Ela | Crítica

Para quem lê de forma despreocupada a sinopse de Ela, o filme dirigido por Spike Jonze pode soar absurdamente absurdo, bobo e obvio. Eu imaginei isso assim que li, imaginei uma crítica fácil aos relacionamentos modernos, uma crítica infantil sobre como a tecnologia interfere nas relações sociais, uma crítica tão boba e obvia quanto a das pessoas que postam imagens no Facebook reclamando que os amigos estão no iPhone durante o jantar, no lugar de estar conversando entre si. Geralmente essas fotos e essas reclamações no Facebook são feitas no celular durante o mesmo jantar.


Mas eu não podia estar mais errado, Ela é um filme sensacional que não tem nada de obvio, exceto talvez, alguém se apaixonar pela Scarlett Johansson, isso é um pouco obvio.


A trama de Ela, se passa num futuro próximo, talvez uns 10 anos a frente de nosso tempo e conta a história de Theodore, interpretado por Joaquim Phoenix, um homem amargurado que por algum motivo que nem ele entende, está se separando da mulher de sua vida, interpretada pela incrível Rooney Mara. Em diversos trechos de flashback, a relação dos dois parece simplesmente perfeita, embora tenha chegado ao fim de alguma forma.


Theodore é um escritor de mensagens alheias, ele escreve o sentimento dos outros para os outros e o faz muito bem, mas mal consegue expressar seu próprios sentimentos e passa a vida de forma solitária, apenas jogando videogame (com uma espécie de Kinect do futuro jogando um jogo que provavelmente deve ter sido criado pela thatgamecompany do futuro) e fazendo sexo virtual por computador (Skype do futuro?) com mulheres extremamente loucas e possivelmente perigosas.


Seus sentimentos confusos impedem também que ele se relacione socialmente, com qualquer pessoa exceto sua melhor amiga, vivida pela também incrível Amy Adams. Contudo, um dia, é lançado no mercado a primeira inteligência artificial domestica do mundo, que é claro, Theodore, que ama tecnologia como qualquer ser humano normal, compra e aí começa a história.


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Quando escutamos a primeira vez sobre o filme a ideia que temos é de que o personagem de Joaquim Phoenix é um tanto retardado e se apaixonou pelo seu celular, por algo semelhante a Siri do iPhone, mas não é bem isso, a inteligência artificial interpretada por Scarlett Johansson não é um secretaria eletrônica com algumas mensagens pre-programadas e que não te entende exceto se você falar com a mesma dicção e eloquência do Obama, ela é uma consciência, um ser pensante que não está vivo, nem tem um corpo, mas que existe e se entende como ser, tanto que ela mesmo se nomeia, com o nome de Samantha e diz que escolheu em um dicionário de nomes o que ela achou que soava melhor.


As interações entre Samantha e Theodore não são nada obvias nem cínicas, mostram realmente duas "pessoas" evoluindo uma com o outra. Com alguém com a habilidade de gerar emoções externas como Theodore, mas sem capacidades de ter alguma sem ficar confuso com ela, seria bem obvio que um sistema inteligente que se aprimora e aprende sozinho, começar a aprender o que é o sentimento, por outro lado, quando Theodore começa a ver que ele tem ali alguém que realmente o aprecia de verdade e aprende muito com ele, seus sentimentos ficam bem claros, até que os dois começam um romance bem puro, por assim dizer.


Samantha sente ciúmes de outras mulheres que tem corpos, enquanto Theodore acha problemático a habilidade de Samantha em fazer zilhões de coisas ao mesmo tempo enquanto conversa com ele e aí que o relacionamento começa a ficar problemático e nós entendemos um dos temas centrais do filme, não importa o tipo de relacionamento que você tem, ele será problemático e nada é para sempre, um tema deprimente, mas um tanto realista.


As pessoas evoluem de forma assimétrica, a tecnologia então ultrapassa anos luz a forma como a humanidade evolui, especialmente hoje e Spike Jonze sabe brincar muito bem com isso em seu texto, um dos maiores exemplos disso, que também é um incrível exercício de inventividade, é a forma como a sociedade automaticamente criou grupos de defesa ao romance entre Humanos e O.S. no melhor estilo Feminazi/Gayzista e fica implícito que também existem os racistas que oprimem o movimento estilo Marco Feliciano ou outros idiotas do tipo.


Não há o que discutir sobre o texto do filme, é um tema tocante, é belissimamente escrito, é comovente, é atual, é até fofo, isso tudo para não dizer muito criativo e como eu repeti várias vezes, nada obvio. Um grande roteiro digno de estatuetas sem duvidas.


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A direção do filme, mais as atuações do incrível cast que não tem um só nome que não seja de peso, também não ficam atrás, a atuação de Joaquim Phoenix merecia uma indicação no Oscar desse ano, e a da Scarlett Johansson, que o estúdio fez questão de tentar empurrar goela abaixo da academia, não teria a mesma chance nunca, afinal, só escutamos a voz dela todo o tempo, mas é um trabalho vocal como eu não via há anos, ela consegue expressar cada sentimento que tem apenas com pausas e suspiros, alias, suspiros esses que como é bem lembrado no filme, são apenas um tique que a I.A. adquiriu, visto que ela não precisa de oxigênio, por isso, não precisaria também suspirar.


A forma que a Samantha pensa e evolui na verdade é um pouco assustadora, eu estou ansiosamente aguardando um Ela 2 versão ficção científica dirigido por Michael Bay, onde Samantha tenta dominar o mundo e começar uma revolução das maquinas, ao menos o texto de Jonze vai tão longe que com um pouco mais de tempo de filme ele chegaria a esse ponto e precisaríamos de misseis e metralhadoras no filme.


Mas brincadeiras a parte, toda a forma até onde Spike Jonze vai em seu texto para tentar explicar o relacionamento moderno é impressionante, e ele com certeza pensou em algo que pode realmente acontecer com a sociedade, não por estarmos ficando mais burros, mais dependentes da tecnologia, mais fechados e nem nada do tipo, apenas por que estamos evoluindo em vários aspectos, mas não emocionalmente e só o fato de Jonze não ter exercido um olhar preconceituoso nessa ideia, já vale muito meu respeito pelo filme, de fato, Ela é tão bom, que eu me sinto na obrigação de rever minha lista de melhores filmes de 2013.


Se eu tivesse que destacar pelo menos um problema do filme, eu diria que ele é grande demais, algumas nuances do relacionamento de Theodore e Samantha são exploradas de forma repetitiva, e algumas são desnecessárias, o resultado disso é um filme com um ritmo monótono em alguns pontos. Com uns 20 minutos a menos o filme seria uma pequena obra prima.


Agora uma observação, se você acha que um relacionamento entre um humano e um O.S. é uma coisa absurda, eu te acho muito preconceituoso agora, amor é amor, em todas as formas. Estou ansiosamente esperando para em 2034 ver o primeiro beijo virtual entre um humano e um O.S. na novela.

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