The Last of Us | Crítica

Praticamente todos clamam que The Last of Us é o melhor exclusivo de Playstation 3, alguns clamam The Last of Us como o melhor jogo da geração atual, outros poucos ainda clamam como o melhor jogo de TODOS OS TEMPOS, eu que deveria aqui, de acordo com a forma que esse paragrafo vem sendo estruturado, discordar dessas afirmações, mas não é isso que farei, eu na verdade vou dizer apenas que eu QUASE concordo totalmente com elas.


The Last of Us pode muito bem sim ser o melhor jogo de todos os tempos, se você achar que foi, simplesmente vai basear muito no gosto esse caso, particularmente eu amei, mas não acho o melhor de todos os tempos ou mesmo da geração, embora consiga entender bem alguém que ache. The Last of Us, falando em fatos, é o melhor jogo de todos os tempos em algumas de suas características, como realismo, movimentação, narrativa, caracterização dos personagens e muitas outas coisas. A única coisa que se torna o defeito de The Last of Us, só é possivelmente um defeito devido a sua qualidade extrema em outros aspectos, um detalhezinho menos cuidado que é ainda melhor que 99% dos jogos atuais soa algo terrível em um mar de excelência que é o conjunto da obra criada pela Naughty Dog.


Como o jogo é extremamente complexo, decidi estruturar essa crítica por aspectos diversos do jogo e vou nesse caso, começar pelos personagens.


[heading size="10" align="left"]Joel e Ellie[/heading]


Joel, que talvez possa ser considerado o protagonista do jogo por alguns, embora eu considere muito mais Ellie, é um homem que viveu a maior parte de sua vida no mundo comum, teve uma filha chamada Sarah, vivia próximo ao seu irmão Tommy e parecia ser consideravelmente feliz, tão feliz quanto qualquer ser humano comum pode ser, até que o outbreak dos zumbis de Cordyceps acontece, sua filha é assassinada e sua vida muda completamente.


Na esmagadora maior parte do tempo, nós controlamos Joel. Ele é alguém que foi mudado pela vida atual, antes era um homem pacato, ao que tudo indicava, e agora é um homem que faz serviços sujos para sobreviver, como contrabando de armas e de outras coisas mais. É alguém que entende que no mundo em que vive é necessário matar para não morrer, na verdade, todos entendem o jogo de vida e morte nesse novo mundo, cada pessoa parece saber que qualquer escolha sua pode significar sua morte e Joel ainda mais.


Ellie é uma pequena garota de 14 anos endurecida pela sua realidade, mas completamente inocente sobre o mundo, sempre cheia de questionamentos a personagem está longe do arquétipo de garota indefesa de sua idade, ela xinga palavrões, fala sobre sexo e aprende a usar uma arma muito cedo, embora tenha ficado abalada ao usar a arma pela primeira vez, pega o gosto pela morte bem rápido.


Creio que é bem mais fácil admitir Ellie como a protagonista do jogo, tanto na trama quanto na forma como a história é conduzida, sem as observações de Ellie a cada segundo, The Last of Us não seria o mesmo jogo. Como por exemplo, quando ela vê um pôster de uma modelo e pergunta se não havia comida o suficiente na época de Joel e ele diz que havia, mas as pessoas escolhiam não comer em prol da beleza, que é respondido com algo do nível “que idiotas!” por Ellie, que realmente, mas do que ninguém sabe o valor da comida naquele mundo.


Ellie principalmente sabe o valor que ela mesmo tem, a trama inteira gira ao redor dela, quando no trailer escutávamos “é tudo sobre aquela garotinha” não dava pra fazer ideia do quanto realmente é sobre essa garotinha. E ela, sabendo disso está disposta mesmo a morrer para cumprir seu objetivo.


Ellie está para The Last of Us o mesmo que Elizabeth está para Bioshock Infinite, alias, eu posso dizer que as duas são as melhores companions já criadas nos games, mesmos os companions mais inspirados de Fallout (qualquer Fallout) não chegam aos pés das duas.


TLOUS


[heading size="10" align="left"]Os últimos[/heading]


Mas não é só de Joel e Ellie que o mundo é populado, a trama de The Last of Us é narrativamente complexa o suficiente para fazer com que outros personagens sejam memoráveis. Apesar do poético título dizer Os Últimos de Nós, há “muitos últimos” nessa trama, os que mais chamam atenção são Tess, Bill, Sam, Henry, Tommy e quase no final, David.


Cada um dos personagens tem características muito fortes, Henry e Sam, por exemplo, tem uma das cenas mais tensas do jogo, enquanto Bill divide momentos hilários com Ellie, já que ambos discutem infinitamente como duas crianças, bem, um dos dois é uma criança. David é um vilão complexo e cheio de nuances.


Além dos personagens há os grupos que povoam o mundo destruído de The Last of Us, os mais proeminentes são os Vagalumes, os Caçadores e o resquício do que sobrou do Governo Federal. Soldados do governo mantêm zonas de quarentenas praticamente civilizadas, como aquela em que Joel e Tess moravam em Boston. Os Vagalumes são um grupo militar independente, uma milícia por assim dizer, mas parecem ser os únicos que estão empenhados a consertar o mundo, embora tenha sua cota de problemas, nem de longe são os mocinhos da trama apesar da geral boa intenção. Os Caçadores são como se denomina os grupos humanos de humanos que se organizam em prol de sobreviver através das mortes de outros. Eles roubam e matam pessoas que se aproximam de suas cidades e fortalezas, mas ao mesmo tempo que eles parecem mais vilanescos, também são cheios de nuances, especialmente quando Joel está escondido e escuta uma conversa deles, eles se revelam admiradores de Bacon, pessoas com medo e outras coisas que fazem deles tão humanos quanto o próprio Joel.


Além disso, há os infectados, divididos em três denominações, os Corredores, teoricamente mais fáceis de lidar apesar de serem furiosos e rápidos, os Estaladores, seu maior problema durante o jogo, difíceis de lidar e extremamente mortais, com a única vantagem que são cegos e se guiam apenas pelo som que você pode evitar e os Vermes, espécies de Boss dentre os infectados, são infectados que estão com uma versão tão avançada do Cordyceps que o fungo formou uma placa em seu corpo que acaba servindo como uma armadura. São os mais poderosos dos infectados e os inimigos mais difíceis do jogos, mas por sorte, quase não aparecem para te matar.


Esses são os personagens que se encontram no mundo surpreendentemente cheio de The Last of Us, cada um deles parece meticulosamente pensado para estar naquele ambiente de forma coerente, apenas pensar em como um personagem secundário qualquer é tão aprofundado nos faz pensar o quanto esses roteiristas de The Last of Us merecem ganhar bem, tem gente em Hollywood que não consegue fazer metade disso com um filme que é uma obra quase 100% narrativa.


the_last_of_us_Infected_853


[heading size="10" align="left"]Mesma história, nova narrativa[/heading]


Uma vez durante uma dessas epifanias de um Brainstorm qualquer veio a resposta para uma pergunta que atormenta a humanidade há séculos... Porque filmes baseados em jogos dificilmente são bons? Bem, a resposta é simples, hoje em dia, o que faz um jogo ser bom em 90% dos casos (não em todos os casos, veja bem) é o fato dele ser cinematográfico. O que teoricamente, é o que temos em todos os filmes, nesse caso, no máximo um jogo baseado em games consegue ser bom, como o primeiro Silent Hill, por exemplo.


The Last of Us poderia ser um bom filme, mas dificilmente um ótimo filme. Pensem, o que faz o jogo incrível é em sua maior parte a jogabilidade, bem, não jogamos um filme, a segunda coisa que faz The Last of Us incrível é sua história, mas bem, nos cinemas nós já vimos essa história centenas de vezes, não haveria nada novo ali.


Alias, mesmo nos games nós já vimos contos como o de The Last of Us, uma história pós-apocalíptica de zumbi (não argumente que não é zumbi, por favor, é só um tipo diferente da mesma coisa) mesclada com uma história básica de arquétipo de messias com tons de reencontro e redescobrimento de si mesmo, com o mais obvio, relação de personalidades divergentes e relação entre pai e filha. Tem até no final do segundo ato do jogo uma típica virada clássica de comédias românticas e novelas da Globo acontecendo. Há diversas sutilezas em The Last of Us, que nunca foram vistas nos games, pelo menos não com essa força, mas o que haveria de novo ali para o cinema?


A forma como a narrativa em capítulos progride também é interessante aos games, com 4 grandes capítulos, Verão, Outono, Inverno e Primavera.


Talvez seguidores da escola George R.R. Martin de roteiros, os escritores de The Last of Us souberam como ninguém finalizar cada capítulo do jogo. Após o final do verão, tudo o que consegui dizer foi replicar a própria Ellie com um “Nossa, isso foi intenso”. No final do Outono o jogo quase consegue nos trazer ás lágrimas, para no final do Inverno, alias, durante o Inverno inteiro, deixar nossos corações com principio de taquicardia. Confesso que o final é um pouquinho anticlimático, especialmente comparando com os finais dos outros capítulos, mas a ideia de deixar uma ponta aberta para quem sabe um dia retomar o jogo dali é compreensível.


the_last_of_us_3-wallpaper-1280x960


[heading size="10" align="left"]Imersão[/heading]


Agora a narrativa é apenas uma das camadas que causam a quase imperturbável imersão do jogo. Quando você liga o PS3 com The Last of Us, você é praticamente transportado para o mundo em 2033, para um Estados Unidos destruído onde tudo o que você precisa fazer é levar Ellie em segurança (ou não, isso é quase opcional) ao seu destino.


A ideia de viver em um mundo que está em ruinas após um outbreak de uma espécie de vírus zumbi que aconteceu há vinte anos é interessante. Os humanos se adaptaram a nova e limitada vida, mas há uma áurea de perigo fora e até mesmo dentro dos muros protegidos pelos exércitos ou pelos Vagalumes.


O visual do jogo também é lindo e bem planejado. A Naughty Dog o fez para funcionar bem sem um mapa, ainda que uma hora ou outra seja necessário esperar um ajudinha que o game te dá quando está perdido, em geral você consegue se virar bem com as dicas visuais discretas, como um pequeno raio de sol em uma direção, ou um caminho um pouco mais limpo que outro que não levará a nada. Mas mesmo se o visual não fosse tão intuitivo e ao mesmo tempo discreto em sua beleza pós-apocalíptica, não seria um problema, pois é difícil jogar o game sem tentar olhar cada centímetro dele. São necessárias em torno de 12 horas para terminar a campanha, mas eu demorei pelo menos 18 horas, pois eu sem dúvida vasculhei cada canto escuro e potencialmente perigoso que o jogo me oferecia.


Mas não só o visual ajuda na magia da imersão, a trilha sonora é uma obra prime à parte, composta pelo vencedor de 2 Oscars Gustavo Santaolalla, a trilha, que não por acaso eu escuto agora enquanto escrevo é um exemplo claro de como mostrar desolação, melancolia e ainda assim uma gota de ternura apenas com cordas.


E já que eu falei em som, a trilha sonora também é ajudada pelo incrível trabalho sonoro da Naughty Dogs que captou como ninguém o som de um tiro, do vento do inverno, e etc... O elenco de vozes original também é memorável, um trabalho de conjunto excepcional.


Aproveitando, vou aqui mencionar a problemática dublagem nacional. De fato, é uma das melhores dublagens dos games, mas há erros ridículos nela, como quando (tentando evitar Spoilers) Joel está com um menino e não com Ellie, ele continua chamando o rapaz de menina ou garota o tempo todo. Sem contar que a dubladora que interpreta Ellie, a chave do jogo por sinal, deve ter compreendido mal a proposta do game, pois ela interpreta a menina como se ela fosse uma doente mental e não uma adolescente comum de 14 anos que é um pouco endurecida pela vida. A dublagem é do nível de qualquer dublagem nacional para cinema, ou seja, uma ótima dublagem, mas que não vale a pena perder o original por ela.


The-Last-of-Us_2013_02-04-13_025


[heading size="10" align="left"]Gameplay[/heading]


Nesse quesito há 1 milhão de qualidades, mas dois daqueles “defeitos” que eu mencionei nos primeiros parágrafos. Há tanto o que falar em Gameplay e eu já falei tanto, que vou tentar resumir um bocado as qualidades excepcionais do game.


A movimentação do jogo é incrivelmente realista, não parece tão realista quanto Watch Dogs que será lançado no fim do ano, mas é a melhor movimentação vista nos games até o momento. O modo de batalha é excepcional. A forma como você tem que variar de arma e itens usados, como o jogo te cobra inteligência para abordar diferentes situações de formas diferentes e os fatos de dois tipos claros de inimigos distintos (humanos e infectados), fazem você ter mais estratégias distintas. Outro detalhe é o realismo do menu, que acontece basicamente em tempo real, para, por exemplo, pegar uma arma extra, você precisa abaixar, tirar a mochila das costas e pegá-la, claramente essa não é uma opção quando você está cercado de infectados ou mesmo de humanos armados.


Por falar em estar cercado, a dificuldade do game é ótima, mesmo no normal você sente que você não pode simplesmente jogar sem pensar antes no que está fazendo, os inimigos, afinal, não são simples, cada um dos tipos de inimigos no jogo são complexos e exigem saídas complexas para serem eliminados, pelo menos mais complexas do que mirar e atirar.


Assim como o modo de batalha, a narrativa do jogo é linear, mas você tem toda a liberdade de escolher a forma como vai lidar com quase toda situação, talvez excetuando os puzzles, quase tolos e desnecessários do jogo, mas por sorte, raros, tudo é bem livre.


Como eu falei, se o jogo tem “problemas” visíveis, eles só são visíveis, porque todo o resto é excepcional. As duas maiores reclamações do game são sobre a limitação do que fazer em termos de armas e esse tipo de coisa. Tudo bem, eu concordo que é meio difícil achar que em toda casa que Joel e Ellie entrem eles só encontrem durex, tesoura, sal, pano, álcool e explosivos, e mesmo assim, difícil imaginar as pessoas em um jogo dito tão realista, fazendo apenas alguns poucos itens diferentes com esses materiais, mas pera lá, isso ainda é um jogo, há limitações de mecânica e tudo mais, por mais que não pareça, mesmo The Last of Us tem sua limitação.


O outro problema que muitos citam é sobre a IA (Inteligência Artificial) dos personagens não controláveis (Ellie principalmente) e dos inimigos que não a vêm. Bem, isso é fato, a IA de Bioshock Infinite e sua Elizabeth eram bem melhores que a de Ellie, por exemplo. A menina não se esconde na hora certa, teima em ficar de pé na frente dos inimigos enquanto estamos agachados escondidos e não tem um timing muito bom, o que significa que ela tem a mesma IA de praticamente todos os jogos feito até hoje, até um pouco melhor se formos ser práticos, pois ela interage com o ambiente, coisa que antes de Elizabeth, dificilmente era feito. O problema é que os inimigos parecem ignorar Ellie, mesmo se ela estiver de frente pra eles plantando bananeira. Mas isso pelo que foi reportado, foi algo deliberado que a Naughty Dogs colocou no game, o estúdio imaginou que Ellie estragando seu stealth a cada 30 segundos estragaria sua experiência de jogo e logo faria você odiar a pequena, o que claramente não era a intenção deles. Por outro lado, os inimigos cegos para Ellie, tem medo de você se você tiver com uma arma, ou se você matar um companheiro deles com excesso de violência, queimado, por exemplo. O que é mais que muita IA por aí no mercado faz.


xcgxc


[heading size="10" align="left"]Multiplayer[/heading]


Chegando ao final da crítica, vale dizer que o Multiplayer, que normalmente pode ser ignorado em um jogo desses, é sim, ainda dispensável, mas ao mesmo tempo completamente viciante. O Multiplayer de The Last of Us vai totalmente de acordo com sua campanha Singleplay e com o propósito dela e consegue ainda te fazer perder muitas horas nele.


No game online, você escolhe entre uma facção Vagalumes ou Caçadores, depois de escolhido você se torna um líder de uma resistência que tem que sair em missões para buscar suprimentos com mais 3 pessoas. As missões são sempre encontros com a facção rival. São sempre 4 personagens, e cada um dos 4 jogadores de qualquer canto do mundo é sempre o líder de um grupo de sobreviventes e aqueles que estão jogando ao lado dele são meramente seus companheiros sobreviventes, o que significa que a brincadeira interna independe de qualquer um. Com a coleta de suprimentos você gerencia o seu grupo de pessoas, alimentando-as e não as deixando adoecer e ainda melhora seu personagem e suas armas. Você coleta mais suprimentos matando os 4 soldados inimigos, que são controlados por outros jogadores também.


O Multiplayer de The Last of Us é sem dúvidas um adendo interessante, divertido e mesmo viciante, mas só risca a superfície do que é a profundidade do jogo em si.


multiplayer


 

 
Patreon de O Vértice