Bates Motel - 1° Temporada Completa | Crítica

Bates Motel com certeza é uma das séries mais bem produzidas que estrearam em 2013, provavelmente a mais bem produzida depois de Hannibal e House of Cards, mas não dá pra deixar de se sentir um pouco cansado quando percebemos que os protagonistas da série são duas pessoas extremamente problemáticas com quem não conseguimos dividir nenhum sentimento.


Norma e Norman Bates, mãe e filho, são ótimos personagens, mas péssimos protagonistas. Como eu queria que a série fosse liderada por Emma Decody ou por Dylan Bates, irmão mais velho de Norman. Os dois de fato são os dois únicos personagens normais da série e isso já é difícil, pois os dois tem lá seus problemas, uma de saúde e o outro de “emprego”.


A história é uma espécie de prequel do filme Psicose, de Alfred Hitchcock, mas a trama da série ainda está um pouco longe de chegar ao ponto em que estava a trama do filme, talvez a maior ligação seja os surtos de Norman e seu potencial instinto assassino (e a forma como ele acaba completando seu potencial). A trama foca em Norman e sua mãe, Norma (sim, esquisito), onde depois da morte de seu pai, eles têm de se mudar e com o dinheiro da apólice de seguro, eles compram um Motel, rebatizado agora de Bates Motel, onde teoricamente mãe e filho vão recomeçar suas vidas.


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Contudo aparentemente o vilão da série, no inicio pelo menos, não é Norman ou sua mãe e sim a cidade onde eles estão, que é simplesmente o lugar mais esquisito do mundo. Nada na cidade é o que parece, pessoas são incendiadas na rua e a polícia parece não se preocupar muito para certos tipos de crimes. Já no inicio ficamos sabendo também que há uma espécie de trafico humano rolando por baixo dos panos e que o Motel, agora Bates (antes Seafarer) era o lugar onde as transações aconteciam.


Logo no inicio da série vemos que a personagem de Vera Farmiga não é tão louca quanto essas fotos de divulgação deixavam transparecer, na verdade ela é quase normal, se não fosse o excesso de controle que ela exerce sobre Norman e alguns traumas do passado. Norma Bates é uma personagem quase aturável, mas ao mesmo tempo em que ela mostra seu lado bom vez ou outra, o lado possessivo dela é exacerbado pelo roteiro da série a todo momento, mas quando ficamos sabendo de certas coisas sobre Norman, é quase compreensível esse excesso de proteção que ela tem, não protegendo só ele, mas as pessoas ao redor dele. Ainda assim o ângulo no qual os roteiristas mostram ela é quase sempre o pior possível, fica uma doçura no ar ver os momentos em que ela e Dylan estão se dando bem, mas os momentos em que ela e Norman estão juntos parecem doentios demais.


Já o personagem de Norman, interpretado belíssimamente por Freddie Highmore sofre do mal de protagonista, Norman é praticamente esquizofrênico, o que o tornaria um personagem interessante, mas suas duas personalidades, se é que podemos chama-las assim, são extremamente entediantes. Norman é um adolescente absolutamente comum e chato em alguns momentos e um maluco problemático e incompreensível em outros. Não sei se a repetição vai me fazer ser entendido melhor, mas Highmore e Farmiga interpretam magistralmente bem seus ótimos personagens, mas eles REALMENTE são péssimos protagonistas, eles não são anti-heróis (algo que talvez Carlton Cuse tenha pensado enquanto a série estava no papel) eles são simplesmente loucos com quem não conseguimos se relacionar emocionalmente, nem se nos esforçarmos.


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Por outro lado, se Norma e Norman são péssimos protagonistas, a série tem uma personagem apaixonante e que poderia muito bem preencher esse local na trama, deixando todos os outros ainda mais interessantes. Emma Decody, a ruivinha linda com Fibrose Cística interpretada por Olivia Cooke, ela é uma adolescente que sabe que sua vida terá uma duração curta, vive dependendo de um aparelho grotesco que ela carrega para cima e para baixo, mas que ela enfeita com todo tipo de glitter e cores, tem um interessante blog na internet, que (detalhe) pode ser realmente lido online, lido e assistido já que ela é uma Youtuber e ainda assim se preocupa extensamente com a vida das outras pessoas e em como fazê-las melhor, mas por algum motivo absurdo está apaixonada por Norman, que por sua vez só tem olhos para a insossa Bradley.


Emma é a força motriz da primeira e discutivelmente melhor parte da série, visto que ela, numa espécie de ímpeto detetivesco, investiga o caderno que Norman encontrou em um quarto do Motel e descobre praticamente sozinha que há uma espécie de trafico humano sexual na cidade. Ela e Norman investigam e resolvem o caso, enquanto isso corre em paralelo o caso de Norma ter sido acusada de assassinar Keith Summers, antigo dono do Motel que a estuprou, por vingança por ter perdido seu empreendimento ao banco e por ela ter comprado. Por reviravoltas interessantes, o policial Shelby e Keith Summers acabam sendo identificados como os líderes do trafico sexual e num episódio digno de ser o Season Finale, Dylan mostra porque é o segundo melhor personagem da série e resolve o problema.


Dylan é o filho mais velho e “rebelde” de Norma, irmão mais velho de Norman (sério, soa tão idiota escrever Norman e Norma) e que vive afastado da mãe e irmão por desavenças familiares, mas um problema financeiro faz ele buscar sua mãe no Motel, onde ele também passa a morar. Logo arranja emprego e dinheiro fácil na cidade, protegendo uma plantação de maconha no local, o que faz com que ele crie algumas raízes com o local, há dinheiro fácil e amizade boa por lá, embora ele e sua mãe ainda se odeiem por boa parte do tempo.




[caption id="attachment_34045" align="aligncenter" width="705"] Momento feliz entre mãe e filho![/caption]

Há duas coisas muito interessantes em Dylan, a primeira é que o ódio por sua mãe é bem profundo, o que nos faz pensar que Norma realmente deve ter tipo um passado conturbado com ele, porque tudo o que vemos dela ao decorrer da série é apenas redentor em comparação ao que pensávamos dela no inicio da temporada, mas esse ódio com certeza é resultado de algo que ainda não vimos. A segunda coisa interessante é que ele, por conhecer Norman e seu “problema” mostra que o garoto só é uma ameaça real para as pessoas que baixam a guarda para ele, Norman é fraco, magrelo e sem jeito, sua aparência calma e indefesa é o que há de mais ameaçador nele, mas Dylan tem pouco a se preocupar com o irmão, em teoria pelo menos, já que sabemos que se o roteirista decidir, Dylan vai ser estupido o suficiente na hora H para baixar a guarda e vai ser morto. O único lado de Dylan que me desagradou um pouco durante a série foi todo o lance dele com a Bradley, Bradley é interpretada pela Nicola Peltz, a Katara do Último Mestre do Ar e ela ainda continua sem ter nenhum tato para atuação, ela , na série, o arquétipo de garota popular que teoricamente não agradaria uma pessoa como Dylan, mas ainda assim, somando isso a sua menoridade, ao problema que ela tem com seu chefe (o chefão do trafico de drogas da cidade) e ao passado que ela tem com seu irmão problemático e perigoso, Dylan decide se engraçar com a menina. Sério, isso não é nada sábio nem legal da parte dele, pra não dizer incoerente.


Como eu disse antes a série tem duas metades tão bem definidas que me lembrou um pouco a forma como 24 Horas lida com a sua narrativa. A primeira metade mostra Emma e Norman investigando um caso de trafico humano e a segunda metade mostra um estranho homem chamado Jake Abernathy ameaçando Norma sobre algo que ela tem e que era do Detetive Shelby, assassinado por Dylan no final da primeira metade. Essa segunda metade tem uma estrutura problemática e falta coesão nela, não que seja uma história ruim, mas o envolvimento de Norman e Emma, por exemplo, fica praticamente nulo e apenas vemos eles em atividades paralelas e de pouca importância, ok, talvez a relação de Norman e sua professora tenha levado ao grande plot da segunda temporada, mas até aí foi uma preparação de história mal aproveitada e mal contada, que poderia ter sido mais curta ou pelo menos mais integrada no contexto. Por outro lado Emma e o Muffin de maconha foi realmente um sub-aproveitamento de humor com a personagem, que poderia ter rendido uma cena incrivelmente melhor ou pelo menos não tão dispensável.


Carlton Cuse já admitiu e o fato de ser cansativo escrever e ver esse tipo de personagens, mas ele mesmo diz que a série será curta e terá inicio, meio e fim bem claros. Por mais que Bates Motel tenha uma produção impecável, atores incríveis fazendo o seu melhor e uma história interessante, será que não parece desnecessário assistir uma história que acaba virando cansativa justamente por sua estrutura? Será que não soa oportunismo fazer uma série que é admitidamente problemática e (novamente) cansativa até de se escrever?


No final da primeira temporada de Bates Motel os sentimentos são mistos, ao mesmo tempo que assistimos um belo trabalho de conjunto de obra e uma história interessante, ficamos com a dúvida de que será que vale a pena voltar a jornada? Há algo a contar ali que não seja simplesmente interessante e nada mais? Eu não sei se vou acompanhar a segunda temporada de Bates Motel, a divulgação dela dirá, talvez com mais Dylan e principalmente mais Emma, a série volte a ser interessante o suficiente como história, pois o esquema assassino adolescente esquizofrênico e mãe superprotetora em uma cidade louca não me parece ter muito mais força para outros 10 episódios.

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