O Homem de Aço | Crítica

Superman é um personagem altamente ultrapassado, eu cheguei a pensar um dia, especialmente após ver o filme do detestável Bryan Singer, que não era possível fazer um filme decente com o personagem. Ele foi criado há muitas décadas atrás, num contexto muito mais inocente que o de hoje, sua invulnerabilidade, seu excesso de poder, sua moral obsessiva, suas cores, seu disfarce idiota... tudo no Superman foi criado em uma época diferente, hoje, nada daquilo funciona direito. Mas foi quando Zack Snyder assumiu a direção desse reboot que eu comecei a achar que existia uma chance das coisas darem certo, e para minha felicidade, deram, deram MUITO CERTO.

Até o momento, O Homem de Aço, é na minha concepção, o melhor filme do ano, o que não quer dizer que ele seja perfeito, apenas quer dizer que tivemos 6 meses de filmes fracos, medianos ou apenas bons. De fato, O Homem de Aço tem alguns defeitos pavorosos, mas todo o restante é tão bom, que salva o filme completamente.


Uma coisa a se ressaltar é que os trailers iniciais do filme venderam ele completamente errado, o filme nem de perto é um drama ao estilo Terrence Malick, mas nem de perto mesmo, na verdade, ele flerta perigosamente com a histeria e frenesi do estilo Michael Bay. E como eu geralmente faço, vou tirar logo o elefante branco da sala e falar dos problemas do filme, que basicamente são dois, mas provenientes de apenas uma escolha.


Zack Snyder deve ter escutado pessoas mais céticas como eu, dizendo que era impossível fazer um filme do Superman direito, então, ele foi lá e provou que estávamos todos nós, os céticos, errados, ele fez um filme extraordinário, mas ao mesmo tempo lhe faltou confiança para maneirar na ação do filme e nos limites não do Superman, mas do cinema e da narrativa que lhe cabe quanto (sétima) arte.


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O filme começa estranhamente em Kripton, com Russel Crowe e Michael Shannon, Jor’el e Zod, brigando pelo futuro inexistente de seu planeta e por incrível que pareça, esse inicio consegue mostrar um pouco da política de Kripton, das qualidades e defeitos de Jor’el e da motivação de Zod, além de acontecer durante uma guerra civil e a explosão do planeta. Mas bem, aí vocês pensam, nossa, como ele mostrou isso tudo em tão pouco tempo? Esse é o x da questão, não foi em pouco tempo, Kripton toma quase meia hora de filme, pontuando um primeiro ato curto e estranho, mas sólido, cheio de ação e surpreendentemente eficiente. Contudo com um primeiro ato tão seco e próprio, como seria contar o resto do filme que precisa conter a criação de uma criança, crescimento dela, até a partida dela ao mundo, descobrindo suas origens e aí então enfrentando seu inimigo? Bem, aí que tá, isso não acontece, após Kripton já pegamos Clark Kent velho, viajando de navio e salvando uma plataforma de petróleo, ou seja, acabou uma epopeia de ação alienígena para entrar em outra humana.


O filme segue nessa bizarra estrutura, ação frenética e durante a ação, uma pausa para um Flashback lembrando o passado de Clark, a narrativa que Snyder e David Goyer resolveram seguir com o roteiro é muito ruim, parece até um episódio de Naruto, mas com o Superman. No máximo o diretor poderia argumentar que essas intercessões de Flashbacks foram feitas pontuar o excesso de ação, mas há tanta coisa desnecessária em termos de ação, especialmente no segundo ato, que não vejo porque os Flashbacks com a infância e adolescência de Clark não poderiam ser narrativa corrente, enquanto Kripton seria flashback e muita, se não toda, da ação do segundo ato poderia ser simplesmente cortada, isso faria do filme uma obra muito mais completa e menos problemática. Ou quem sabe use Louis exclusivamente para investigar o passado de Clark e assim o reconstruir com mais sentido sob nossos olhos.


Então, no terceiro ato, temos o novo problema, pra começar, o primeiro ato tendo cerca de 30 minutos e sendo apenas um complemento narrativo à trama principal e o segundo ato, por ser completamente descartável pela forma como foi contado, faz com que o “final do filme” tenha mais ou menos 1 hora e meia e aí entra a síndrome de Transformers 3. Em certo ponto do enorme final do filme, nós simplesmente podemos parar de olhar, pois está acontecendo ação há tanto tempo, que nada mais parece realmente ter importância, especialmente na cena em que o Superman enfrenta uma maquina terraformadora, agente pensa “pra que isso Snyder, pra que? Já entendemos.”, por sorte, o final mesmo, a última parte do terceiro ato, tem Michael Shannon chamando nossa atenção de volta e dando um show a parte.


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Mas isso, especialmente o primeiro problema, é muito subjetivo para considerarmos que ele destruiu o filme, é só um arranhão em uma boa pintura. Temos muita qualidade diluindo esses problemas, para começar, a forma como Zack Snyder lida com a trama é uma delas, cinematograficamente falando, não há como dizer que não é uma bela história a ser contada e ele conta não usando o jeito Zack Snyder de filmar, o diretor abdicou da maioria de seus maneirismos padrões para fazer o filme que um personagem como o Superman precisava, o filme não tem sequer um SlowMotion. Uma qualidade difícil em diretores “visionários” que se alimentam do ego que o próprio departamento de marketing cria para eles, e sim, estou falando também de J.J. Abrams, o final desse filme, por exemplo, é uma coisa que Abrams jamais faria. A proposito, eu lembrei de Abrams por que em O Homem de Aço tem também muitos Lens Flares, mas também, muito mais qualidade que Star Trek – Além da Escuridão, para dar um exemplo... gostaria agora que Zack Snyder dirigisse Star Wars 7.


A parte da trama contada em Kripton é linda, em especial a última cena da mãe de Clark, ou Kal’el. A cena com Kevin Costner e o furacão também é especialmente bonita e marcante, define bastante do personagem (pena ser contada em Flashback). Alias, Kevin Costner é o maior desperdício desse filme. Ele merecia um destaque infinitamente maior.


A relação de Clark e Louis é um pouquinho forçada, mas tanto Amy Adams tem um grande carisma como a personagem, conseguindo tanto atualiza-la quanto manter a essência, quanto o roteiro é sábio em linká-los por varias vezes na trama para podermos fingir melhor, que realmente acreditamos que há a chance de um romance surgir ali.


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Henry Cavill também é um ótimo ator, alias, é difícil afirmar isso depois de ver Imortais, mas mesmo assim ele fez um ótimo trabalho como o Superman/Kal’el, consegue transportar bem o fato de ser uma pessoa gente boa e que se preocupa com os outros, mas ao mesmo tempo sofre com a possibilidade de ser excluído quando seu segredo ficar público e sente-se excluído da humanidade já em segredo, quando a Louis diz no trailer “Para alguns ele era um fantasma que nunca se adaptou”, dá pra entender exatamente o que ela quis dizer. Cavill consegue mudar gradativamente seu semblante quando está finalmente vestido com a roupa azul, o suficiente para trocar piadas e gracejos com Louis e com o exército enquanto ele está algemado. Um belo trabalho de construção do ator, espero ver mais dele fazendo esse tipo de coisa e não o tipo de coisa que ele fez em Imortais.


Agora é o Zod de Michael Shannon que rouba as cenas na maior parte do tempo, não é nada tão excepcional quanto o que Heath Ledger foi para Batman – O Cavaleiro das Trevas, mas é pelo menos no nível que Tom Hardy foi para o Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge e isso é uma sorte de Snyder, porque se não fosse Shannon, o final do filme seria problemático, seria algo do nível de Transformers 3, que você não precisa se importar com nada, pois sabe que ao ponto que tudo está acontecendo, nada realmente acontece.


Sobre os coadjuvantes, Russel Crowe, Diane Lane e Antje Traue são os únicos que se destacam, como eu disse antes Kevin Costner com suas 3 ou 4 cenas mínimas é um desperdício do filme, assim como Laurence Fishburne, que só está lá para dar sentido a uma ou duas cenas com Louis e para ser um nome de peso a ser usado posteriormente em outros filmes da franquia. Vi pessoas reclamando sobre ele e outros humanos em cena de ação estarem péssimos, discordo, as cenas é que são péssimas, por não fazem sentido no filme, são uma gordura extra que poderia não constar na trama, obvio que Snyder precisa mostrar o impacto de tudo aquilo nas pessoas, mas isso podia ser feito sem cenas que somadas tomam uns 20 minutos de filme.


Mas para falar de outro ponto (extremamente) positivo, temos que mencionar a coragem de Zack Snyder em substituir a trilha sonora do filme e não ficar preso a um saudosismo tolo, o tema dos antigos Superman era marcante, mas novamente, ultrapassado no que consta ao cinema de hoje, portanto, nada melhor que criar uma nova coisa marcante e Hans Zimmer conseguiu, fez uma das melhores trilhas sonoras que eu ouvi nos cinemas recentemente e que é aplicada nos pontos certo. Já está tão marcada na minha mente quanto as melhores trilhas sonoras do cinema recente. Prevejo uma indicação para o Oscar nessa categoria, no mínimo.


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Falando em Oscar, se existisse um Oscar para melhor porradaria do cinema, o filme concorreria com ele mesmo em duas cenas, Faora e um grandão genérico contra Superman no inicio do terceiro ato e Superman contra Zod no final do filme, são duas lutas impressionantes e são duas das grandes cenas de ação do cinema contemporâneo, apesar de tudo, eu ainda acho a luta de Faora contra Superman até um pouco melhor, pois mostra a comparação entre os Kriptonianos com os humanos, é ótimo quando ela diz que uma boa morte é a melhor das recompensas para o general americano que a enfrente debilmente com uma faca. Todas as duas lutas são um show de direção e um show a parte do diretor, provando que dá sim para fazer um filme do Superman em que ele é de fato o Superman.


Em especial isso se encaixa quando chegamos ao final do filme, com Zod e Kal’el, um final que gerou polêmica, mas que eu sinceramente não sei porque, ele não podia ser mais bem feito e mais significativo para a história que ele queria contar, além disso, mostra certas coisas muito importantes para os próximos filmes da DC/Warner, seja ele Superman 2 ou Liga da Justiça. Uma das coisas é que o Superman ultrapassa seus próprios limites físicos e morais para defender os humanos, que ele se preocupa mais com os outros do que com ele mesmo e pra mim o mais importante, mas que ninguém pareceu notar... é que os Kriptonianos, por mais incríveis que sejam, tem seu limite, coisa que nunca é muito acertada nos quadrinhos.


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Agora o problema é que Zack Snyder se meteu em uma enrascada e enfiou a Warner na mesma, pois não há como superar esse filme em termos de ação e escala épica, não há como um Batman ser necessário ao mundo, em um contexto de Liga da Justiça pelo menos, quando temos um Superman que realmente usa seus poderes dessa forma. A Marvel conseguiu problemas semelhantes em Os Vingadores, mas com a vantagem que esse era um marco para ela e não seu inicio. Sem contar que Snyder ignorou tudo que não funciona no Superman até o último minuto, só para depois usar como fanservice aquela história idiota de disfarce como Clark Kent apenas usando um óculos, sinceramente, ele mostrou que tá pouco se lixando com o que virá depois, ele só quis fazer o agora ser algo incrível... e nesse caso, conseguiu com louvor.



 


 
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