Star Trek – Além da Escuridão | Crítica

Eu realmente tentei, tentei muito, mas J.J. Abrams representa para mim o mesmo que Steven Spielberg, grandes produções sem uma gota sequer de personalidade, alias, talvez isso não seja a forma certa de se descrever, não é que Abrams e Spielberg tenham falta de personalidade em seu trabalho, eles têm uma personalidade extremamente forte e impõem ela em seu trabalho, seja ele qual for. Tal qual um Tim Burton o faz, com a diferença que Burton só faz filmes que se encaixem com seu estilo que é bem forte e característico.


Dito isso, Star Trek – Além da Escuridão é o melhor filme de Abrams até o momento, é um bom filme, mas que nunca consegue passar disso e exatamente por isso eu temo muito por Star Wars - Episódio 7. Mas vamos por parte...


O pior defeito em Star Trek – Além da Escuridão é que ele não é em sua essência um Star Trek, ele é um filme do Steven Spielberg com personagens de Star Trek, alias, é um filme de J.J. Abrams, pois tem muito lens flares (e essa talvez seja a única diferença entre os dois)! Alias, eu não quero aqui ser mais um que fica zoando os Lens Flares nos filmes de Abrams, pois hoje muitos brincam com o fato simplesmente porque aprenderam o termo e o que ele representa em tela, mas sinceramente, é quase uma piada a quantidade de Lens Flare em Além da Escuridão, alias, é difícil haver qualquer escuridão em um filme de J.J. Abrams, pois ele poderia nos deixar cegos com tanta luz refletida na lente a cada frame.


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Mas para não dizer que estou de má vontade com o filme, vale dizer que o primeiro ato de Star Trek – Além da Escuridão é incrível e de tirar o folego, a abertura com Kirk fugindo de um planeta tribal com uma bela flora enquanto Spock tenta parar um vulcão em erupção é realmente de ganhar sua atenção. Uma sequencia de abertura digna dos melhores filmes do 007. Mas a qualidade inicial não para por aí, as repercussões dessa missão são interessantes, e a apresentação do vilão de Benedict Cumberbatch é ótima, desde a cena em que ele é apresentado até a primeira vez que ele e Kirk trocam olhares mostram a promessa vã de um filme arrasador.


Mas aí que as coisas desandam um pouco, mentira, desandam muito. O segundo ato do filme é fraco e o terceiro ato é patético. Durante o segundo ato, a vontade de Abrams e do seu roteiro em aproveitar mais do que se devia o ótimo personagem de Benedict Cumberbatch acabam por diminuí-lo ao ponto de me fazer pensar “vai, ele não é tão legal assim!”, pois por vezes parece que ele não sabe bem o que está fazendo apesar de manter a pose de que é a pessoa mais incrível do universo o tempo inteiro. Eu diria que o vilão do filme sofreu de uma “Síndrome de Jack Sparrow” precoce aqui, mas esperem por mais disso em um terceiro filme da franquia.


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Depois de exaltar o vilão como um personagem memorável em seu primeiro ato e acabar com metade da moral dele no segundo, Abrams mostra que segue bem a cartilha de Spielberg e faz um final pavoroso, que é fora do ponto, óbvio, tecnicamente preguiçoso, narrativamente mal planejado e ainda extremamente meloso, assim como 90% dos filmes que ele e seu mestre Spielberg fazem. Como não posso contar mais sobre o final para não dar spoilers, basta dizer que você consegue traçar cada passo que Abrams planejou para manipular a emoção da audiência assim que um determinado evento se inicia. Como em todos os seus filmes, a emoção é quase uma formula matemática, basicamente todos os roteiros têm formulas então não dá para criticar o fato de Star Trek também as ter, mas em Além da Escuridão as formulas tentam provocar emoções fortes demais, com ideias óbvias e mal preparadas demais. Repito, eu temo muito pelo novo Star Wars.


Sobre as atuações, embora seja Benedict Cumberbatch quem mais se destaque, não dá para deixar de parabenizar Zachary Quinto e seu ótimo Spock.


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Mas não tem Khan ou Spock que tirem do Capitão James Tiberius Kirk o posto de melhor personagem do filme. Spock é um ótimo personagem, mas o final do filme estragou boa parte de sua composição para mim, já o Khan (desculpe se isso é considerado Spoiler, mas era obvio que Cumberbatch era Khan desde os trailers e também é algo revelado no inicio do segundo ato do filme e não muda em nada a história) é um personagem excepcional, mas também é severamente prejudicado pela narrativa autoindulgente do segundo ato, mesmo com a atuação brilhante do eterno Sherlock Holmes, não dá para ganhar da impetuosidade, ego gigante e carisma de Kirk. A composição de Kirk, ainda que não seja brilhante através da atuação de Chris Pine, é brilhante através do roteiro que mostra um cara que se acha extremamente incrível, que vive intensamente sem nunca pensar nas consequências, mas que agora se vê em uma situação onde outros dependem dele e isso lhe traz uma estranha insegurança.


O momento em que Kirk se vê obrigado a pedir desculpas a sua tripulação é de uma carga emocional invejável para muitos roteiros Hollywoodianos, tanto pelo que supostamente vai acorrer em seguida, quanto por tudo que veio antes e levou ao personagem em proferir aquelas palavras e admitir um erro, coisa que dificilmente ele faz. Eu ao menos fico feliz de ver que apesar do roteiro ter amado tanto o Khan ao ponto de quase estragá-lo, ele não tenha esquecido quem são os verdadeiros protagonistas do filme, Spock e principalmente Kirk.


O restante do elenco fica em segundo plano o tempo todo e por mais que Zoe Saldana e Simmon Pegg tenham seus momentos de brilho, são facilmente esquecidos quando a trama tende a ficar mais séria.


Mais uma qualidade? Os efeitos especiais são incríveis, mas isso né... já é obrigação hoje em dia.


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Pelo menos não dá pra dizer que J.J. Abrams não sabe fazer ação, alias, antes de Além da Escuridão esse era um dos meus medos para o próximo Star Wars, mas pelo menos quanto a isso eu posso dormir descansado, pois Abrams que na minha cabeça não conseguiria fazer ação nem em um filme de Transformers, fez milagres aqui. Apesar de eu ter elogiado a ação desenfreada do primeiro ato e ter criticado muito os outros dois, tenho que dizer que no contexto da ação em si, essa é ininterrupta em praticamente 100% do filme. E o melhor, Abrams nunca deixa a ação parecer gratuita ou forçada, cada cena parece estar encaixada com um determinado objetivo da trama, até mesmo a dos Klingons, que não serve para bulhufas no filme, mas está lá para pavimentar um caminho para o Star Trek 3.


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