Na Estrada | Crítica

Com uma das aberturas e fotografias mais bonitas do ano, Walter Salles começa Na Estrada como uma experiência lenta e poética que impacta fortemente com o decorrer frenético e louco da história e dos personagens, no caso de frenético, mais dos personagens do que da história.


Com uma estreia marcada nos EUA para dezembro, não é difícil acreditar que o Oscar vai estar de olhos grandes na adaptação de um dos maiores livros de todos os tempos e o livro que representa toda uma cultura. Além da fotografia maravilhosa que eu já mencionei, a música é um dos tons mais marcantes do filme, por vezes melancólica, por vezes Jazz frenético, e hora blues, sem contar os cânticos a capela que são belíssimos e que ficam espalhados durante o filme.


Mais uma coisa que chama a atenção é a quantidade enorme de astros no elenco de Na Estrada, além de Garret Hedlund, Kristen Stewart e Sam Hiley que são os protagonistas, vemos nomes surgindo na tela aparecendo e desaparecendo, gente como Amy Adams, Elisabeth Moss, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Steve Buscemi, Viggo Mortensen, e Alice Braga trazem um brilho a mais em suas pequenas participações.


Mas ninguém chama mais atenção em termos de atuação que o próprio Garret Hedlund, o rapaz que se manteve fiel ao livro e ao personagem por anos impressiona no papel do “vagabundo iluminado” Dean Moriarty. O personagem que já foi o sonho de diversos atores que são ícones hoje foi interpretado com maestria por Hedlund, que não demonstrou todo esse potencial em Tron: O Legado.


E já que estamos falando do quesito atuações, vou falar aqui uma coisa que eu posso me arrepender mais tarde e que com certeza é algo que eu jamais cogitei a dizer, vamos? … Kristen Stewart está ótima como a Marylou de Dean e Sal. Durante a coletiva o próprio Walter Salles elogiou a capacidade de se adaptar a situações e de improvisar, embora não seja o ponto mais forte do trio ela realmente impressiona em certos trechos.


Na Estrada


O problema é que não podemos falar só das atuações, os personagens são tão absurdamente grandes, fortes e reais (literalmente reais) que eles transbordam os atores. Sam Riley por exemplo praticamente deixa de existir para dar vida ao Sal Paradise, que por sua vez é a vida nas letras de On the Road do próprio Jack Kerouac.


O filme de Salles é a perfeita demonstração do caos e criação da mente humana, enquanto os chamados beats eram o que podemos chamar de transgressores das regras sociais e ainda gênios literários, pelo menos dois deles eram, eles também transgrediam diversos limites morais que ultrapassam os valores de regras quanto sociedade apenas, para ultrapassar o que se pode chamar de moral vigente e necessária para a civilização e é muito corajoso do diretor não tentar de forma alguma punir os personagens por tais atitudes, no mundo Hollywoodiano de hoje deve ter sido difícil aguentar os produtores dizendo o tempo todo para matar o Dean no final do filme, ou puni-lo de alguma forma, algo que o próprio Salles disse que acontecia com as primeiras e problemáticas tentativas de adaptar a obra.


A paixão por essa obra em questão é o maior trunfo do filme e ao mesmo tempo um defeito. Possivelmente muito do que foi mostrado em termos de aparições e toda a possível fidelidade da adaptação são bons pontos, mas ao mesmo tempo isso tudo somado a uma narrativa em off de Sam Riley que revela trechos do livro acabam quebrando um pouco o ritmo e a estrutura do filme, transformando a obra em algo diferente do usual, uma coisa mais parecida com um filme feito em homenagem a algo e não um filme simplesmente.


Na Estrada


Mas não é para menos o excesso de paixão pelo livro, On the Road que é considerado por muitos obras máxima de uma geração inspirou grandes nomes nas mais diversas áreas de atuações no mundo, provavelmente o mundo hoje não seria o mesmo se Jack Kerouac/Sal Paradire não tivesse conhecido Neal Cassidy/Dean Moriarty e resolvesse colocar o tempo em que essas duas vidas viveram em paralelo no papel. Talvez hoje não tivéssemos Bob Dylan, não tivéssemos Tom Waits, não tivéssemos o próprio Walter Salles e sem ele Central do Brasil, Diários de Motocicletas e até mesmo coisas do nível de Jack Sparrow e Piratas do Caribe, visto que Johnny Depp é uma pessoa que revela que uma das suas maiores inspirações é o On the Road, talvez nem mesmo o Eden Pop e essa crítica existisse, visto que li o livro de Kerouac durante a minha formação de opinião quanto a qual rumo seguir, e viver da escrita, viajar e ter liberdade acima de tudo, sempre foram meus pontos fundamentais a partir daí.


Por mais linda que seja a homenagem de Na Estrada, por mais impactante que seja a história contada, ainda hoje na segunda década dos anos 2000, e por mais incrível que a trilha sonora, fotografia, direção e atuação, especialmente atuação do filme sejam, o peso do livro é tão enorme que esmaga um pouco a obra cinematográfica. É bom pelo menos saber que apesar de imperfeito o filme é forte, visceral em certos pontos, visualmente lindo e principalmente foi feito da melhor forma que um filme pode ser feito, com paixão!

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