Biblioteca do Eden - Um Diario do Ano da Peste

Nascido em 1660, Daniel Defoe foi um escritor revolucionário, estabelecendo o formato da novela contemporânea e o primeiro a atingir um grande público, que tinha interesse pela leitura, mas que não possuía grande escolaridade. Defoe foi ainda um ativista religioso e político e também um jornalista. Pode-se dizer que ele criou a base do jornalismo moderno, que reune dados e apresenta imparcialmente o fato, e também do jornalismo marrom, manipulador da verdade. Durante cerca de dez anos escreveu, editou, e publicou sozinho três edições semanais de seu jornal. E esse seu gosto pelo jornalismo que encontramos em Um Diário do Ano da Peste.


O livro se passa em 1965 em Londres, quando uma epidemia de peste bubônica atacou a população. Defoe cria um personagem fictício que divulga seu relato à respeito da peste. O tom é jornalístico, mas não completamente imparcial, uma vez que o personagem relata muitas vezes a sua opinião pessoal e suas impressões. A descrição de Defoe é tão precisa que não é difícil pensar que é o seu próprio relato, coisa impossível, uma vez que o próprio tinha apenas quatro anos no ano da peste. O ganhador do prêmio nobel Gabriel Garcia Marquez foi um dos que caiu nessa armadilha. E a propósito, se Gabriel Garcia Marquez diz que este é um dos melhores livros, quem sou eu para contrariar?


O Diário do Ano da Peste é um livro rico. A quantidade de informação e conhecimentos adquiridas com esse livro é impressionante. Defoe nos apresenta a sociedade londrina do início do século XVII, a interação entre as pessoas, os hábitos de consumo, a arquitetura, a religiosidade. Da peste propriamente dita, podemos perceber o terror que uma epidemia era capaz de causar. Com a medicina ainda engatinhando, cada médico sugeria um tratamento diferente. Tinha-se uma vaga noção que o contágio se dava entre indivíduos, mas não se sabia exatamente como, e nem quais meios de preveni-lo. Alguns sugeriam utilizar máscaras, ou então produzir fumaça nas casas, outros a ingestão de soluções. Na verdade a peste bubônica é transmitida por pulgas, geralmente encontradas em ratos, e recebe este nome devido aos "bubos" que na verdade são os nódulos linfáticos que incham e ficam de uma cor negra arroxeada. Mas esse conhecimento era inexistente na época, e portanto o relato trata o contágio como sendo entre indivíduos.


Alguns outros pontos do relato são dignos de nota, como por exemplo as medidas da prefeitura  para inibir a propagação da doença, como manter a oferta de alimentos na cidade. Os padeiros, por exemplo, foram obrigados a continuar produzindo pães. Outra medida, que é bastante discutida, é o fechamento de casas. Quando alguém da casa ficava doente a casa era fechada, todos os moradores eram obrigados a permanecer dentro de casa, e dois fiscais eram designado para vigiar a casa. Esse regime de fiscalização contribuiu também para manter o emprego principalmente dos mais pobres, que perderam seus empregos devido à fuga ou falecimento de seus patrões. Essas pessoas acabavam por se oferecer para todo tipo de trabalho, mesmo que acreditassem correr riscos, como trabalhar de enfermeiras ou recolher os corpos.


Um Diário do Ano da Peste apresenta com detalhes todas as fazes da propagação da doença e o seu impacto na sociedade. Se algo pode ser dito de negativo à respeito do livro é que em alguns pontos ele se torna repetitivo. Por exemplo a discussão à respeito do fechamento das casas, o narrador é fortemente contra, e expõe seus motivos e evidências várias vezes durante o livro, o que faz também com as medidas que acredita serem adequadas a se tomar em uma epidemia. Outro ponto é que a visão do narrador é confusa com relação à religiosidade, uma vez que o contágio é ora determinação divina, e ora é devido simplesmente ao contato com outros doentes. Esses dois pequenos defeitos contribuem para dar veracidade ao narrador como um cidadão que vivenciou a peste e está apenas descrevendo a sua experiência, mas, particularmente na repetição, podem se tornar um pouco irritantes.


Este não é um livro leve, para ser lido como diversão na beira da praia. É um livro intenso, fortemente descritivo, repleto do sofrimento e pânico causado pela peste. Mas é um livro informativo, que apresenta Londres e o seu povo, e o impacto da peste, bem como as decisões que governo e sociedade tomam para enfrentá-la. Um Diário do Ano da Peste é mais um livro que merece ser lido, e que merece estar na Biblioteca do Eden.

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