The Killing - 1ª à 3ª temporada | Crítica

Eu tenho meus problemas para com séries de episódios auto contidos e séries policiais repetitivas, por isso eu demorei tanto para assistir The Killing, imaginando que de alguma forma o conto da detetive Sarah Linden e do detetive Stephen Holder seria algo do tipo, para minha felicidade não só The Killing é diferente dos arquétipos de séries policiais, mas é uma das melhores séries da atualidade, se é que podemos considerar assim, “da atualidade”, uma série que foi cancelada oficialmente um dia antes dessa crítica ser publicada.


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Veena Sud, a produtora e escritora de The Killing pode ser hoje considerada uma das melhores roteiristas da televisão. Embora a sua série tenha altos e baixos, especialmente o season finale da primeira temporada e vários pontos da segunda, a sua capacidade de manter o foco da série, manter a linha de raciocínio e manter a coerência mesmo com tantas “coincidências” acontecendo durante os episódios é impressionante. Mal posso começar a imaginar a complexidade e o tamanho do mapa de roteiro criado por ela para linkar um fato a outro e especialmente para linkar as duas primeiras temporadas que funcionam como uma história única, com a terceira, sem perder a coerência.


Mas se você ainda não está por dentro da série, vale a pena aqui fazer um resumo de cada temporada, para assim poder divagar mais sobre elas.


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Primeira Temporada


Iniciamos a história com a partida da detetive Sarah Linden da policia de Seattle (a cidade onde chove todo o tempo), é seu último dia de trabalho e ela vai sair não só da policia, mas da cidade e da vida que ela tem para se casar novamente. Contudo, Linden precisa treinar seu substituto, um novato chamado Stephen Holder, que saiu da narcóticos de uma cidadezinha interiorana próxima a Seattle e agora entrou para a homicídios.


Para o treinamento, Linden pega um caso de uma menina que foi encontrada dentro do porta-malas de um carro, afogada e assim começa o caso de Rosie Larsen.


Interessante é que além de acompanharmos Linden e Holder, que investigam o caso de Rosie, acompanhamos também a família Larsen lidando com os diversos segredos de sua filha assassinada e uma disputa política pela prefeitura de Seattle, que mostra principalmente o lado do candidato Darren Richmond, que concorre contra o atual prefeito.


Durante toda a primeira temporada temos Sarah Linden como a protagonista, não só por ser a investigadora chefe do caso e não também por ser interpretada pela sensacional Mireille Enos, mas sim por ser a personagem mais desenvolvida. Já nos primeiros dias da investigação (na primeira e segunda temporada cada episódio é equivalente a um dia) Linden começa a abandonar seu futuro casamento, seu filho e sua vida pessoal e começa a ficar obcecada por Rosie Larsen e ela escuta de todos, que isso “já aconteceu antes”, esse “antes” foi quando Linden acabou indo parar em uma clinica psiquiátrica e ficou encarando uma parede por dias.


Mal sabemos enquanto assistimos que essa é a ponta solta que liga as duas primeiras temporadas à terceira.


A evolução da primeira temporada é bem coerente, Linden suspeita de todos em algum momento e podemos começar a entender como é um trabalho policial de verdade, não há nada da “magia CSI” em The Killing, o trabalho aqui é tudo sobre vigiar, perguntar, fazer ligações e pensar. Mesmo o trabalho político de Richmond é bem simplista, onde seus dois assistentes, Gwen e Jamie, fazem mais política do que ele mesmo.


Ainda assim, com toda qualidade de roteiro e com todo o ótimo desenvolvimento de personagens, há certo excesso de coincidências no caso de Rosie Larsen, especialmente na primeira temporada. Especialmente no que envolve o professor Ahmed. Mas o carisma e a química de Linden e Holder compensam praticamente tudo. Alias, eu nunca vi uma dupla de policiais tão boa e tão interessante quanto os dois, seja no cinema ou na TV.


Pra mim a maior qualidade de Linden e Holder é que eles parecem reais, eles têm suas personalidades fortes e tudo mais, contudo eles não são só isso. A Linden não é só a detetive obcecada e o Holder não é só o detetive malandro e engraçadinho, eles sofrem, eles se estressam, eles não se limitam a ser o que eles têm que ser no texto. Até onde isso está no roteiro ou é genialidade da dupla de atores eu não sei, mas tanto Enos quanto o Joel Kinnaman arrebentam em seus papeis. Kinnaman é tão bom que conseguiu o primeiro grande papel de sua vida recentemente e vai ser o Robocop no reboot de José Padilha.


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Uma das muitas características singelas de Linden/Enos é o sorriso falso que ela tem para tudo, como ela lida com a simpatia que ela precisa expressar para os outros para ter um convívio social aceitável. Apesar de ser um só sorriso, fica muito obvio quando Linden está sorrindo de verdade e quando ela está sorrindo, porque precisa sorrir, Enos fica até mais bonita quando tem um sorriso verdadeiro no rosto, mais ou menos igual a quando, na segunda temporada ela mostra o cartão que ela pegou no Cassino Indígena para uma câmera.


Mas enfim, os atores e os personagens principais da série são espetaculares, contudo o excesso de coincidências tira um pouco da veracidade da história, especialmente no final mais obvio do mundo que a primeira temporada tem. Sério, para que mostrar Richmond e dar tanta importância a ele se não fosse para no final ele estar diretamente linkado ao assassinato de Rosie Larsen? Isso é obvio e o obvio está aquém da série.


Inclusive o baixo índice de audiência da segunda temporada pode se dar a isso, o final da primeira temporada é tão obvio que acaba com o charme da complexidade de roteiro que a série tinha até então. Alias, o fato da temporada terminar dizendo o obvio e depois no último segundo desmentir tudo só piora a situação, pois parece que estamos sendo enganados.


Isso é uma quebra a todo o ritmo da série, que seja pela história ou pela habilidade na direção, especialmente em termos de conduzir uma trilha sonora com eficiente, faz você não querer parar de assistir “o próximo episódio” nunca. Para mim, o final da primeira temporada quase me fez desistir de assistir a segunda e isso para uma série viciante como The Killing só pode significar um enorme erro.


Antes de terminar de falar sobre a primeira temporada, vale mencionar que na temporada temos a linda Kacey Rohl, como amiga de Rosie Larsen, que interpreta a ótima Abgail Hobbs em Hannibal. Rohl é ótima, prometo um “Promessas da TV” sobre ela em breve.


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Segunda Temporada


A segunda temporada de The Killing começa de forma complicada, tendo que limpar o gosto amargo do final da primeira e amarrar diversas pontas soltas que até então pareciam impossíveis de se amarrar sem se tornar incoerente, ainda que para amarrar algumas pontas, Veena Sud crie ainda mais coincidências bestas e o pior, dê atenção a Mitch Larsen, mãe chatíssima de Rosie Larsen, tudo parece funcionar.


A temporada apesar de ter sido criticada por muitos segue bem sua própria trama, ver a decadência de Linden desde o inicio paranoico em seus primeiros episódios até ela finalmente ir parar em um hospício é testemunhar um belo arco dramático.


Assim como o arco de Linden, o arco de Darren Richmond é incrível, alias, eu me pergunto se Darren não tem a mesma importância que os dois detetives na série, dramaticamente falando, ele foi uma enorme falta durante a terceira temporada, pois seu arco foi interessante, mas um tanto dispensável na primeira temporada, mas completamente profundo e cheio de tons de cinza na segunda. O personagem era um dos maiores trunfos que a série tinha.


Darren é o maior link para o espectador ter o panorama de como a morte de uma garotinha pode mudar toda uma cidade, pois de certo modo, ele “é a Cidade”, ou pelo menos está brigando para ser.


O excesso de coincidências ainda é um pouco problemático nessa temporada, se na primeira tinha o professor Ahmed, aqui temos o “amigo secreto” de Rosie, que tem um link com o passado sombrio de Stan Larsen, pai da menina. O fato da tia Terry estar envolvida com o final da história também grita para ligarmos nossa suspensão de descrença porque num mundo real, não há como existir tantas coincidências ligando tanta gente ao caso.


Mas apesar do fim com a descoberta do assassino, uma escolha que faz sentido no contexto, mas que não é coerente com o que tinha sido apresentado do personagem e do envolvimento forçadíssimo da tia Terry, a série tem diversos momentos interessantes, como toda a batalha para entrar no Cassino Indígena, a forma como Linden lida com o mandato que ela finalmente consegue e principalmente o espancamento de Holder, que é angustiante.


Ainda com todos esses momentos bacanas o ponto alto da segunda temporada e também da série inteira é o final, o grande final, com o vídeo gravado de Rosie Larsen para seus pais, um curta metragem chamado “O que eu sei” que é tanto de arrepiar quanto de trazer lágrimas ao público.


Mesmo com um final ruim da primeira temporada e alguns pontos baixos na segunda The Killing atinge o ápice na sua última cena da segunda temporada, com um final lindo e significativo, que mostra mais sobre a menina morta que deixou tanto Linden, quanto a audiência obcecada. Simplesmente lindo!


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Terceira Temporada


A série foi cancelada após sua segunda temporada, para falar a verdade, nem faria tanta falta assim, porque o caso de Rosie Larsen tem seu fim e praticamente era sobre isso que se tratava a série, sobre Linden, Holder, Richmond e sobre como toda uma cidade se transformou por causa do assassinato de uma menina. Mas a AMC reconsiderou e voltou atrás “descancelando” a série e dando a Veena Sud a oportunidade de contar uma história totalmente nova com os personagens e com o cenário, que por acaso é uma Seattle quase arruinada, agora que Richmond é prefeito dela.


É incrível ver a sutil decadência da cidade, mesmo tendo se passado menos de dois anos entre o final da segunda temporada e inicio da terceira. A maior perda de The Killing nessa terceira temporada é a ausência de Richmond e sua trama mais política, mas ao mesmo tempo em que ele não aparece em nenhum episódio, a única menção que Holder faz a ele é o suficiente para sentirmos sua presença a série inteira, na decadência que tudo aquilo se tornou.


Dessa vez, a trama de Rosie Larsen fica para trás, quando Holder, agora com novo parceiro e se vestindo descentemente entra em um caso de uma moradora de rua morta, com os mesmos ferimentos de uma vítima de um antigo caso de Linden, o caso que deixou ela louca pela primeira vez e que é mencionado constantemente nas temporadas anteriores.


A partir daí, Linden pede para voltar a policia e encontra seu antigo parceiro como chefe do departamento, o parceiro com quem trabalhava nesse antigo caso mal resolvido. Com ela de volta à ativa, as investigações começam e é revelado que o caso se trata da descoberta de um assassino em série conhecido como Pied Piper.


As investigações para descobrir o Pied Piper são bem mais simples e sem tantas coincidências quanto às investigações do assassinato de Rosie Larsen, isso faz com que a terceira temporada seja mais coesa e ao mesmo tempo sem grandes pontos altos. A falta de um link emocional maior, como a família Larsen, deixa a série mais fria também, por mais que Bullet dê um charme e uma emoção para a trama, o efeito não é o mesmo.


A falta de Richmond e da família Larsen fazem falta a série, mas eles tentam compensar isso com a inclusão do personagem de Peter Saarsgard, que está sensacional como o presidiário com os dias contados, que vai ser executado por ter matado sua esposa, que agora tudo indica que na verdade foi morta por Pied Piper. Linden além de encontrar o assassino, tem que encontrar provas de que o homem que ela prendeu três anos antes, não assassinou sua esposa, assim evitando sua execução.


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O único ponto baixo da série nessa temporada é ver o romance mal desenvolvido de Linden com seu ex-parceiro, Skinner, por outro lado o Holder virou um protagonista tão forte quanto a Linden nessa temporada, é divertido ver como ele se transformou em um policial engravatado, mas volta ao seu estilo de “imitação barata do Eminem” quando precisa trabalhar com sua antiga parceira de novo. Sua relação de amor e ódio com a garotinha Bullet e sua relação de amor platônico com Linden também é muito bem explorada. A cena em que ele tenta beijar Linden e ela “se defende” com a testa é icônica para o personagem e sua atuação alcança um nível espetacular quando ele cai no choro em seguida.


O final da terceira temporada é surpreendente, os episódios duplos que finalizam não só a temporada quanto à série, conseguem fazer o final que as duas primeiras temporadas não tiveram, um bom assassino, uma boa explicação, coerência e ainda assim surpresa. O final eleva o nível de Holder também, mesclando nele a meticulosidade e intuição de Linden com sua malandragem natural. Ainda no final, há uma evolução (ou o oposto) de Linden quando ela deixa de ser meticulosa, fria e age por ímpeto e emoção, causando mais uma surpresa para o final da série.


Ainda que sem pontos muito altos, como o curta metragem de Rosie no final da segunda temporada, a terceira termina no limite, infelizmente a terceira temporada é o final da série, já que a mesma foi cancelada, o que significa que nunca saberemos onde os acontecimentos levarão a dupla e jamais saberemos onde está Kallie.

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