justamente por isso ele não vai levar vantagem alguma nesse texto.


Sem medir qualquer comparação com o Robocop de Verhoeven, alias, essa é a última vez que eu vou mencionar o filme anterior aqui, o novo Robocop de Padilha é um filme aguado e que tem um potencial enorme, mas que nunca chega a lugar algum e infelizmente o problema disso é exatamente de Padilha.


Esse Robocop tem um discurso político muito interessante, alias, mais que um discurso, ele é um debate visto que Padilha jamais aponta a direção certa e isso confunde um pouco algumas pessoas, especialmente críticos brasileiros que são em sua maioria nativamente esquerdistas, eu ao menos não sou e acho que talvez por isso achei o filme um pouco menos confuso ideologicamente. No primeiro Tropa de Elite, esses mesmos críticos falaram que o filme era fascista e que apoiava a violência ao não condená-la no próprio longa, o segundo Tropa de Elite “conserta” um pouco isso. Mas em Robocop os vilões querem justamente acabar com a violência excessiva e consertar a corrupção, é claro, ganhando dinheiro com isso, mas eles têm um objetivo válido. Se formos pensar pelo lado brasileiro das coisas, algumas proeminentes celebridades de internet nacional condenam qualquer ato da Polícia Militar, até mesmo atos fakes e que não necessariamente estão errado, se sair uma manchete dizendo que um Policial espirrou em um cidadão uma dessas pessoas vai levantar a bola que o espirro é um erro que vem justamente com a figura da policia militar, que está intrínseco a policia e que devemos acabar com ela por isso, pode parecer que eu estou exagerando, e estou, mas só um pouco e só não provo isso porque não quero citar nomes. Bem, eu não vou aqui defender um lado político em uma crítica de filme, mesmo adiantando que acho esse tipo de crítica fácil que fazem a polícia uma coisa infantil, mas se o problema é a parte truculenta e corrupta da polícia, então essencialmente é a parte humana da polícia, vendo assim, como crítica o plano do vilão de Robocop? Ele quer justamente consertar esse problema e a solução é bem razoável.


Gary Oldman (left) and Michael Keaton in MGM/Columbia Pictures' ROBOCOP.


Nesse ponto Padilha se faz muito correto ao não deixar seu vilão unidimensional, vilão esse muito bem interpretado por Michael Keaton, e nem demonizar a tecnologia (embora um personagem no inicio do filme se refira a um robô como demônio) a ponto de entendermos sua visão como a errada, alias, chega a um ponto do filme pelo qual eu estou torcendo juntamente por Keaton, já que Robocop representa muito do que há de errado com a polícia, visto a forma como no meio do filme ele começa a matar pessoas deliberadamente por razões pessoais, ele fazer isso equivale a outro problema nosso hoje, que são os casos onde amarraram bandidos em postes depois de tortura-los por aí.


Esse é um grande ponto a favor de Robocop e não cabe reclamar de sua ideologia estar mal definida, como alguns críticos, especialmente nacionais fizeram, porque a realidade não segue UMA ideologia e se a sua ideologia é torta o suficiente para não compreender a própria contradição entre condenar a polícia militar e ao mesmo tempo condenar o uso de drones automatizados (no estilo do filme, pelo menos) a culpa não é de Padilha, ele fez o filme que cabe ao nosso momento político e nesse quesito ele o fez muito bem.


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Contudo, Robocop era o filme errado para ele fazer isso, ou ao menos o filme errado nesse momento da indústria. Enquanto filmes de Ficção Científica como Elysium e Distrito 9, até mesmo em A Origem de Nolan, só para dar um exemplo, são marcas novas e não se espera exatamente uma determinada coisa de seu diretor, em Robocop, se espera, ação, ação e mais ação e Padilha não sabe simplesmente mudar a chave de sua história e colocar uma cena de ação nela, especialmente quando não caberia e sinceramente, alguns outros diretores conseguiriam fazer isso melhor.


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O filme de Padilha tem muito pouca ação e as cenas que tem são até boas, mas elas não são nada orgânicas, elas estão lá de forma brusca e boba, parte da culpa disso é também do roteiro, mas especialmente de Padilha que parece ter feito isso de má vontade, como se ele dissesse ao estúdio milionário que bancou o filme “Olha, 70% do filme é meu e esses 30% são seus, vou fazer sua parte de qualquer jeito só porque vocês querem” e isso certamente não é uma atitude louvável de alguém que provavelmente desembolsou alguns milhões de dólares e abriu infinitamente os horizontes de sua carreira por causa justamente desse estúdio que queria suas cenas de ação, diversos diretores de qualidade sabem fazer um filme de ação e o próprio Tropa de Elite tem sua ação muito bem feita, tudo bem que lá tem mais contexto, não dá para dizer que faltou a Padilha experiência, mas sim vontade.


A falta de ação não é o problema, nem a qualidade da ação, o problema é a forma como a ação não se encaixa no filme, o problema é a figura do Robocop que é bem boba no meio de uma discussão tão interessante, a história e o roteiro não sabem criar e solidificar Murphy como herói, chega um ponto em que Murphy se transforma em alguém chato e outro em que ele faz tudo errado e no final, ele mal tem justificativa para fazer o que ele faz, a figura do Robocop/Alex Murphy é muito pequena para todo o filme, o que acaba por diluir toda a experiência, Padilha faz tanto descaso da figura do Robocop que ele nem se dá o trabalho de justificar suas atitudes no terceiro ato e a frase clássica do herói robô, “Vivo ou morto, você vem comigo” é jogada no final do longa de forma simplesmente estúpida e desnecessária e até sem sentido, visto que vale constar que a arma do Robocop tem o botão “Atordoar” de enfeite, enquanto uma maquina real teria apenas atordoado alguns inimigos, ele mata deliberadamente, incluindo a pessoa para quem ele diz a frase clássica acima, qual a chance de a pessoa ir com você viva se você esta tentando atirar na cabeça dela?


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E qual a chance do público gostar de um filme que é extremamente inteligente por um lado e que por outro se trata como se fosse uma coisa idiota e tola? Acho que o fracasso financeiro do filme acaba se justificando. Se José Padilha tivesse esse tema em mãos e tivesse mais liberdade do estúdio e não precisasse transformar esse filme em um filme de Robocop, teríamos um dos grandes filmes dos últimos anos, infelizmente, tivemos apenas um filme aguado com um gostinho bom no final.



 


 
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